Resenha da Aliança

Outubro de 2021.

Nesse mês Outubro nos dedicamos mais uma vez às ações alusivas ao Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra. Isso porque, o impacto do racismo na saúde gerou estudos, pesquisas, dados, análises diversas e outros investimentos importantes nos últimos anos, mas persiste em nossas realidades.

A Política Nacional de Atenção à Saúde da População Negra implantada pelo Ministério da Saúde (estabelecida pela portaria do Ministério da Saúde n.º 992/2009 e o Estatuto da Igualdade Racial em seus artigos 7.º e 8.º da Lei 12288/2010), requer a atuação conjunta entre sociedade civil, gestores e profissionais de saúde, no cenário em que estamos.

É importante considerar que o racismo persiste e é um importante determinante social, que permeia as relações interpessoais, os processos, decisões e investimentos em saúde, capaz de interromper as possibilidades de avanço na produção e promoção de saúde, além da prevenção de agravos.

Na atual cena política, é fundamental que os diferentes atores possam mergulhar na conjuntura e ao analisá-la, refletir sobre os passos a serem dados na relação com o Estado genocida e suas políticas que beneficiam uns em detrimento de outros.

Nesse contexto, é importante mergulhar na conjuntura, refletindo sobre a atuação dos movimentos sociais no futuro que se aproxima e os desafios que estão postos para o ano que se anuncia fervoroso diante das eleições. É importante lembrar que a discussão sobre racismo e sua relação com a saúde da população negra, demandam tomada de decisão em primeira instância, para além da pandemia de COVID-19.

A experiência nos diz que a interface entre saúde e educação é sempre muito produtiva, o que nos remete à formação de cidadãos, produção do conhecimento, formulação e implementação de políticas públicas, subsidiadas pelo conjunto de ações afirmativas, que vão para além do ingresso de estudantes negros às universidades, o que a gente tem visto como um resultado importante da intensa luta contra o racismo.

Compreendemos que o processo transformador, capaz de alterar a realidade das pessoas acontece aqui, no território vivo do qual somos partes e isso inclui a nossa relação com a Escola, que para muitos de nós é “a nossa segunda casa”.

A política normatiza a utilização do quesito raça/cor na coleta e produção de informações epidemiológicas para a definição de prioridades e tomada de decisão, em consonância com a aplicação da Portaria 344 de 2017 do Ministério da Saúde que dispõe sobre a obrigatoriedade do preenchimento do quesito raça/cor nos formulários dos sistemas de saúde; além da ampliação e fortalecimento do controle social em resposta ao racismo, e o desenvolvimento de ações e formas de identificação, abordagem, combate e prevenção do racismo institucional no acesso aos equipamentos de saúde, no ambiente de trabalho, nos processos de formação e educação permanente dos profissionais; e a implementação de ações afirmativas para alcançar a equidade em saúde e promover a igualdade racial.

Nossa busca permanente, mobilizando a sociedade civil, articulando-a com o poder público, disponibilizando ferramentas que fortaleçam sua atuação, visa garantir a efetivação do direito humano à saúde, considerando a importância da promoção, prevenção, atenção, tratamento e recuperação de doenças e agravos transmissíveis e não-transmissíveis, incluindo aqueles de maior prevalência para saúde integral da população negra.

Mobilize-se!

Mobilização total em atenção à saúde da população negra.

Assista no Canal Profissional da Escola Municipal de Saúde, a live sobre A Enfermagem e o Compromisso Frente à Saúde da População Negra – YouTube  com Alva Helena de Almeida da ANEM e Estefânia Ventura, do CAPS II de Freguesia do Ó.

Assista e convide os outros!

A Aliança realizou mais uma reunião ampliada de Coordenação

Entre as atividades em alusão ao Dia Nacional de Mobilização Nacional Pró-Saúde da População Negra, nesse 14 de Outubro aconteceu mais uma Reunião Ampliada para coordenação da Aliança.

Esse é um espaço importante, de diálogo entre a Diretoria Executiva, seu Conselho, Associados e demais atores dedicados à luta antirracista. É a oportunidade de avaliação dos processos, organização da comunidade, definição de passos e condução das ações, de forma colaborativa e solidária.

O encontro possibilitou o alinhamento rumo ao final do ano de 2021, discutindo a metodologia mais adequada para o desenvolvimento das ações, as perspectivas em meio a pandemia que ainda não acabou e apontando os desafios considerados importantes pela rede criada pela Aliança.

Fruto desse intenso debate, a Aliança realizará três encontros temáticos com sua rede ao longo do mês de novembro. Confira a agenda abaixo:

11 de novembro – Mobilização Popular e Controle Social

18 de novembro – Formação e Educação Permanente

25 de novembro – Coordenação e Organização Comunitária

Participe!

Indicação de Leitura

A edição de Janeiro de 2021 da Revista RADIS dedicou-se ao tema “Resposta Afirmativa” apontando para a diversidade no campo das políticas públicas e o funcionamento do sistema de saúde no Brasil.

Leia aqui.

Resenha da Aliança – Abril de 2021

Resenha da Aliança – Abril de 2021

Neste dia 07 de Abril, data que se comemora o DIA MUNDIAL DA SAÚDE, a Aliança Pró-Saúde da População Negra apresentou seu vídeo “Vacina já para todes” com mensagens de seus/suas integrantes, com o intuito de mobilizar e articular a sociedade civil em defesa do Sistema Único de Saúde, a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra em todo o país e a urgência de uma plano nacional de vacinação, considerando a necessidade de promoção da igualdade racial, com equidade nas ações em saúde.

No momento em que o país já ultrapassou o número de 330 mil mortes pelo coronavírus, a pandemia que escancarou as desigualdades raciais e sociais, levando-nos a um número maior de mortes na população negra do Brasil, é necessário que o Estado reaja, mudando os rumos de sua condução política-genocida.

As mensagens certeiras de Geralda Marfisa, Arlete Isidoro, Nalu Silva, Arnaldo Marcolino, Flip Couto, Iyá Karem D´Osún e com edição de Toni Baptiste e arte de Mahu Lima, a realização da Aliança Pró-Saúde da População Negra apontava a necessidade de atenção à saúde da população em uma perspectiva macro da promoção do direito à vacina contra a COVID-19.

É fundamental lembrar que a defesa da política de saúde da população negra tem relação direta com a defesa do SUS, a valorização dos profissionais de saúde, a importância do controle social e com isso, o pleno funcionamento do Estado brasileiro e suas instituições, pois, ao pensarmos saúde a partir desse lugar, estamos falando da garantia de direitos básicos e fundamentais, a exemplo do direito à educação, à alimentação digna, à agua potável, saneamento básico, emprego, considerando a diversidade étnico-racial entre outras características do povo brasileiro.

O vídeo, fundamental para dialogar sobre a importância da vacina vai mais além do que seu objetivo: traz diferentes atores implicados em uma única perspectiva: a garantia e o acesso à saúde pública, universal e de qualidade para todos. Essa é uma marca da Aliança, dada a necessidade de mobilização e articulação da comunidade negra, para controle social das políticas públicas, o que pode ser visto também na Plenária Municipal de Saúde e a 21ª. edição do Fórum de Saúde da População Negra realizados na mesma semana.

A atuação dessa rede tem ocorrido atualmente de forma remota e dessa forma, tem acolhido diferentes pessoas ao longo dos encontros de sua rede, ocasião em que tem buscado aprofundar determinadas discussões que compõe o amplo universo da saúde pública, que acontece quinzenalmente. Essa possibilidade de trabalho conjunto tem buscado tapar lacunas importantes como a ausência de informação sobre o tema em nossas comunidades.

As pessoas de uma forma geral têm privilegiado o debate sobre as necessidades da população no campo da saúde sempre associadas ao conjunto de direitos básicos e fundamentais negligenciados constantemente, em meio ao racismo e a discriminação racial impetrado pelo sistema. Isso é parte de um processo político como lembrou Arnaldo Marcolino durante o Fórum recentemente realizado, para quem a comunicação é uma estratégia central para o desenvolvimento das pessoas, o que justifica em si, a parceria entre a Aliança e o Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo. No momento em que o Brasil ultrapassa seu próprio record de mortes por covid-19 e mantem-se como epicentro da pandemia, é fundamental que todos se levantem, se movimentem, se mobilizem, se articulem e se fortaleçam, dando uns as mãos para os outros, o que é por si só, um ato político.

Saúde da População Negra é tema de debate no Dia Mundial da Saúde

A Aliança participou da Plenária Municipal de Saúde. A cada dia da semana de 05 de Abril especialistas discutiram temas relacionados à área de saúde que impactam a vida da população, especialmente neste período em que o Brasil enfrenta o momento mais crítico da pandemia de coronavírus. A programação da Semana Mundial da Saúde foi organizada pelos movimentos sindicais e sociais que atuam em frentes em defesa da saúde.

Em 08 de abril, a plenária discutiu o tema saúde da população negra, sob condução da Aliança. A atividade contou com a presença de: Maiara Souza, Psicóloga e mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP; Sheila Ventura, Assistente Social – Presidente da AProfe (Associação Pro Falcemicos); Geralda Marfisa, Formada em Gestão Pública, integrante do movimento negro dos APNs, Conselheira Gestora da Região Leste Cidade Tiradentes e da Diretoria da Aliança Pró-Saúde da População Negra e, a Iyálorixá Karem D´Osún, fundadora da Aliança Pró-Saúde da População Negra, com mediação de Flip Couto, Diretor Executivo da Aliança Pró Saúde População Negra e idealizador do Coletivo AMEM. Assista aqui:

03 anos de fundação da Aliança

Com mediação de Dr. Renato Azevedo, a Aliança Pró-Saúde da População Negra celebrou o aniversário de três anos de sua fundação neste mês de Abril. A Aliança Pró-Saúde da População Negra surgiu em 2018 reunindo lideranças de religiões afro-brasileiras, pesquisadores, estudantes, gestores e profissionais de saúde diante do impacto do racismo na saúde pública, em rede horizontal, reconhecendo a importância de diversos saberes em atenção à saúde, razão pela qual, foi preciso mobilização, articulação, comunicação, educação continuada e avaliação constante do processo desenvolvido pelas pessoas envolvidas.

Essa rede parte do princípio de que o monitoramento, avaliação e controle social das políticas públicas em atenção à saúde da população negra demandam plena participação popular, o Sistema Único de Saúde, tal como o preconizado pela Lei 81.42 de 1990, uma das leis que regulamentam o sistema. O processo organizado com envolvimento de diversos atores teve como objetivo central a mobilização pró-saúde da população negra como uma ação cotidiana, em defesa do SUS. Agora, ao comemorarem o 3º ano da fundação da Aliança em meio à pandemia de covid-19, diferentes autoridades dessa rede apresentam suas análises, perspectivas, lições aprendidas, reivindicações e memórias relacionadas aos passos dados até dado momento.

Do histórico da política de saúde da população negra segundo as memórias de Arnaldo Marcolino, às perspectivas de Dr. Fábio Rodrigues, o Babalorixá Walter de Xangô Aganjú, Angelita Garcia e Flip Couto, a atividade permitiu uma densa reflexão sobre o impacto do racismo na saúde da população negra brasileira, olhando para diferentes aspectos desse debate.

Resenha da Aliança – Abril de 2021

Em meio ao Dia Mundial para Eliminação da Discriminação Racial a Aliança mergulhou em sua memória ancestral com vistas a atual conjuntura política desse país. Isso porque, como faz aniversário em abril, junto do Dia Mundial da Saúde, temos lá nossas reivindicações, mas também, muito o que comemorar, sobretudo porque seguimos afetuosamente juntos e a covid nos mostrou que somos capazes de nos reinventar.

Entre as atividades do mês, realizamos o V Encontro da rede pró-saúde da população negra, criada pela Aliança nesse processo que nos cura e nos alimenta. O encontro reúne quinzenalmente suas lideranças e acolhe as pessoas interessadas no tema, que chegam nesse espaço de articulação política, com suas demandas e necessidades sempre muito específicas. Esse é um encontro potente, crescente, que fortalece as pessoas uma vez que elas encontram ali, os seus iguais. Além disso, é um encontro político, em que as pessoas são convidadas ao trabalho e à reflexão, sempre olhando de forma didática para o que temos que fazer na prática, para além das teorias. Ali, por exemplo, conseguimos acolher casos de pessoas em busca de atenção à sua saúde mental frente às violências cotidianas. Foi possível até aqui, acolher e encaminhar determinadas situações em busca de soluções aparentemente fáceis, mas que demandam atenção às demandas e articulação entre nós.

Pretendemos consolidar a rede criada pela Aliança, reconhecendo a importância de diversos saberes, contribuições e atuações políticas, nos microterritórios, razão pela qual, tal encontro classificou essa rede como um espaço potente, de articulação e ajuda mútua, que reúne inúmeras capacidades, entre elas a de readaptação em meio ao cenário pandêmico.

O desafio que está posto é a necessidade de uma rede para promoção dos direitos humanos e atuação comunitária em atenção à saúde da população negra, com atuação abrangente, mobilizadora, política, pedagógica, humanitária, que seja de fato capaz de beneficiar as pessoas diante de suas necessidades em saúde, considerando que aqui entre nós, a saúde não é apenas ausência de doença, mas sim o alcance de todos os bens, recursos e serviços necessários para que elas sejam felizes, inclusive exercendo a sua cidadania. 

Para a consolidação de uma rede é preciso mais que um agrupamento, é preciso o espírito de grupo, objetivos comuns uma vez que as questões individuais precisam ser reelaboradas para que sejam consideradas de todos; estabelecer vínculos e laços, o que facilita muito a atuação conjunta; compromisso com o grupo, mas sobretudo com a causa que nos une; é preciso haver predisposição positiva de todos os integrantes e particularmente daqueles que são chamados para o papel de “facilitadores do processo” já que irão se destacar no grupo, liderando-o em comum acordo com todos os envolvidos, para planejar as estratégias destinadas ao desenvolvimento coletivo, levando o grupo a se concentrar nos objetivos pactuados, promovendo assim a participação cidadã de todos os atores implicados no processo, que deve entre outras, apostar no desenvolvimento das lideranças e suas manifestações políticas cada vez mais qualificadas. Mas para tal, o outro tem que querer, tem que ser parte, tem que estar no centro do debate.

Em tempos pandêmicos, o encontro da rede pró-saúde da população negra, realizado com base no planejamento estratégico da Aliança é um marco importante, porque, diante da total ausência do Estado frente à nossa existência enquanto povo, nós estamos juntos, de mãos dadas, nos organizando dentro de casa, estudando, construindo caminhos, organizando argumentos, nos atualizando, nos fortalecendo em conjunto, entre nós e, acolhendo aos demais, ainda que virtualmente. Por essas e outras, celebramos com alegria o aniversário de três anos da Aliança, mas, esperamos você e sua contribuição no próximo. Venha tecer essa rede conosco!

*Contatos: observatoriopopnegra@gmail.com

Denuncie!

A Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania de São Paulo está com um canal interativo para receber denúncias por discriminação: HIV/AIDS, Racial, LGBTfobia, Tráfico de Pessoas e Intolerância Religiosa.

A pessoa pode escolher a melhor forma para fazer a denúncia, podendo se manifestar pela Ouvidoria, por e-mail ou eletronicamente clicando na aba “Denúncia Online”.

Respostas à pandemia em volta do mundo e na cidade de São Paulo

Foto por cottonbro em Pexels.com

A Secretaria Municipal de Relações Internacionais da cidade de São Paulo produz uma série de materiais com as recomendações e medidas adotadas para o enfrentamento da Covid-19 no Brasil e no mundo, com o objetivo de informar a população e contribuir com a formulação de iniciativas para a contenção da pandemia da Covid-19 nas cidades.

Com atualizações semanais, as publicações são feitas em português e inglês e a versão mais recente foi publicada nesta segunda (15 de Fevereiro). É possível consultar os materiais por meio link, que reúne todas as edições já publicadas:https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/relacoes_internacionais/noticias/index.php?p=300094

O material pode ser compartilhado em aplicativos de mensagens como o Whatsapp e o Telegram.

De casa cheia, Aliança realiza sua I Assembleia Extraordinária.

A Aliança finalizou o mês de janeiro realizando sua I Assembleia Extraordinária.  A reunião, realizada remotamente, discorreu sobre o Relatório de desempenho institucional da Aliança em 2020, o seu desempenho financeiro naquele ano, a Previsão Orçamentária para 2021 e a Agenda 2020/2023, composta pelo Planejamento Estratégico e Definição de Prioridades para o ano de 2021.

Flip Couto relatou que institucionalizada em setembro de 2020, mas com suas ações desenvolvidas em rede, desde 2017, a partir do Projeto Xirê, essa associação privilegiou em sua agenda, a elaboração de Texto Norteador e Planejamento Estratégico para o período 2020/2023, ao longo do período setembro e dezembro de 2020. Além disso, a Aliança se ocupou com o processo de sua institucionalização junto ao Cartório, a alimentação de suas redes sociais, a realização das reuniões da Diretoria Executiva e os encontros com sua rede, todos realizados virtualmente em razão da pandemia de COVID-19.

O Diretor Executivo destacou ainda, a importante atuação coletiva dessa rede em meio à pandemia, para organizar e estruturar a Aliança, de forma remota, privilegiando as questões políticas do atual momento.

Considerada a pauta principal da Assembleia, Flip Couto apresentou também a Agenda de 2020/2023 e as prioridades para 2021, definidas a partir do Planejamento Estratégico elaborado pela Diretoria Executiva, reunindo 10 objetivos macros que derivam das finalidades da Aliança, com 10 metas referentes a tais objetivos, que devem ser alcançadas até o ano de 2023.

Foram definidas como prioridades para o ano de 2021, a mobilização social e organização comunitária; controle social das políticas públicas e o financiamento da Aliança Pró-Saúde da População Negra.

Missão da Aliança Pró-Saúde da População Negra

ATENÇÃO – URGENTE!

#AbraceAVacina – É MUITO IMPORTANTE A ADESÃO DAS ORGANIZAÇÕES AS QUAIS POSSUÍMOS PRESENÇA DE NOSSAS LIDERANÇAS.

O Direitos Já! Fórum pela Democracia e a Frente pela Vida lançam a campanha “Abrace a Vacina” com o objetivo incentivar a população a se vacinar contra o novo coronavírus (Covid-19). A campanha, que será lançada oficialmente no dia 18 de janeiro às 15 horas, reunirá importantes organizações da sociedade civil, personalidades e especialistas em saúde pública. O grande desafio será informar setores da sociedade que se mostram reticentes à vacina, muitas vezes, influenciados pelas chamadas fake news.

A campanha, criada voluntariamente pela sociedade civil, buscará unir organizações de todo o país em torno da grande resposta dada pela ciência para enfrentar a pandemia do século, a vacina. A ideia é incorporar cidadãos e cidadãs que abraçarão essa ideia em defesa da vida. Muitas dessas pessoas são formadoras de opinião em suas áreas de atuação e assumem esse ato de amor ao próximo. BEM COMO MOBILIZAR O MÁXIMO POSSÍVEL DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE, POR ISSO É MUITO IMPORTANTE A ADESÃO DAS ORGANIZAÇÕES AS QUAIS POSSUÍMOS PRESENÇA DE NOSSAS LIDERANÇAS. As organizações e movimentos que queiram  aderir, podem informar através do e-mail ronald7ferreira@gmail.com ou 048-99972-2088.

Centenas de entidades já aderiram, abaixo,  algumas delas: 

1. União Brasileira de Mulheres – UBM

2. Lai Lai Apejo

3. Confederação de Mulheres do Brasil – CMB –

4. Aneps – Articulação Nacional de Movimentos e Praticas de Educação Popular em Saude

5. Associação Brasileira Superando Lúpus

6. CONAM – Confederação Nacional das Associações de Moradores

7. Articulação Brasileira de Lésbicas – ABL

8. União de Negras e Negros pela Igualdade (UNEGRO)

9. Movimento Nacional População em Situação de Rua-MNPR

10 – Articulação Nacional de Luta contra a Aids – ANAIDS;

11 – AME – Amigos Múltiplos pela Esclerose

12. RFS- Rede Feminista de Saude, Direiros Sexuais e Direitos Reorodutivos

13. Associação Internacional Maylê Sara Kalí – AMSK/Brasil.     

14. Hunkpaime Hevioso Zoonokum Mean

15. Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros – FONATRANS

16. Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPWBrasil

17. Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA

18- Conselho Federal de Serviço Social – CFESS

19  – Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde – CNTS

20 – Associação Brasileira de Terapia Ocupacional – ABRATO

21 – Federação Nacional dos Farmacêuticos – Fenafar

22 – Rede Unida

23 – Centro Brasileiro de Estudo em Saúde -Cebes

24 – Associação Brasileira de Ensino em Fisioterapia – Abenfisio.

25 – Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO

26 – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social – CNTSS.                                

27 – Conselho Federal de Nutrição – CFN

28 – Federação Nacional de Enfermagem – FNE

29 – Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional(COFFITO)

30 – Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO)

31 – Associacao de Fisioterapeutas do Brasil (AFB)

32 – Federação Nacional dos Nutricionistas – FNN

33 – Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores Em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social – FENASPS

34  – ABRASBUCO – Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva

35 – Sociedade Brasileira de Bioética – SBB

36 – Conselho Federal de Psicologia – CFP

37 – Federação Nacional dos Psicólogos- FENAPSI

38 – Federação Nacional dos Engenheiros – FNE

39 – Confederação Nacional das Profissões Universitárias  Regulamentadas – CNTU

A construção do homem branco racista.

Foto por Mathias P.R. Reding em Pexels.com

Jean Carlos de Oliveira Dantas

“Vale a pena acentuar especialmente o fato de que cada parte que retorna do passado afirma-se com força peculiar, exerce influência incomparavelmente poderosa sobre a massa, e ergue uma reivindicação irresistível à verdade, contra a qual as objeções lógicas permanecem importantes: uma espécie de ‘credo quia absurdum’ (creio porque é absurdo)”  

Sigmund Freud, in Moisés e o Monoteísmo.

          A humanidade entrou na década dos anos 2020, mergulhada em duas grandes epidemias – a Covid-19 e o Racismo, que foram geradas por seu projeto de desenvolvimento centrado no acúmulo individual de riquezas. A segunda epidemia destacada, existe desde o nascimento das civilizações, onde um povo se colocava em posição de superioridade em relação a outro, por meio da discriminação, estratificando gente em várias categorias, tendo como justificativa: as verdades estabelecidas por uma minoria dominantemente bélica-financeira-política, que muitas vezes, colocava que esta realidade social atendia a vontade das suas divindades. Apesar desta verdade histórica, muitas destas sociedades são consideradas por muitos historiadores, como territórios humanos altamente evoluídos em sua época (1). Assim sendo, o racismo evoluiu na humanidade junto com as sociedades, governos e o Estado.               

          A evolução tecnológica, política e social vivenciada pelas nossas sociedades, ainda que de forma desigual, apresenta avanços em vários campos do conhecimento, como a medicina, a psicologia e as ciências da comunicação, mas nada disso conseguiu refrear o racismo em nosso meio. Penso, que ainda se faz necessário amadurecermos num campo estratégico da humanidade – a ética, uma regra de ouro que pode ser traduzida numa simples perspectiva de: “não fazer ao outro, aquilo que não desejas que façam a você” (2). Neste caso específico, o aquilo que me refiro é a discriminação racial. 

          A discriminação racial pode ser entendida como a promoção e a defesa de uma premissa ilógica da existência de uma raça superior numa determinada sociedade (3). Esta tese é legitimada por uma minoria com alto poder político/financeiro, que para manter o status de superioridade, implementa uma corrente ideológica de negação do Estado Democrático de Direito aos outros grupos sociais, considerados como pertencentes as raças inferiores.  Esse pensamento negacionista, que passa a ser verdade inconteste, se utiliza do Estado, e dos seus poderes constituídos, muitas vezes legitimado pela religião dominante, mesmo que este credo diga que todas as pessoas são irmãs, e devem amar o próximo como a si mesmas. Apesar desta mensagem cristã e positiva, e do amor ao próximo, o enfrentamento ao racismo secular, não conseguiu ecoar nas relações humanas que formaram o povo brasileiro – a maior sociedade católica do mundo (4).      

          As relações humanas são permeadas por crenças, verdade e valores e, a prerrogativa da ideia de raça superior, acaba balizando as atitudes e comportamentos inconscientes e conscientes manifestados no encontro entre brancos(as) e negros(as) (5). E é aqui que gostaria de propor uma reflexão a partir do meu olhar de um homem branco, porque é deste lugar que penso, e logo existo. 

          Pensando na formação social do preconceito racial em terras brasileiras, volto as minhas interrogações para o indivíduo e a sociedade, porque um não existe sem o outro e, desta forma, posso conjecturar possíveis caminhos para entender a formação de um homem branco racista.   

          A formação de um homem branco para a vida é viabilizada pela sua família, escola/universidade, local de trabalho e, demais grupos sociais por onde transitará por toda sua existência. Esse processo educativo é sustentado por valores e crenças vigentes na sociedade onde o homem branco nasce, vive e morre, sendo o preconceito racial um dos elementos constituintes dessa formação. Penso, que essa é uma das possíveis teses para entender como se constrói um homem branco racista (6)

          O processo de educação/formação do indivíduo é um dos caminhos para a perpetuação do preconceito racial, e de todas as suas consequências que afetam diretamente a vida da pessoa negra, porém fico imaginando se temos outros fatores formadores do homem branco racista, tais como a genética. 

          A genética é o campo da biologia, que versa sobre o estudo da hereditariedade: a transmissão de características de pais para filhos, ao longo das gerações, onde alguns pensadores e cientistas levantaram hipóteses, ou se aproximaram de conceitos acerca dos processos hereditários na formação dos indivíduos, como o filosofo inglês John Locke (1632/1704), e o pai da Psicanálise – Sigmund Freud (1856/1939). As conjecturas apresentadas por estes autores, tinham como um dos elementos constituintes de suas teses, a Filogenética, que é uma disciplina da biologia, que estuda a origem dos organismos vivos e as relações existentes entre eles (7,8). Assim sendo, a partir desta breve premissa, me peguei pensando em algumas questões, sem medo de ofender a ciência, a saber:  

  • Será que, a ancestralidade do homem branco influência na formação do seu racismo?
  • Será que, o preconceito racial está presente no DNA do homem branco?
  • Será que, o comportamento racista é formado, também por uma espécie de “DNA social” herdado dos seus antepassados?
  • Será que, os ancestrais racistas do homem branco perpetuam o ‘modos operandi’ na genética dos seus descendentes?
  • Será que, as características adquiridas por gerações sucessivas de homens brancos, somados à aos processos de educação/formação geracionais são as bases para toda manifestação inconsciente ou consciente, do preconceito racial?

          Vou parando por aqui com os meus “serás”, porque senão, não concluo este artigo.

          Locke e Freud, apresentaram teses acerca das possíveis bases hereditárias na formação do jeito de ser e existir da pessoa humana, apesar das controvérsias e debates provocados por seus antagonistas, que defendiam a não cientificidade desses postulados (7,8). Freud, utilizou o princípio hereditariedade para subsidiar suas investigações científicas na busca pelos fatores constituintes dos processos de adoecimento ao qual seus clientes eram acometidos, que por extensão, também serviu para ele inferir sobre o surgimento de algumas mazelas sociais, como o preconceito racial, que no seu caso, veio vestido de antissemitismo (preconceito contra, ou ódio aos judeus) (9). Assim sendo, Freud tratou a hereditariedade como um dos meios para tentar explicar, para além dos processos de educação/ensino, o ódio produzido pelo antissemitismo, que atingiu seu ápice na esteira dos anos que antecederam a segunda guerra mundial (1939/1945).

          As perguntas de Freud sobre os processos de manutenção do antissemitismo europeu, ao qual foi vítima desde o seu nascimento, até a sua morte e, que se perpetuava há várias gerações, me faz pensar na manutenção tupiniquim do racismo brasileiro. Uma das respostas vigente é que o Estado brasileiro foi construído sob as bases da discriminação, exploração e mortes de negros(as) e índias(os).                 

          Acredito que, estas reflexões sobre os processos políticos, educacionais ou, quiçá filogenéticos formadores do homem branco racista merecem mais deferência das famílias brancas na atenção à criação dos seus(suas) filhos(as). O lar é o lugar das primeiras lições que um homem branco recebe das pessoas que geraram a sua vida, ou daqueles(as) que lhe acolheram, sendo que este é a base para a construção dos pilares que lhe sustentaram durante toda a sua vida. As famílias brancas devem atentar, refletir e pensar urgentemente, numa formação antirracista, antissexista e, baseada nos direitos à liberdade humana para seus homens brancos.

          As famílias brancas brasileiras, que nasceram aqui ou foram transferidas para cá, possuem uma ferida ancestral provocada pelo julgo da escravização de milhares de africanos(as), e seus descendentes, mesmo que não tenham vivido nesta época, mas mantiveram o preconceito racial na formação contínua da sua prole.  

          Cabe a nós, homens brancos que nascemos no seio de famílias concebidas por nossos antepassados brancos, que sustentaram o preconceito racial, por meios da promoção da ideia de um grupo de pessoas superiores a outras ou, que silenciaram diante das sequelas produzidas pela violência de um Estado e sociedade racistas, criar e promover estratégias técnicas, políticas e sociais para enfrentarmos esta herança ancestral.

           O primeiro caminho para nós, é reconhecer a existência de toda a violência produzida pelo povo branco ao povo negro e índio, na constituição desta nação e Estado. Reconhecer os traços existentes em nossos atos, falas e comportamentos, que trazem sutilmente ou não, resquícios da discriminação racial, como por exemplo: muitas vezes nos admiramos com a beleza negra num determinado local social, não pela beleza em si, mas porque no fundo da nossa alma, estranhamos a presença de uma beleza negra onde deveria somente ter belezas brancas, que pelo privilégio de sua branquidade não precisa de artifícios para justificar a sua presença na sociedade (10). O homem branco tem que ter a coragem de ler, assistir, participar, ouvir a sabedoria ancestral negra sobre a constituição do povo negro nas terras brasilis, pois são narrativas negras falando de histórias negras, sem o viés pasteurizado racial da academia branca. Enfim, cabe ao homem branco ser antirracista, pois ele é fruto da parte que produziu o racismo.        

          O homem branco e o homem negro trazem em suas almas e corpos, as marcas ancestrais do racismo, sendo que o primeiro, apresenta a chaga do opressor e, o segundo, as feridas do oprimido. Esta marca e ferida, estarão presentes em cada um destes homens por toda sua existência. Estes estigmas são geradores de angústia, dores e demais sensações e sentimentos que brotam quando homens brancos e negros se encontram.

          A tensão que é gerada num debate público sobre racismo, onde estão presentes homens brancos e homens negros é oriunda da marca ancestral do opressor e oprimido, que cada um carrega em si mesmo. Neste momento, ocorre um encontro entre os descendentes dos povos que escravizaram e foram escravizados, com a vazão de sentimentos e sensações. Penso, mesmo que romanticamente, que neste momento de debate, temos a presença neste território dos ancestrais da negritude e branquitude:  o pai negro, a ama de leite da sinhazinha, a menina negra que foi abusada, o senhor do engenho, o capitão do mato, a sinhazinha. Aqui percebo a presença de todos ancestrais nas almas e corpos da sua descendência tencionando-os(as), o debate com vistas a criação de um mundo melhor e justo para os negros(as), que deve ter a participação, contribuição e solidariedade do branco. Assim sendo, penso que a tensão produzida no encontro entre o homem branco e negro, não ocorre somente numa arena de debate, mas em todos os lugares, mesmo em momentos prazerosos de comunhão e amizade.                                                  

          A presença do homem branco no enfrentamento da discriminação racial é fundamental e urgente, pois as mudanças sociais mais substanciais, estruturantes e sustentáveis acontecem de dentro para fora e, ninguém melhor do que um descendente de racistas para melhor combater o racismo junto aos seus.

Referências bibliográficas:

1 – Mendes, BMF. “O problema da reificação em História e Consciência de Classe de Georg Lukács.” Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar. São Carlos (2011)”. [acesso 08 jan 2021]. Disponível em: http://www.ufscar.br/~semppgfil/wp-content/uploads/2012/05/brunomendes1.pdf 

2 – Ricoeur, P. “Ética y moral.”Doce textos fundamentales de la Ética del siglo XX (2002): 241-255. [acesso 30 dez 2020]. Disponível em: http://www.brunovivas.com/wp-content/uploads/sites/10/2018/07/Livro-%C3%89tica-e-Moral.pdf

3 – Seyferth, G. “A invenção da raça e o poder discricionário dos estereótipos.” Anuário antropológico 18.1 (1994): 175-203. [acesso 29 dez 2020]. Disponível em:  https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7410192

4 – Moura, C. “Escravismo, colonialismo, imperialismo e racismo.” Afro-Ásia 14 (1983). [acesso 02 jan 2021]. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/viewFile/20824/13425

5 – Pinto, MCC, Ferreira RF. “Relações raciais no Brasil e a construção da identidade da pessoa negra.” Revista Pesquisas e Práticas Psicossociais 9.2 (2014): 256-266. – [acesso 02 jan 2021]. Disponível em:  http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/revista_ppp/article/view/933/713

6 – Barbosa, MIS. Racismo e saúde. Diss. Universidade de São Paulo, 1998. [acesso 30 dez 2020]. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6136/tde-08042020-101524/publico/DR_351_Barbosa_1998.pdf

7 – Jorge Filho, Edgard José. Moral e história em John Locke. Vol. 20. São Paulo. Edições Loyola, 1992.

8 – Freud, S. “Resposta às críticas a meu artigo sobre a neurose de angústia (1895). Primeiras Publicações Psicanalíticas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol III: 143-160; 165-179. Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.  

9 – Freud, S. “Moisés e o Monoteísmo, Esboço de Psicanálise e Outros Trabalhos Psicanalíticos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol XXIII: 67, 311, 319. Rio de Janeiro. Editora Imago, 1996.  

10 – Moreira, A. Racismo Recreativo. 39. São Paulo. Pólen Livros, 2019. 

*Psicólogo; Mestre em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

A honra da mulher viva

Foto por Alex Green em Pexels.com

Claudia Patrícia Luna Silva ; Gabriela Sequeira Kermessi; Viviane Ornellas Pereira Cantarelli; Simone Henrique.

Originalmente publicado em Folha de S.Paulo | 03/11/2020 | Por Claudia Patrícia Luna Silva, Viviane Ornellas Pereira Cantarelli, Gabriela Sequeira Kermessi e Simone Henrique.

A decisão veiculada pela imprensa em 30 de setembro deste ano, sobre a absolvição de um homem que tentou matar a ex-mulher por “legítima defesa da honra”, surpreendeu-nos com revolta e indignação, colocando-nos em reflexão por parte da advocacia que prima pelo não retrocesso ao direito de defesa e à sordidez da fundamentação que a enseja. A questão em discussão não se baseia na punição e sim no pensamento retrógrado que busca abonar a violência contra a mulher em suas diversas vertentes.

O sistema penal é seletivo e o recrudescimento das penas não resguarda a vida e a integridade física e psicológica das mulheres.  Logo, o texto não se trata à relativização das garantias penais, tampouco se furta à extrema gravidade ao observar-se que nossa sociedade tolera a morte de mulheres em detrimento ao ego frágil de um homem, da ausência de política pública para o diálogo e o acolhimento de homens e suas masculinidades.

Todos os dias mulheres morrem vítimas do machismo e a resposta que se dá a essa situação é através do júri popular, nos casos de indícios de dolo na conduta praticada. O júri, formado por cidadãos, reflete a opinião pública e expressa a essência da nossa escolha democrática.

Na Constituição de 1988, nossa sociedade reconheceu a vida como bem jurídico de maior relevância e o detentor do poder, o povo, como julgador nos processos de quem atentar contra esse bem. Há muitas críticas sobre a ausência da formação técnico-jurídica dos jurados populares, porém não são foco desse debate.

Na década de 1970 houve grande repercussão e rechaço por parte de feministas e juristas, a pseudo tese sobre legítima defesa da honra, cuja construção pífia remonta a culpabilização da mulher e tolerância ao homem ofendido em sua masculinidade. À época, Carlos Drummond de Andrade escrevera sobre um dos casos: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”. Em pleno 2020 temos como pauta no judiciário a “honra da mulher”, parece um dejavu mas não é! Diante de tantos retrocessos vivenciados no país, não podemos nos abster de que esse pensamento é estrutural, alavancando o machismo enraizado na cultura patriarcal e julgando comportamentos, escolhas e liberdades das mulheres do Brasil e do mundo.

Espera-se que o/a jurista não se valha do machismo estrutural, logo, no júri, que não é técnico – e ainda que fosse, isso não o exime, pois, as violências estruturais prescindem de diploma para combatê-las -, contudo, a ausência de expertise inviabiliza elementos concretos para análise de uma construção oportunista, de valer-se de uma falácia a sustentar um suposto argumento à absolvição. O ordenamento jurídico já traz os institutos próprios de defesa, que não utilizam uma narrativa perniciosa para resguardar a subjetividade masculina, com o fim de afastar a responsabilização por suas ações, para fazer valer um instituto que nem existe e que não se sustenta como teoria, tampouco na doutrina.

Mais uma vez, observa-se o rompimento do pacto civilizatório, numa retomada da barbárie, consistente na culpabilização da vítima para justificar o ato ilícito de quem exterminou sua vida.

O machismo, assim como as demais violências estruturais, deve ser pauta central a compreender todas as violências e o modo de preveni-las e combatê-las, observando-se também as sofridas pelo viés interseccional de raça, classe, gênero e sexualidade.

Já passou da hora dos homens renunciarem ao tabu de se compreenderem por machistas, pois que essas violências são estruturantes, não é uma questão intrinsecamente de caráter. O primeiro passo para evitar sua ocorrência é admitir que potencialmente as possui, pois, novamente, são elas estruturais e estruturantes.

Sejamos agentes que provoquem a reflexão, quanto ao conceito de mulher pessoa humana livre, para que os princípios culturais e patriarcais sejam colocados em xeque a cada mulher que for atacada e subjugada nesta sociedade criada e mantida para proteger e manter os homens no alto de seus privilégios.

Claudia Patrícia Luna Silva é Conselheira Seccional e Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB SP;

Viviane Ornellas Pereira Cantarelli é Presidente da Comissão de Justiça Restaurativa da OAB SP;

Gabriela Sequeira Kermessi é Secretária-Geral Adjunta da Comissão Mulher Advogada da OAB SP, membro efetiva na comissão de Igualdade Racial;

Simone Henrique é Vice-Presidente da Comissão Especial da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB SP.

Manifesto em Defesa das Tradições de Matriz Africana e Comunidades Tradicionais Afro Brasileira – Candomblé, Umbanda, Jurema, Tambor de Mina, Omolocô Cabinda, Batuque.

Pela Superação de Todas as Formas de Violações de Direitos e Violências

Tudo Que Fere a Vida e Todos os Seres Viventes – Animais, Natureza – o Meio Ambiente, Homens e Mulheres, não nos pertence!!!

Outubro/ 2020

Nós, signatários (as) do presente documento, entendemos a necessidade de exprimir as nossas pertenças e manifestá-las para que a sociedade possa se associar e, a partir de então, consolidar o olhar acolhedor, generoso, solidário; efetivar o respeito à ancestralidade por meio do reconhecimento de nossos costumes, saberes, territórios e cultura à humanização das relações sociais e institucionais.

Estamos vivendo um período de tormentas, e quando não foi diferente? O racismo, sexismo, patriarcado são manifestações de uma mesma moeda, sendo, no momento, agravado com os “imputs” às quebras do ordenamento jurídico nacional. Hoje existe uma liberação de que tudo pode contra os que pensam diferente, crescem os discursos e ações de abafamento a outras concepções de vida, identidade e cultura. Esse silenciamento imposto, muitas vezes, pela violência física, pela coação, pela coerção são constantes, ininterruptos e tem alvo ideológico, étnico-racial, religioso, de gênero e etário. Na mesma medida e intensidade que os processos de invisibilização.

Os dados confirmam a morte de jovens negros, a violência crescente contra as mulheres e contra os territórios e as autoridades e lideranças dos povos e comunidades tradicionais, a agressão constante a rios, mares, matas, as alterações climáticas e de comportamento constituem as violações de direitos; as violências, as negligências com a natureza passam a subordinar todas as pessoas, e especialmente, os grupos historicamente alijados dos bens sociais e das oportunidades.

Constantemente tem ocorrido o que denominamos marginalização de todas as formas de luta dos movimentos sociais, dos espaços de diálogo, de preservação da vida e mais do que isso, vem tentado engendrar máculas à desagregação desses grupos e, principalmente, atingir o seu eixo mobilizador, de resistência, que o faz gerador de força, coragem, determinação – os povos tradicionais de matriz africana e afro- brasileira.

Esta ação para a população negra e povos tradicionais de matriz africana e afro- brasileira tem um acréscimo, considerando que o racismo, a intolerância não os vê como sujeitos de direito e sim, somente de deveres, o dever de calar-se, de não mostrar existência, de não viver o sagrado; não nos veem como “seres viventes, humanizados” e, a partir de uma desconstrução da nossa humanidade, atrelada à origem das justificativas à escravização. Desde o início era mais que a cor da pele, estava ligada a valores e princípios que se contrapunham ao sistema capitalista, o individualismo, o lucro de alguns em detrimento do sofrimento de muitos.

O ódio tem sido o maior sentimento que quem não nos aceita tem nos dados.

Mas quem somos? Somos pessoas que resistiram e resistem à lógica colonial, neoliberal, ao racismo estrutural; mantivemos uma língua própria, formas de nos organizar socialmente, detentores de um contorno próprio de educar e de se alimentar; somos oriundos dos que para cá foram forçadamente trazidos, os Bantu – oriundos do Congo, Angola, Moçambique, e que geraram Omolocô, Umbanda, Jurema, Kabinda; falamos kimbundo e kicongo, ponto riscado. Somos os que seguindo a linha do tráfico humano, após o século XVII – denominou-se de Jejês; falamos o Ewe fon, somos Mahi, Fanthi, Iorubás, Tambor de Mina. Enfim, todas as construções de fortalecimento identitário, todas as resistências e estratégias ao enfrentamento à opressão histórica, somos, principalmente, a firmação de uma forma de interação entre o homem, mulher e a natureza, o sagrado.

Somos povos detentores de saberes de mais de cinco mil anos, de compreensões de mundo dinâmicos, interpenetrados entre todos os seres vivos, absolutamente adversa da realidade em curso, e, alimentados por esses princípios, temos manifestado a necessidade do exercício pleno de nossos direitos. Mais que direitos à prática de nossa fé, exigimos direito à nossa cidadania plena.

Nossos espaços são lugares sagrados que acumulam histórias, habilidades disponibilizadas ao conjunto social, lócus do respeito à vida. Nesses lugares a resiliência por um mundo sem opressão são alimentados. Os idosos e idosas são fontes contínuas de conhecimento, as crianças são reservatórios, os jovens cuidados como, também aprendizes de cuidadores e cuidadoras.

Sim, nesses espaços se promove a vida em plenitude, onde potencialidades, talentos, interesses são despertos. Nos amalgamos com a natureza, portanto, folhas, matas, florestas, são sagradas; águas doces, salgadas, em montanhas, em pântanos, em ventres são sagradas; terra, o chão para a caminhada, para a semente e o saber semear é o caminho; todos esses elementos são constitutivos de nosso existir, o fogo que aquece, queima e limpa as impurezas, o ar, fonte inesgotável de vida, e todas essas manifestações em movimento – ciclones, terremotos, tsunamis – são energias vitais.

Esses espaços, em tempos já pré-determinados, tudo em seu tempo, sem pressa, pois há a ocasião de ouvir para poder falar e depois agir, são lugares onde cultuamos a vida, onde adquirimos o saber e o sentido de continuidade; são famílias extensas, em grandes territórios.

Portanto, cabe à natureza humana compreendê-la, para o seu equilíbrio, aceitar e sequenciar. Nesse sentido, tudo aquilo que violar, ofender, agredir, violentar mentes, corpos, direitos, não pertence aos princípios harmônicos cultuados, assimilados por nossas tradições, que impedem o pleno exercício de nossa cidadania ativa. O sagrado é referência, perpassa por mim, por nós e é dele que se parte em busca de um novo lugar e de lá para uma longa e honrosa caminhada. Em contato com o sagrado dos povos originários aprimoramos os saberes, pois o encontro se deu na adversidade e no reconhecimento que a humanidade é uma só.

Hoje somos violentados, sofremos com as violações de nossos territórios tradicionais, denominados Casas, Ilês, Terreiros, Templos, Tendas, Abasá, Kwe, Nzo, enfim, espaços sagrados; ameaçados quando nos apresentamos com nossas estéticas tradicionais ou litúrgicas; retirados de nossos lares por pessoas que não respeitam os direitos humanos, dos quais o Brasil é signatário. Somos ofendidos em nossa dignidade; abusadores tentam se apropriar de nossos saberes para, misturados e misturadas, se passarem por tradicionais. Basta!

E, na qualidade de autoridades tradicionais, pois compomos a organização política e social desses povos; somos Yalorixás, Mam’etus, Babalorixás, Tat’etus, Ekedis, Kotas, Ogans e Tatas, Pais e Mães, Madrinhas, Padrinhos, Lideranças Tradicionais à frente de organizações, e estamos unidos e unidas para dizer que Basta!

Basta da ignorância do outro sobre nós!

Tudo Que Fere a Vida e Todos os Seres Viventes – Animais, Natureza – o Meio Ambiente, Homens e Mulheres, não nos pertence!!!

Somos crianças, jovens – meninas e meninos, mulheres, idosas, idosos, autoridades tradicionais, pertencentes aos Povos e Comunidades Tradicionais Africanas e Afro- brasileira, e dizemos sim!

Pelo respeito à dignidade da pessoa Humana

Pelo respeito à criança e adolescente

Pelo respeito às Mulheres Pelo respeito aos Idosos

Pelo reconhecimento a minha Tradicionalidade Pela direito de cultuar o meu Sagrado

Pela grandeza de sermos Umbandistas, Candomblecistas, Juremeiros, Batuques, Tambor de Mina!

Somos Povos Tradicionais de Matriz Africana e Afro-brasileira

Por uma Frente Ampla em Defesa das nossas Tradições e do nosso Sagrado!!!!

ASSINAM O PRESENTE MANIFESTO:

Aliança Pró-Saúde da População Negra de São Paulo – Iyá Karem D’Osún,

Associação das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana de Campinas e Região/SP

Associação Cultural, Religiosa e Beneficente Comunidade de Oyá e Ogun – Mogi das Cruzes/SP

Associação Religiosa Afro cultural Social e Ambiental Axé Ya Ogun Boale – Francisco Morato/SP

Axé Omo Oya – Campinas/SP

Casa de Oração dos Filhos de Iemanjá

Casa de Caridade Irmãos Fraternos – Cabana de Pai Thomaz – Atibaia

Casa de Caridade Pai João de Oyó – Dirigente Mãe Fabiana de Iemanjá Pai Ricardo de Xangô

Centro de Referência e Resgate de Cultura Afro-brasileira e Indígena – C.R.A.B.I – Acaça Axé Odo – SP

Destaques do Axé – Campinas

Escola de Curimba e Arte Umbandista – Nilton Fernandes de Aruanda – São Paulo/ SP Ile Asé Alaketu Oya Balé- Suzano/ SP – Iyá Bárbara

Ilê Axé Iya Ogun Boalé / Francisco Morato/ SP – Ìyálòrísás Andreia Ti Iyemonja Ile Ase Oba Adakedajo Omi Alado

Ilé Àṣẹ Olú Àiyé Àti Ìyá Omi – Ìyá Adriana ti Oluaiye – São Bernardo do Campo/SP Ile Ase Omi Orun Efon – Baba Odesi – Manoel Domingues – Fonsanpotma SP

Ilê Asé Iyalode Oyo São Paulo /SP

Ilê Axé Sùrû Templo de Umbanda Caboclo Arruda – Campinas Ilê Asé Kavungo Nzambi – Itupeva

Instituto Afro Descendente Centro Cultural Ile Ase Alaketu Yemanja Ogun Te E Boiadeiro Pedra De Cristal – São Paulo/ SP

Instituto Voz Ativa – Campinas/SP

Fórum Nacional de Cultura e Religião Africana – FOESP – Tata Matamoride – Eduardo Brail

Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana – FONSANPOTMA

Mulheres de Axé do Brasil – MAB

Primado Organização Federativa de Umbanda e Candomblé do Brasil Que cejá Norungevi Casa de Umbanda e Candomblé – Sumaré

Teia Nacional Legislativa em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana

T. E. U. Vó Benedita de Campinas/SP

Tenda de Umbanda Luz e Caridade – Salto/SP

Tenda de Umbanda Zé Pelintra do Morro – Indaiatuba/SP Tenda de Umbanda Cacique Ubiratã e Pai Sacome – Valinhos

Tenda de Umbanda Caboclo Cacique Pena Vermelha e Ogun Iara – Filhos do Cacique – São Paulo/SP

Tenda de Umbanda Arautos da Luz – TUALUZ

Templo de Umbanda Caboclo Fecha Ligeira e Tranca Ruas das Almas – Campinas Templo de Umbanda Caminhos da Luz e Caboclo Rompe Mato – Sumaré Templo de Umbanda Pai Paulo de Aruanda

Templo de Umbanda Estrela Guia – Paulina Templo de Umbanda Pai Oxalá – Campinas Terreiro de Umbanda Luz e Caridade – Campinas

Terreiro Umbanda Caboclo Guiné – Casa do Pedrinho – Campinas

Airton Pereira Junior – Conselheiro Tutelar – Campinas/ SP Ogan Prof. Mario Luis da Silva – Carapicuiba/SP

Nzo Matamba Mankulu Candomblé Kongo-ngola e Cultura afro-brasileira – São Paulo/SP Rede Nacional de Religiões Afro Brasileira e Saúde – RENAFRO/SP

CONTAMOS COM A SUA ADESÃO!!!!

#emdefesadastradiçõesdematrizafricanaeafrobrasileira

Postado 27 outubro 2020 (Atualizado 28 outubro 2020)

Assine aqui a petição online

Um diálogo entre eu e a minha alma.

Celso Ricardo Monteiro*

          Permitam-me iniciar essas linhas agradecendo à Olodumare – O Senhor Criador de Todas as Coisas – pela minha vida, a minha saúde, a minha família, o meu trabalho e a minha capacidade de resistir. Quero também agradecer muito pelas oportunidades ao longo da vida, entre elas, a possibilidade de estar aqui, vivo, trabalhando, produzindo, vivendo. Estas linhas moram em mim desde muito cedo e certamente eu nunca fui tão lucido, a ponto de escrevê-las distinguindo a razão do coração. Talvez tenha sido o candomblé a minha experiência primeira, de vida na prática, visto que ainda escuto o som dos tambores no telhado de minha casa, lá no Jardim Primavera, quando minha amada avó ainda viva e suas filhas, subiam vestidas de branco, como rainhas. Essa é uma cena que mora nas minhas lembranças mais intimas e em um canto que difere daquele em que estão as cobras que eu tanto tenho medo, mas ainda assim me observam cuidadosamente em cada cantinho de Juquitiba.

          O candomblé para mim, é fonte de vida. Foi assim agora na pandemia de covid-19, mas foi também quando eu saí de casa, cheio de desejos e arrogâncias juvenis. Foi assim quando fui morar com Mãe Isabel sem ela me conhecer e mais tarde, quando me tornei um excelente funcionário do escritório de turismo, que vendia todos os planos possíveis para que todo mundo fosse feliz – exceto eu, já que tinha que abrir e fechar o escritório no lugar da dona e seus filhos que iam tomar sorvete naquele americano famoso e quando voltavam com a boca suja, diziam pra mim que foi muito bom.

          A roda do candomblé, de fato, sempre foi a minha maior inspiração; uma oportunidade de renascer e de reviver, nos tempos em que a corrente foge ao lado oposto. É como se eu estivesse “na rota dos Orixás” desde sempre, o que só pude constatar depois, conversando com Euclides Talabyan, sentado no quintal da Casa Fanti Ashanti, levado por minha amada Luza, durante a pesquisa que participei na Universidade Federal do Maranhã sob o comando de Istavan Dersen à luz do processo de implantação do Quesito raça-cor no sistema de saúde do Maranhão. Tratado como pesquisador eu era apenas um instrumento de Osogiyan para garantia da saúde da população negra naquele universo e agora participando da oficina conduzida pelo governo local, anos depois, que delícia é constatar que as pessoas avançam.

          O cheiro do candomblé me alucina e apazígua minha alma. Minha afirmação deriva da experiência vivida ao longo das últimas três décadas, sobretudo no período de condução do Palácio de Oxaguian – o jovem comedor de inhame pilado – que conquistou o mundo. Jovem guerreiro e propulsor, senhor da paz obtida em meio a guerra, um sinal de vitórias e conquistas desejadas, meu Pai tem sido fiel e companheiro ao longo dos anos e, isso é possível visualizar com facilidade na condução do Axé Igbin de Ouro, a nossa casa.

          Enquanto uns discutem o sexo dos anjos, me agrada constatar que aquela casa tem sido o espaço de experiências inenarráveis que compõem não apenas o imaginário social acerca do candomblé, mas também o como a religião e religiosidade são pequenas partes de um todo, onde indivíduos e instituições são orientadas de forma a seguir, a partir do modelo organizacional que compõe a história de Oxaguian.

          Preciso dizer do privilegio que tem sido ocupar o lugar de orientador daquela comunidade: se o que estava posto era a manutenção da tradição nagô-ketú em território nacional, essa vivência só é possível na prática, se acompanhada do enfrentamento do racismo sempre associado à intolerância religiosa, no entanto, o canto dos pássaros desde as primeiras horas do dia sobre o telhado, o cachorro no quintal – mas que nem é nosso -, que mora lá e está sempre pronto a fiscalizar os nossos ebós/oferendas ritualísticas, o som das águas da cachoeira e das minas d’água, que tem sido pra mim uma espécie de guia orientador para a semana toda, as panelas no fogão; o cheiro do inhame assado e tantas outras possibilidades de vida, me soam como a chama da vela na escuridão.

          Há um fenômeno novo naquela sociedade, porém, que eu não havia experimentado antes: o silêncio dos tambores em resposta à pandemia que tanto tem nos maltratado. Depois de tudo que eu já tinha vivido no candomblé, essa experiência que se acentuou na pandemia de coronavírus, tem me tocado profundamente, razão pela qual eu me sinto mais sensível e cheio de dedos diante das pessoas e as coisas da vida cotidiana. O ser humano tem se demonstrado cada dia pior e isso me assusta, mais que a cena da sucuri atravessando a estrada, perseguida pelos machos que eram menores que elas, mas cheios de desejo.

          É preciso agradecer; temos que ser gratos. Em um ano de tantas mortes, perdas e doenças, essa vivência no Terreiro, ancorada hoje na relação com o Ile Omolu e Oxum tem nos possibilitado a escuta aos sinais e a resposta adequada nos momentos previamente definidos, obviamente que não por nós; uma honra!

          A nossa necessidade de cuidado e atenção parece ter aumentado em meio às obras do Palácio em tempos de COVID. É impressionante como nos tornamos mais vulneráveis e ao mesmo tempo mais crentes, espertos e interesseiros para as coisas da vida, que realmente nos dizem respeito diretamente. Essas questões todas tem me atravessado de forma tão avassaladora que não me sobrou outra opção, a não ser parar para ouvir e compreender os sinais oriundos de outros cantos.

          Mais uma vez, como na infância, eu me vi tendo que olhar para os lados e compreender que eu tinha problemas, mas, a sociedade me apresentava interrogações que não eram especificamente para mim e sim, parte de seu próprio desenvolvimento. No entanto eu sou parte disso, mesmo sem acesso “ao sorvete americano.” Aconteceram tantas coisas, ouvi tantas histórias, vivenciei tantas situações que me coloquei no lugar de questionador para interrogar qual era o meu grau de participação nessas coisas todas que tem me mobilizado, visto que em mim, há uma insatisfação danada, muito embora ao longo dos anos eu tenha participado ativamente da vida política de minha gente, colaborando com iniciativas muito legais e participando de situações em prol do desenvolvimento das pessoas em geral, para além do meu ofício.

          Longe de fazer aqui um desabafo, de ordem pessoal, essas linhas me levam a compreender que sim, “o pensamento nagô é uma provocação à reversibilidade dos tempos e à transmutação dos modos de existência, sustentada pela equivalência filosófica das enunciações (SODRÉ; 2017, 23)” e a isso é preciso estar atento, quando da relação com o mundo externo.

          É também nesse universo cheio de adversidades que a mim parece muito agitada essa caminhada entre dois mundos, ou três no meu caso, já que venho do Axé para a relação com os demais aspectos da vida coletiva, enquanto muitos outros dos meus pares vivenciaram experiências diferentes da minha.

          Minha história marcada pela dor do corpo, vem da relação de minha família com os Orixás, mais tarde substituída pela presença de Deus por meio de diferentes Igrejas. Me deixei levar, por exemplo, pela diferença do pensamento institucional quando comparada a minha vida nagô com o meu trabalho, a produção científica e a organização dos movimentos sociais. Se as ciências sociais me provocam ao ponto de questionar o que há de real no discurso de diferentes indivíduos, as tradições afro-brasileiras intensificam em mim, a certeza de que “não comungamos com as sobreposições “multiculturalistas”, em que o gosto do pensamento pelo “exótico” admite harmonizações, mas sempre sob a égide da lógica hegemônica” (SODRÉ. 2017, 22).

          Por fim, é preciso ser grato. Em meio a tantos desafios impostos pela ‘vida moderna’ nesse ‘estado de negação’ é possível ver as vitórias e conquistas de uma caminhada árdua, em que nem sempre tínhamos água fresca nos potes. A dupé meu Pai, pois eu cheguei até aqui, tal como pressupõe a vida nagô!

*Sacerdote do Ile Àse Igbin de Ouro; Professor Licenciado em Ciências Sociais. Contato: celsormont@gmail.com

Referência bibliográfica

SODRÉ, M. O Pensar Nagô. Rio de Janeiro; Editora Vozes; 2017. 

Prêmio e honra!

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) outorgou à discente egressa da Fiocruz Bahia, Jaqueline Goes, o Prêmio CAPES de Tese 2020, da área de MEDICINA II, pelo Programa de Pós-Graduação em Patologia (PGPAT), curso da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em Ampla Associação com Fiocruz Bahia.

Jaqueline Goes tem graduação em Biomedicina, pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, e obteve o mestrado em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI), pela Fiocruz Bahia.

A tese intitulada “Vigilância genômica em tempo real de arbovírus emergentes e re-emergentes” foi defendida em 2019, sob orientação do pesquisador da Fiocruz, Luiz Alcântara Jr..  O trabalho é resultado da participação de Jaqueline no projeto Zika in Brazil Real Time Analysis (Zibra).

Os resultados obtidos no estudo foram divulgados em cinco publicações relevantes, sendo duas destas na Nature e Science. A tese de Jaqueline já havia sido agraciada, em 2019, com o Prêmio Gonçalo Moniz de Pós-Graduação, na categoria Egresso – Doutorado (1º lugar), e no XIII Encontro de Pós-Graduação das Áreas de Medicina I, II e III da CAPES, com o Prêmio de Melhor Trabalho de Tese.

Parabéns, Dra Jaqueline!!

Saiba mais https://bit.ly/3jqS0FQ

Indicação de leitura: Indicadores de avaliação e monitoramento da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.

Luís Eduardo Batista, et al.

Resumo

O artigo apresenta a metodologia de construção de um painel de indicadores para monitoramento e avaliação da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN). A metodologia foi desenvolvida em quatro etapas: identificação do cenário, contexto da implementação, indicadores da PNSIPN e validação dos indicadores. Em todas as etapas participaram os proponentes da Política, burocratas de nível de rua, assessores técnicos dos colegiados de representação de gestores, representantes dos movimentos sociais, de associações e fóruns de patologias. Esses atores identificaram e pactuaram os indicadores do painel, categorizados em indicadores de enfrentamento ao racismo; indicadores das condições sociodemográficas segundo sexo, faixa etária e raça/cor; e indicadores de morbidade e mortalidade segundo sexo, faixa etária e raça/cor. O painel de indicadores para o monitoramento e análise da implementação da PNSIPN é viável e pode ser utilizado em nível municipal, estadual e federal, possivelmente subsidiando o processo de implementação e possibilitando o aprimoramento da gestão. A metodologia contribui para identificar indicadores de políticas públicas destinadas à garantia dos direitos humanos, da vigilância de direitos e da advocacy.

Palavras-chave: Políticas Públicas em Saúde; Saúde da População Negra; Avaliação em Saúde; Indicadores de Saúde; Indicadores de Gestão

Leia em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902020000300315&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt