Resenha

Nesse mês fevereiro ocorreu o II Encontro da Rede Pró-Saúde da População Negra, sob condução da Aliança. A atividade foi marcada pelo debate sobre o novo coronavírus, a vacina tão esperada e a atual conjuntura política desse país, que reúne os ataques de que foram vítimas as parlamentares negras recém eleitas no município de São Paulo, as decisões do Planalto, a atuação de Dória e a corrida para as eleições de 2022 que já começaram.

Esse é um momento estratégico da Aliança, pois lá se encontram a Diretoria Executiva, o Conselho Fiscal, os demais associados, especialistas de diferentes áreas e os convidados da Aliança. Um encontro aberto ao público, em formato de roda em volta do baobá, que agora acontece virtualmente, com afeto e carinho entre as pessoas. Muito lindo de se ver!

São muitas as demandas da população negra, no universo da saúde púbica, sobretudo quando se olha para a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra no município de São Paulo, mas claro, a covid-19 tem nos consumido, por conta da diferença entre os óbitos de negros e não negros em todo o território nacional, pois, a vacina tão esperada, ainda está muito distante dos nossos.

Esse encontro faz conexão direta com o Fórum de Saúde da População Negra do Município de São Paulo – organizado pela Diretoria Executiva da Aliança – cuja função é observar e fazer o controle social da política aqui em questão. Se o fórum tem a função de dialogar com a população e discutir a conjuntura política, cabe a essa rede conduzir os processos a ela relacionados, mobilizando as lideranças, proporcionado as trocas necessárias entre as lideranças de movimentos sociais, o povo de santo, os pesquisadores, gestores e demais interessados na defesa das políticas públicas de saúde, conduzidas por um sistema que deve ser público, de qualidade, com acesso universal, integralidade do cuidado e equidade nas ações de saúde, tal como tem nos dito insistentemente Celso Ricardo Monteiro, ao conduzir as estratégias para prevenção de IST/AIDS junto às religiões afro-brasileiras e a população negra paulistana, por meio do Projeto Xirê, na Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

Não se deve questionar, portanto, a importância do controle social das políticas públicas de saúde, mobilizando as lideranças de diferentes movimentos sociais, uma prerrogativa do sistema. A Aliança, que se prepara para celebrar o aniversário do terceiro ano de sua fundação, mora exatamente nesse eixo paradoxal do estado brasileiro.

Dessa forma, foi possível ouvir por exemplo, Geralda Marfisa questionar o porquê Monica Calazans foi escolhida para ser a primeira vacinada no Brasil, além do desvio das vacinas, tão discutido por essa rede. Questiona-se assim, o como a população negra é politicamente usada, mas não se beneficia dos processos de uma forma geral, para além daquilo que é pontual; logo, a cara da política brasileira.

Enquanto muitas pessoas precisam ouvir as nossas múltiplas vozes diante destas questões, o que envolve a descrença do governo genocida, é preciso falar, é preciso ouvir, é preciso se movimentar. A Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, coordenada por Ebomi Nilce Naira de Oyá do Ile Omolu e Oxum – RJ tem orientado os Terreiros a se manterem de portas fechadas estimulando o distanciamento social, além de dialogar com as lideranças dos Terreiros para que valorizem o sistema público de saúde, acompanhem a evolução da vacina e cuidem de suas famílias, com a benção dos Orixás. Em São Paulo, sob condução de Iyá Cristina Martins de Oxum, a RENAFRO, como é carinhosamente conhecida, iniciou uma campanha virtual em que as lideranças se declaram favoráveis à vacina, estimulando os demais a acessá-la, conforme os critérios do governo para sua distribuição. Nesse mesmo movimento, a próxima edição do Fórum também discutirá tão importante agenda política no mês de março.  

Desta forma, é preciso que todos se levantem, se mobilizem e se articulem em defesa daquilo é que é básico e urgente: o direito humano à saúde digna, pública, de qualidade e com equidade em suas ações. É urgente que os movimentos sociais rompam o silêncio e se manifestem em defesa do SUS e atuem com veemência em atenção à saúde da população negra brasileira.

O chamado da Aliança nesse momento, é para que você venha dar a sua contribuição!

Veja isso!

Foto por cottonbro em Pexels.com

Conass e Organização Pan-Americana de Saúde lançam hoje a Coleção Covid-19, uma coletânea de artigos preparados por integrantes de diversas áreas do conhecimento para discutir as lições, perspectivas e efeitos da pandemia para o SUS e para o País.

Dividida em seis volumes, a obra aborda desde as respostas à pandemia, os desacertos e as implicações jurídicas até o impacto social provocado pela doença, que enfrenta agora um recrudescimento no País. Para fazer essa ampla reflexão, foram convidados mais de 190 autores. Na lista, encontram-se ex-ministros da Saúde, parlamentares, juízes, professores, jornalistas, representantes de órgãos de controle e integrantes de instituições internacionais. Os textos produzidos pelos colaboradores da Coleção Covid-19 foram respeitados na íntegra. “As análises representam um valioso instrumento para analisar a pandemia sob seus mais variados aspectos e certamente vão auxiliar a gestão estadual do SUS na tomada de decisão”, afirmou o presidente do Conass, Carlos Lula. Confira em: http://www.conass.org.br/conass-e-opas-lancam-colecao-sobre-covid-19/#.YBVcjKT_qgQ.whatsapp

Em rede!

A Aliança Pró-Saúde da População Negra iniciou o ano de 2021 realizando nesse 28 de janeiro, o I Encontro de sua Rede. Uma rede pró-saúde da população negra em resposta ao impacto do racismo na saúde de nosso povo. A atividade coordenada por Flip Couto reuniu as principais lideranças dessa rede, por meio de reunião remota, diante da necessidade de isolamento social e as medidas de contenção da COVID-19, ainda presente entre nós.  

O encontro foi iniciado com o depoimento da Sra. Geralda Marfisa, Diretora Financeira da Aliança, falando sobre a luta por direitos das pessoas idosas pelo direito ao transporte na cidade de São Paulo, o que inclui o ato realizado recentemente em frente à Prefeitura de São Paulo pela manutenção do direito à gratuidade no transporte público.

Lucas Eduardo, do Coletivo Megê, contribuiu com a discussão demonstrando o interesse de mobilizar jovens para fortalecer o movimento. Angelita Garcia contribuiu propondo para que jovens apoiem na divulgação com imagens e textos elucidativos para ampliar a circulação de materiais legítimos em especial aos idosos da família, nas redes, no whats App.

Um outro ponto importante, foi apresentado por Flip Couto, Diretor Executivo da Aliança, que convidou aos presentes a falarem sobre o plano de imunização contra a Covid-19. Segundo Iyá Cristina, da RENAFRO, o que mais está prendendo a atenção das pessoas é a ida das mulheres na fila da vacina e a necessidade de combater a resistência da vacinação, sobretudo na juventude.

Os profissionais de saúde, compreende a campanha da vacinação como lenta e que nem todos os profissionais conseguiram a vacina. A população tem um receio que foi “politicamente implantado” (sic) e o governo federal defende um posicionamento negacionista pelo fato de ter tido gastos com produção de cloroquina. É preciso que todes os trabalhadores da rede hospitalar sejam vacinados, e o fato de pessoas pretas estarem mais expostas, como por exemplo no trabalho de limpeza.  É importante refletir sobre a questão da classe média que coloca tudo que é vacina como algo ruim, fortalecendo o movimento negacionista e o fato de que é importante usar o termo “trabalhadores da saúde” para incluir todes que atuam nas instituições de saúde, não apenas médicos e enfermeiros. Ester Horta, membro do Conselho Fiscal da Aliança, trouxe uma pesquisa recentemente divulgada, Faculdade de Saúde Pública da USP e a Conectas Direitos Humanos que revelou a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo Governo brasileiro sob a liderança da Presidência da República”. Ester acrescentou ainda que tais ações foram e são apoiadas pelo mercado, pelo sistema capitalista.

Dona Arlete Isidoro, da OGBAN, compartilhou sobre a experiência do grupo que ela está participando de um curso de conselheiros de saúde, no qual propôs uma discussão sobre o impacto do racismo na saúde e solicitou apoio da Aliança na construção do texto.

O advogado Renato Azevedo, de Santos, informou que o movimento da baixada está levantando uma discussão sobre a saúde integral da população negra e o enfrentamento do racismo no atendimento nos serviços públicos. Relata, como esse processo foi judicializado em Santos e propôs compartilhar esse processo que faz uma linha histórica de atendimento à saúde da população negra.

Para os membros da Aliança é preciso transformar as demandas trazidas a essa rede em um posicionamento político concreto como a execução pontual, que seja estratégica, com notas de repúdio, por exemplo.

A rede também propôs uma reflexão sobre o dia da Visibilidade Trans, que é celebrado no dia 29 de janeiro, pontuando que, não apenas nesta data, mas durante todo o ano, é preciso que também a Aliança seja um espaço de acolhimento dessas experiências. Neste sentido Ester Horta convidou a todas as pessoas cisgêneras a se incomodar com as violências que pessoas trans sofrem diariamente e também convidou a todes a acompanhar o dossiê da ANTRA (Associação Nacional de Pessoas Trans e Transexuais) que será lançado no dia 29/01, além da programação da FONATRANS – Fórum Nacional das Travestis e Transexuais Negras e Negros como o III Festival Traviarcado, cuja abertura ocorreu inclusive na noite de 28 de Janeiro.

O próximo encontro da rede será realizado dia 11 de fevereiro. Venha participar você também!