Um diálogo entre eu e a minha alma.

Celso Ricardo Monteiro*

          Permitam-me iniciar essas linhas agradecendo à Olodumare – O Senhor Criador de Todas as Coisas – pela minha vida, a minha saúde, a minha família, o meu trabalho e a minha capacidade de resistir. Quero também agradecer muito pelas oportunidades ao longo da vida, entre elas, a possibilidade de estar aqui, vivo, trabalhando, produzindo, vivendo. Estas linhas moram em mim desde muito cedo e certamente eu nunca fui são tão lucido, a ponto de escrevê-las distinguindo a razão e o coração. Talvez tenha sido o candomblé a minha experiência primeira, de vida na prática, visto que ainda escuto o som dos tambores no telhado de minha casa, lá no Jardim Primavera, quando minha amada avó ainda viva e suas filhas, subiam e vestiam-se como rainhas. Essa é uma cena que mora nas minhas lembranças mais intimas e em um canto que difere daquele em que estão as cobras que eu tanto tenho medo, mas ainda assim me observam cuidadosamente em cada cantinho de Juquitiba.

          O candomblé para mim, é fonte de vida. Foi assim agora na pandemia de covid-19, mas foi quando eu saí de casa, cheio de desejos e arrogâncias juvenis. Foi assim quando fui morar com Mãe Isabel sem ela me conhecer e mais tarde, quando me tornei um excelente funcionário do escritório de turismo, que vendia todos os planos possíveis para que todo mundo fosse feliz – exceto eu, já que tinha que abrir e fechar o escritório no lugar da dona e seus filhos que iam tomar sorvete naquele americano famoso e quando voltavam com a boca suja, diziam pra mim que foi muito bom.

          A roda do candomblé, de fato, sempre foi a minha maior inspiração; uma oportunidade de renascer e de reviver, nos tempos em que a corrente foge ao lado oposto. É como se eu estivesse “na rota dos Orixás” desde sempre, o que só pude constatar depois, conversando com Euclides Talabyan, sentado no quintal da Casa Fanti Ashanti, levado por minha amada Luza, durante a pesquisa que participei na Universidade Federal do Maranhã sob o comando de Istavan Dersen à luz do processo de implantação do Quesito raça-cor no Maranhã. Tratado como pesquisador eu apenas um instrumento de Osogiyan para garantia da saúde da população negra naquele universo e agora participando da oficina conduzida pelo governo local, que delícia é constatar que as pessoas avançam.

          O cheiro do candomblé me alucina e pazigua minha alma. Minha afirmação deriva da experiência vivida ao longo das últimas três décadas, sobretudo no período de condução do Palácio de Oxaguian – o jovem comedor de inhame pilado – que conquistou o mundo. Jovem guerreiro e propulsor, senhor da paz obtida em meio a guerra, um sinal de vitórias e conquistas desejadas, meu Pai tem sido fiel e companheiro ao longo dos anos e, isso é possível visualizar com facilidade na condução do Axé Igbin de Ouro, a nossa casa.

          Enquanto uns discutem o sexo dos anjos, me agrada constatar que aquela tem sido o espaço de experiências inenarráveis que compõem não apenas o imaginário social acerca do candomblé, mas também o como a religião e religiosidade são pequenas partes de um todo, onde indivíduos e instituições são orientadas de forma a seguir, a partir do modelo organizacional que compõe a história de Oxaguian.

          Preciso dizer do privilegio que tem sido ocupar o lugar de orientador daquela comunidade: se o que estava posto era a manutenção da tradição nagô-ketú em território nacional, essa vivência só é possível na prática, se acompanhada do enfrentamento do racismo sempre associado à intolerância religiosa, no entanto, o canto dos pássaros desde as primeiras horas do dia sobre o telhado, o cachorro no quintal – mas que nem é nosso -,  que mora lá e está sempre pronto a fiscalizar os nossos ebós/oferendas ritualísticas, o som das águas da cachoeira e das minas d’água, que tem sido pra mim uma espécie de guia orientador para a semana toda, as panelas no fogão, o cheiro do inhame assado e tantas outras possibilidades de vida, me soam como a chama da vela na escuridão.

          Há um fenômeno novo naquela sociedade, porém, que eu não havia experimentado antes: o silêncio dos tambores em resposta à pandemia que tanto tem nos maltratado. Depois de tudo que eu já tinha vivido no candomblé, essa experiência que se acentuou na pandemia de coronavírus, tem me tocado profundamente, razão pela qual eu me sinto mais sensível e cheio de dedos diante das pessoas e as coisas da vida cotidiana. O ser humano tem se demonstrado cada dia pior e isso me assusta, mais que a cena da sucuri perseguida pelos machos que eram menores que elas, mas cheios de desejo.

          É preciso agradecer; temos que ser gratos. Em um ano de tantas mortes, perdas e doenças, essa vivência no Terreiro, ancorada hoje na relação com o Ile Omolu e Oxum tem nos possibilitado a escuta aos sinais e a resposta adequada nos momentos previamente definidos, obviamente que não por nós; uma honra!

          A nossa necessidade de cuidado e atenção parece ter aumentado em meio às obras do Palácio em tempos de COVID. É impressionante como nos tornamos mais vulneráveis e ao mesmo tempo mais crentes, espertos e interesseiros para as coisas da vida, que realmente nos dizem respeito diretamente. Essas questões todas tem me atravessado de forma tão avassaladora que não me sobrou outra opção a não ser parar para ouvir e compreender os sinais oriundos de outros cantos.

          Mais uma vez, como na infância, eu me vi tendo que olhar para os lados e compreender que eu tinha problemas, mas, a sociedade me apresentava interrogações que não eram especificamente para mim e sim, parte de seu próprio desenvolvimento, no entanto eu sou parte disso, mesmo sem acesso “ao sorvete americano.” Aconteceram tantas coisas, ouvi tantas histórias, vivenciei tantas situações que me coloquei no lugar de questionador para interrogar qual era o meu grau de participação nessas coisas todas que tem me mobilizado, visto que em mim, haja uma insatisfação danada, muito embora ao longo dos anos eu tenha participado ativamente da vida política de minha gente, colaborando com iniciativas muito legais e participando de situações em prol do desenvolvimento das pessoas em geral, para além do meu ofício.

          Longe de fazer aqui um desabafo, de ordem pessoal, essas linhas me levam a compreender que sim, “o pensamento nagô é uma provocação à reversibilidade dos tempos e à transmutação dos modos de existência, sustentada pela equivalência filosófica das enunciações (SODRÉ; 2017, 23)” e a isso é preciso estar atento, quando da relação com o mundo externo.

          É também nesse universo cheio de adversidades que a mim parece muito agitada essa caminhada entre dois mundos, ou três no meu caso, já que venho do Axé para a relação com os demais aspectos da vida coletiva, enquanto muitos outros dos meus pares vivenciaram experiências diferentes da minha.

          Minha história marcada pela dor do corpo, vem da relação de minha família com os Orixás, mais tarde substituída pela presença de Deus por meio de diferentes igrejas. Me deixei levar, por exemplo, pela diferença do pensamento institucional quando comparada a minha vida nagô com o meu trabalho, a produção científica e a organização dos movimentos sociais. Se as ciências sociais me provocam ao ponto de questionar o que há de real no discurso de diferentes indivíduos, as tradições afro-brasileiras intensificam em mim, a certeza de que “não comungamos com as sobreposições “multiculturalistas”, em que o gosto do pensamento pelo “exótico” admite harmonizações, mas sempre sob a égide da lógica hegemônica” (SODRÉ. 2017, 22).

          Por fim, é preciso ser grato. Em meio a tantos desafios impostos pela ‘vida moderna’ nesse ‘estado de negação’ é possível ver as vitórias e conquistas de uma caminhada árdua, em que nem sempre tínhamos com água fresca nos potes. A dupé meu Pai, pois eu cheguei até aqui, tal como pressupõe a vida nagô!

*Sacerdote do Ile Àse Igbin de Ouro; Professor Licenciado em Ciências Sociais. Contato: celsormont@gmail.com

Referência bibliográfica

SODRÉ, M. O Pensar Nagô. Rio de Janeiro; Editora Vozes; 2017. 

Prêmio e honra!

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) outorgou à discente egressa da Fiocruz Bahia, Jaqueline Goes, o Prêmio CAPES de Tese 2020, da área de MEDICINA II, pelo Programa de Pós-Graduação em Patologia (PGPAT), curso da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em Ampla Associação com Fiocruz Bahia.

Jaqueline Goes tem graduação em Biomedicina, pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, e obteve o mestrado em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI), pela Fiocruz Bahia.

A tese intitulada “Vigilância genômica em tempo real de arbovírus emergentes e re-emergentes” foi defendida em 2019, sob orientação do pesquisador da Fiocruz, Luiz Alcântara Jr..  O trabalho é resultado da participação de Jaqueline no projeto Zika in Brazil Real Time Analysis (Zibra).

Os resultados obtidos no estudo foram divulgados em cinco publicações relevantes, sendo duas destas na Nature e Science. A tese de Jaqueline já havia sido agraciada, em 2019, com o Prêmio Gonçalo Moniz de Pós-Graduação, na categoria Egresso – Doutorado (1º lugar), e no XIII Encontro de Pós-Graduação das Áreas de Medicina I, II e III da CAPES, com o Prêmio de Melhor Trabalho de Tese.

Parabéns, Dra Jaqueline!!

Saiba mais https://bit.ly/3jqS0FQ

Indicação de leitura: Indicadores de avaliação e monitoramento da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.

Luís Eduardo Batista, et al.

Resumo

O artigo apresenta a metodologia de construção de um painel de indicadores para monitoramento e avaliação da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN). A metodologia foi desenvolvida em quatro etapas: identificação do cenário, contexto da implementação, indicadores da PNSIPN e validação dos indicadores. Em todas as etapas participaram os proponentes da Política, burocratas de nível de rua, assessores técnicos dos colegiados de representação de gestores, representantes dos movimentos sociais, de associações e fóruns de patologias. Esses atores identificaram e pactuaram os indicadores do painel, categorizados em indicadores de enfrentamento ao racismo; indicadores das condições sociodemográficas segundo sexo, faixa etária e raça/cor; e indicadores de morbidade e mortalidade segundo sexo, faixa etária e raça/cor. O painel de indicadores para o monitoramento e análise da implementação da PNSIPN é viável e pode ser utilizado em nível municipal, estadual e federal, possivelmente subsidiando o processo de implementação e possibilitando o aprimoramento da gestão. A metodologia contribui para identificar indicadores de políticas públicas destinadas à garantia dos direitos humanos, da vigilância de direitos e da advocacy.

Palavras-chave: Políticas Públicas em Saúde; Saúde da População Negra; Avaliação em Saúde; Indicadores de Saúde; Indicadores de Gestão

Leia em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902020000300315&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

AMEFRICANIDADES – POTÊNCIAS NEGRAS NO BRASIL

O Outubro Negro é um ciclo de eventos organizado pelo Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus e o Departamento Saúde, Ciclos de Vida e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP, com apoio de sua Comissão de Cultura e Extensão. Ocorre anualmente desde 2018 com o objetivo de discutir as condições de vida e saúde da população negra, bem como os efeitos do racismo e a luta antirracista no Brasil.

A edição de 2020 tem como homenageada Lélia Gonzalez (1935-1994), filósofa, antropóloga e ativista social. Serão realizadas mesas de debates, entrevistas (roda preta) e apresentações artísticas, privilegiando-se a participação de mulheres ligadas a diferentes áreas de saber e atuação.

Todas as atividades serão gratuitas e transmitidas pelo canal do Youtube da Faculdade de Saúde da USP, sem necessidade de inscrição prévia.

Dia 1 – 07/10 (quarta-feira)

19h – Mesa: O pensamento e o legado de Lélia Gonzalez

A mesa visa apresentar a trajetória de Lélia Gonzalez, bem como suas contribuições intelectuais e políticas para os estudos raciais e de gênero no Brasil.

Com Elizabeth Viana, socióloga, com mestrado em História Comparada. Cofundadora da Ação Negra de Nilópolis, ex-aluna e pesquisadora da obra e do legado de Lélia Gonzalez.

20h30 – Apresentação artística de abertura: Nega Duda, cantora, referência do samba de roda baiano na capital paulista, dedica-se à preservação da cultura afro-brasileira e dos cantos dos orixás.

Dia 2 – 14/10 (quarta-feira)

19h – Roda Preta: Trajetórias inspiradoras no Brasil

Em formato de entrevista, o encontro focaliza uma trajetória intelectual de destaque no país, no intuito de discutir as relações entre produção de conhecimento e combate ao racismo.

Com Giovana Xavier, historiadora, professora da UFRJ, idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras Visíveis, autora do livro Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando as suas próprias histórias.

Dia 3 – 21/10 (quarta-feira)

19h – Mesa: Travessias literárias afro-diaspóricas

A proposta é refletir sobre os aspectos que envolvem a produção e a circulação dasobras artísticas e intelectuais de autoria negra na diáspora. Com Denise Carrascosa, professora da UFBA e líder do Grupo de Pesquisa Traduzindo no Atlântico Negro; e Dinha (Maria Nilda Mota), pós-doutoranda no IEB-USP, professora da rede pública, escritora e editora da MeParió Revolução.

Dia 4 – 28/10 (quinta-feira)

19h – Roda Preta: Potências negras e Bem Viver

Roda de entrevista sobre saberes, cuidados, potências e formas de bem viver ancestrais. Com Clélia Prestes, psicóloga do Instituto AMMA Psique e Negritude e doutora em Psicologia Social pela USP; e Sueide Kintê, jornalista griô, terapeuta e criadora de conteúdo que dissemina conhecimento acerca de asè, autocuidado e bem viver.

20h30 – Apresentação artística de encerramento: Nara Couto, cantora e dançarina, pesquisadora das culturas africana e afro-brasileira.

Para mais informações: coletivonegrofsp@gmail.com 

Redes sociais: @coletivonegrofsp (Instragram) e Coletivo Negro FSP/USP (Facebook)

A nossa resenha!

A Aliança elegeu nesse sábado dia 05 de Setembro, a sua diretoria executiva e conselho fiscal.

Há uma aposta dos mais velhos nos mais novos e a definição de rumos políticos no enfrentamento ao racismo e seu impacto na saúde da população negra. Para Arlete Isidoro, da OGBAN, “nossos jovens estão morrendo, estão morrendo por falta de oportunidade e orientação; que a Aliança não fique só no discurso, mas passe para a prática…”

O comunicado oficial, no mesmo dia, nos informava que a I Assembleia Geral Ordinária da Aliança Pró-Saúde da População Negra elegeu por unanimidade, em 05 de Setembro, a sua Diretoria Executiva e Conselho Fiscal, a partir da Chapa “LAÇOS E ALIANÇAS PRETAS” composta por Filipe Martiniano/Diretor Executivo; Ana Luísa Silva/ Secretária Executiva e Geralda Marfisa/Diretora Financeira. Entre os membros do Conselho Fiscal, foram eleitos: Ester Maria Horta, Arnaldo Marcolino e Erly Fernandes.

Para os membros da rede gerada pela Aliança “esse é um ato político, de resistência, em resposta ao estado de negação, particularmente no campo da saúde e em atenção à saúde da população negra. É um ato político porque reagi à branquitude e seus privilégios, com diferentes indivíduos fazendo junto, dividindo o trabalho, carregando o peso do piano, na relação entre nós e os racistas.

As lideranças mergulharam nisso, toparam carregar o peso e estão aí, firmes e fortes no mês em que o Fórum de Saúde da População Negra do Município de São Paulo comemora seu segundo aniversário.

Flip Couto, diretor eleito comemorou o resultado da eleição na sua página pessoal no Instagram: “Olá a todes, ainda estou digerindo todas as emoções que tivemos nesse sábado. Foi uma felicidade sem fim ouvir os depoimentos, ver as reações e acompanhar a concretização de mais um importante passa nas conquistas em prol da população negra. É uma honra e responsabilidade enorme assumir a diretoria executiva da Aliança Pró-Saúde da População Negra. Faço isso com muita força e felicidade, me fortalecendo sempre com parceiras e parceiros em busca de novas conquistas em prol do nosso povo preto”.

Para José Adão de Oliveira, Cofundador e Coordenador Estadual de Formação do MNU-SP “é mais um sonho que se realiza e merece muitas palmas de efusivo contentamento. Infelizmente vivenciamos momentos de grande destruição de nossas conquistas, por um lado, mas também grandes e corajosas iniciativas construtivas, por outro lado. Então o dia de hoje foi histórico e será anunciado como tal nos grupos do Movimento Negro Unificado-MNU: municipal, estadual e nacional. Desejo, em nome da Coordenação Estadual de Formação do MNU, boa sorte e luz à Diretoria Eleita”.