Manifesto em Defesa das Tradições de Matriz Africana e Comunidades Tradicionais Afro Brasileira – Candomblé, Umbanda, Jurema, Tambor de Mina, Omolocô Cabinda, Batuque.

Pela Superação de Todas as Formas de Violações de Direitos e Violências

Tudo Que Fere a Vida e Todos os Seres Viventes – Animais, Natureza – o Meio Ambiente, Homens e Mulheres, não nos pertence!!!

Outubro/ 2020

Nós, signatários (as) do presente documento, entendemos a necessidade de exprimir as nossas pertenças e manifestá-las para que a sociedade possa se associar e, a partir de então, consolidar o olhar acolhedor, generoso, solidário; efetivar o respeito à ancestralidade por meio do reconhecimento de nossos costumes, saberes, territórios e cultura à humanização das relações sociais e institucionais.

Estamos vivendo um período de tormentas, e quando não foi diferente? O racismo, sexismo, patriarcado são manifestações de uma mesma moeda, sendo, no momento, agravado com os “imputs” às quebras do ordenamento jurídico nacional. Hoje existe uma liberação de que tudo pode contra os que pensam diferente, crescem os discursos e ações de abafamento a outras concepções de vida, identidade e cultura. Esse silenciamento imposto, muitas vezes, pela violência física, pela coação, pela coerção são constantes, ininterruptos e tem alvo ideológico, étnico-racial, religioso, de gênero e etário. Na mesma medida e intensidade que os processos de invisibilização.

Os dados confirmam a morte de jovens negros, a violência crescente contra as mulheres e contra os territórios e as autoridades e lideranças dos povos e comunidades tradicionais, a agressão constante a rios, mares, matas, as alterações climáticas e de comportamento constituem as violações de direitos; as violências, as negligências com a natureza passam a subordinar todas as pessoas, e especialmente, os grupos historicamente alijados dos bens sociais e das oportunidades.

Constantemente tem ocorrido o que denominamos marginalização de todas as formas de luta dos movimentos sociais, dos espaços de diálogo, de preservação da vida e mais do que isso, vem tentado engendrar máculas à desagregação desses grupos e, principalmente, atingir o seu eixo mobilizador, de resistência, que o faz gerador de força, coragem, determinação – os povos tradicionais de matriz africana e afro- brasileira.

Esta ação para a população negra e povos tradicionais de matriz africana e afro- brasileira tem um acréscimo, considerando que o racismo, a intolerância não os vê como sujeitos de direito e sim, somente de deveres, o dever de calar-se, de não mostrar existência, de não viver o sagrado; não nos veem como “seres viventes, humanizados” e, a partir de uma desconstrução da nossa humanidade, atrelada à origem das justificativas à escravização. Desde o início era mais que a cor da pele, estava ligada a valores e princípios que se contrapunham ao sistema capitalista, o individualismo, o lucro de alguns em detrimento do sofrimento de muitos.

O ódio tem sido o maior sentimento que quem não nos aceita tem nos dados.

Mas quem somos? Somos pessoas que resistiram e resistem à lógica colonial, neoliberal, ao racismo estrutural; mantivemos uma língua própria, formas de nos organizar socialmente, detentores de um contorno próprio de educar e de se alimentar; somos oriundos dos que para cá foram forçadamente trazidos, os Bantu – oriundos do Congo, Angola, Moçambique, e que geraram Omolocô, Umbanda, Jurema, Kabinda; falamos kimbundo e kicongo, ponto riscado. Somos os que seguindo a linha do tráfico humano, após o século XVII – denominou-se de Jejês; falamos o Ewe fon, somos Mahi, Fanthi, Iorubás, Tambor de Mina. Enfim, todas as construções de fortalecimento identitário, todas as resistências e estratégias ao enfrentamento à opressão histórica, somos, principalmente, a firmação de uma forma de interação entre o homem, mulher e a natureza, o sagrado.

Somos povos detentores de saberes de mais de cinco mil anos, de compreensões de mundo dinâmicos, interpenetrados entre todos os seres vivos, absolutamente adversa da realidade em curso, e, alimentados por esses princípios, temos manifestado a necessidade do exercício pleno de nossos direitos. Mais que direitos à prática de nossa fé, exigimos direito à nossa cidadania plena.

Nossos espaços são lugares sagrados que acumulam histórias, habilidades disponibilizadas ao conjunto social, lócus do respeito à vida. Nesses lugares a resiliência por um mundo sem opressão são alimentados. Os idosos e idosas são fontes contínuas de conhecimento, as crianças são reservatórios, os jovens cuidados como, também aprendizes de cuidadores e cuidadoras.

Sim, nesses espaços se promove a vida em plenitude, onde potencialidades, talentos, interesses são despertos. Nos amalgamos com a natureza, portanto, folhas, matas, florestas, são sagradas; águas doces, salgadas, em montanhas, em pântanos, em ventres são sagradas; terra, o chão para a caminhada, para a semente e o saber semear é o caminho; todos esses elementos são constitutivos de nosso existir, o fogo que aquece, queima e limpa as impurezas, o ar, fonte inesgotável de vida, e todas essas manifestações em movimento – ciclones, terremotos, tsunamis – são energias vitais.

Esses espaços, em tempos já pré-determinados, tudo em seu tempo, sem pressa, pois há a ocasião de ouvir para poder falar e depois agir, são lugares onde cultuamos a vida, onde adquirimos o saber e o sentido de continuidade; são famílias extensas, em grandes territórios.

Portanto, cabe à natureza humana compreendê-la, para o seu equilíbrio, aceitar e sequenciar. Nesse sentido, tudo aquilo que violar, ofender, agredir, violentar mentes, corpos, direitos, não pertence aos princípios harmônicos cultuados, assimilados por nossas tradições, que impedem o pleno exercício de nossa cidadania ativa. O sagrado é referência, perpassa por mim, por nós e é dele que se parte em busca de um novo lugar e de lá para uma longa e honrosa caminhada. Em contato com o sagrado dos povos originários aprimoramos os saberes, pois o encontro se deu na adversidade e no reconhecimento que a humanidade é uma só.

Hoje somos violentados, sofremos com as violações de nossos territórios tradicionais, denominados Casas, Ilês, Terreiros, Templos, Tendas, Abasá, Kwe, Nzo, enfim, espaços sagrados; ameaçados quando nos apresentamos com nossas estéticas tradicionais ou litúrgicas; retirados de nossos lares por pessoas que não respeitam os direitos humanos, dos quais o Brasil é signatário. Somos ofendidos em nossa dignidade; abusadores tentam se apropriar de nossos saberes para, misturados e misturadas, se passarem por tradicionais. Basta!

E, na qualidade de autoridades tradicionais, pois compomos a organização política e social desses povos; somos Yalorixás, Mam’etus, Babalorixás, Tat’etus, Ekedis, Kotas, Ogans e Tatas, Pais e Mães, Madrinhas, Padrinhos, Lideranças Tradicionais à frente de organizações, e estamos unidos e unidas para dizer que Basta!

Basta da ignorância do outro sobre nós!

Tudo Que Fere a Vida e Todos os Seres Viventes – Animais, Natureza – o Meio Ambiente, Homens e Mulheres, não nos pertence!!!

Somos crianças, jovens – meninas e meninos, mulheres, idosas, idosos, autoridades tradicionais, pertencentes aos Povos e Comunidades Tradicionais Africanas e Afro- brasileira, e dizemos sim!

Pelo respeito à dignidade da pessoa Humana

Pelo respeito à criança e adolescente

Pelo respeito às Mulheres Pelo respeito aos Idosos

Pelo reconhecimento a minha Tradicionalidade Pela direito de cultuar o meu Sagrado

Pela grandeza de sermos Umbandistas, Candomblecistas, Juremeiros, Batuques, Tambor de Mina!

Somos Povos Tradicionais de Matriz Africana e Afro-brasileira

Por uma Frente Ampla em Defesa das nossas Tradições e do nosso Sagrado!!!!

ASSINAM O PRESENTE MANIFESTO:

Aliança Pró-Saúde da População Negra de São Paulo – Iyá Karem D’Osún,

Associação das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana de Campinas e Região/SP

Associação Cultural, Religiosa e Beneficente Comunidade de Oyá e Ogun – Mogi das Cruzes/SP

Associação Religiosa Afro cultural Social e Ambiental Axé Ya Ogun Boale – Francisco Morato/SP

Axé Omo Oya – Campinas/SP

Casa de Oração dos Filhos de Iemanjá

Casa de Caridade Irmãos Fraternos – Cabana de Pai Thomaz – Atibaia

Casa de Caridade Pai João de Oyó – Dirigente Mãe Fabiana de Iemanjá Pai Ricardo de Xangô

Centro de Referência e Resgate de Cultura Afro-brasileira e Indígena – C.R.A.B.I – Acaça Axé Odo – SP

Destaques do Axé – Campinas

Escola de Curimba e Arte Umbandista – Nilton Fernandes de Aruanda – São Paulo/ SP Ile Asé Alaketu Oya Balé- Suzano/ SP – Iyá Bárbara

Ilê Axé Iya Ogun Boalé / Francisco Morato/ SP – Ìyálòrísás Andreia Ti Iyemonja Ile Ase Oba Adakedajo Omi Alado

Ilé Àṣẹ Olú Àiyé Àti Ìyá Omi – Ìyá Adriana ti Oluaiye – São Bernardo do Campo/SP Ile Ase Omi Orun Efon – Baba Odesi – Manoel Domingues – Fonsanpotma SP

Ilê Asé Iyalode Oyo São Paulo /SP

Ilê Axé Sùrû Templo de Umbanda Caboclo Arruda – Campinas Ilê Asé Kavungo Nzambi – Itupeva

Instituto Afro Descendente Centro Cultural Ile Ase Alaketu Yemanja Ogun Te E Boiadeiro Pedra De Cristal – São Paulo/ SP

Instituto Voz Ativa – Campinas/SP

Fórum Nacional de Cultura e Religião Africana – FOESP – Tata Matamoride – Eduardo Brail

Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana – FONSANPOTMA

Mulheres de Axé do Brasil – MAB

Primado Organização Federativa de Umbanda e Candomblé do Brasil Que cejá Norungevi Casa de Umbanda e Candomblé – Sumaré

Teia Nacional Legislativa em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana

T. E. U. Vó Benedita de Campinas/SP

Tenda de Umbanda Luz e Caridade – Salto/SP

Tenda de Umbanda Zé Pelintra do Morro – Indaiatuba/SP Tenda de Umbanda Cacique Ubiratã e Pai Sacome – Valinhos

Tenda de Umbanda Caboclo Cacique Pena Vermelha e Ogun Iara – Filhos do Cacique – São Paulo/SP

Tenda de Umbanda Arautos da Luz – TUALUZ

Templo de Umbanda Caboclo Fecha Ligeira e Tranca Ruas das Almas – Campinas Templo de Umbanda Caminhos da Luz e Caboclo Rompe Mato – Sumaré Templo de Umbanda Pai Paulo de Aruanda

Templo de Umbanda Estrela Guia – Paulina Templo de Umbanda Pai Oxalá – Campinas Terreiro de Umbanda Luz e Caridade – Campinas

Terreiro Umbanda Caboclo Guiné – Casa do Pedrinho – Campinas

Airton Pereira Junior – Conselheiro Tutelar – Campinas/ SP Ogan Prof. Mario Luis da Silva – Carapicuiba/SP

Nzo Matamba Mankulu Candomblé Kongo-ngola e Cultura afro-brasileira – São Paulo/SP Rede Nacional de Religiões Afro Brasileira e Saúde – RENAFRO/SP

CONTAMOS COM A SUA ADESÃO!!!!

#emdefesadastradiçõesdematrizafricanaeafrobrasileira

Postado 27 outubro 2020 (Atualizado 28 outubro 2020)

Assine aqui a petição online

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