Mulheres negras: potência, liderança e o cuidado como força transformadora das nossas realidades.

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Ana Luíza da Silva*

No último dia 1, a Aliança realizou a 12º edição do Fórum de Saúde da População Negra do Município de São Paulo, discutindo o tema “Lideranças comunitárias e ações em rede para o combate ao racismo”. Para isso, contamos com a presença de três lideranças comunitárias importantíssimas para suas comunidades: Maria Edijane (assistente social, articuladora cultural, educadora e integrante do Coletivo Baobá – Fortificando as Raízes), Elaine Lima (pedagoga, articuladora política, mãe e líder comunitária no território do Capão Redondo com projetos socioculturais e realiza um trabalho com mães de filhos institucionalizados em situação de vulnerabilidade), com a mediação de Ana Caroline (cientista social, gestora cultural, arte educadora, e Co-fundadora do Terça Afro e Dúdú Badé).

Nosso debate pautou, durante as quase duas horas de Fórum, os principais desafios para a população preta e periférica no futuro que se aproxima, de afrouxamento de uma quarentena que para a favela nunca de fato existiu, já que é quem faz a cidade girar e funcionar, desde o pão quente preparado durante a madrugada à circulação de ônibus, trens e metrô. Como falar de cuidado, de resguardo para uma população que nunca teve esses direitos assegurados nem mesmo em um contexto de calamidade pública?

Acompanhando o debate, algo fica muito marcado nisso tudo: as mulheres negras estão na linha de frente dos cuidados para com o nosso povo e nos redirecionam para o sentido do cuidado, mesmo em meio ao caos. No primeiro momento, enquanto contavam sobre suas trajetórias, Edijane trouxe a importância do olhar para a vida sob outra perspectiva, a partir da espiritualidade que a reeducou a pensar as relações afetivas de seu entorno (através do trabalho com o Núcleo de Mulheres Negras no território do Capão Redondo) e como isso transformou o significado do acolhimento na sua atuação. Elaine trouxe sua atuação na área da educação e no serviço de medidas socioeducativas com jovens, que foi a ponte de ligação com mães, introduzindo e fomentando discussões sobre racismo, machismo, desigualdades – a partir de um olhar de quem vê de dentro, todas as dificuldades, quando ela diz “poderia ser eu” já que possuem vivências próximas, filhos jovens e negros, além das próprias implicações do espaço na vida das pessoas.

Se as mulheres negras estão na linha de frente do cuidado, dos aparelhos de acolhimento, na área da educação, se são boa parte das lideranças comunitárias que garantem o básico para a comunidade (básico que deveria ser assegurado pelo Estado, inclusive durante a pandemia) como produtos de higiene básica, máscaras, alimentação… a pergunta que nos ressoa é: quem cuida de quem cuida? O que faz com que Elaine, Edijane e Ana Caroline prossigam mesmo que elas também sejam impactadas pelo racismo? Elaine nos diz que muitas vezes é sobre escolher o grau de violência, guardar seus próprios problemas para acolher outras mulheres que muitas vezes são vítimas de violência doméstica, da violência da fome e das políticas de morte do Estado.

A maternidade foi pauta importante, pois ambas como mães, compartilham que a preocupação com a vida de seus filhos homens aumenta 5x mais: o que fazer em um período que até o uso da máscara por jovens, que é um decreto municipal, é lido como ameaça pelas forças policiais?

A violência do Estado não espera com ou sem pandemia. A pandemia veio para escancarar ainda mais os problemas pré-existentes nas periferias. Para Edijane, o Estado chega de forma tão irrisória que o que tem dado conta são as ações coletivas comunitárias que acontecem nos territórios. Além do aumento do feminicídio, da desigualdade de renda, também piora o atendimento nos aparelhos públicos de saúde: diversos agendamentos, cirurgias de alto risco foram remarcadas por conta da pandemia – como se as doenças pudessem esperar pelo fim do caos que estamos vivendo – que está longe de ter um fim, para que pudessem seguir sendo tratadas. O descaso aparece em tantos níveis durante o debate, que foi difícil em muitas vezes, conter o sentimento de impotência que nos assola desde muito antes da pandemia. O que nos une, entretanto, é o nosso compromisso por uma sociedade em que os nossos mais novos vivam com a dignidade com que são tratados dentro de casa.

Entre toda a realidade complexa e cheia de desafios que as convidadas trouxeram, estivemos também recebendo muito amor, carinho e afeto, de diversas mulheres que constroem essa rede de atuação com Edijane e Elaine. Entre comentários que falavam sobre saudade, sobre a família toda estar acompanhando a transmissão, sobre o axé presente naquele encontro, todos confortaram nosso coração com a certeza de que nessa caminhada, por mais dura que seja, não estamos sós.

*Coordenadora Executiva e Có-fundadora da Aliança Pró-Saúde da População Negra.

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