COVID, racismo e educação.

isabelaIsabela Araújo*

A pandemia de COVID-19 desde que chegou às periferias escancara as desigualdades sociais existentes há séculos. Isso é importante lembrar, pois, a COVID-19 não criou a pobreza, apenas deixou explícito quem se prejudica mais na sociedade. E ao falar sobre isso, é de grande valia ressaltar que dentro da classe pobre, a maior parcela populacional é a população preta, visto que a abolição da escravidão ocorreu apenas na teoria, nunca houve libertação da população negra, fomos postos às margens da sociedade e à mercê da sorte.

Dessa maneira, hoje, por exemplo, dos usuários que são dependentes totalmente do SUS, ou seja, não possuem convênio, 65% são negros. Então, surge um questionamento retórico, visto que sabendo que mais da metade dos dependentes do SUS são negros, há   políticas na prática para atender as particularidades dessa população?

Outro desafio também posto pela pandemia diz respeito ao acesso às aulas online, nas instituições que as mantém. Isso porque não é surpresa que a parte majoritária da população que não tem acesso à internet de qualidade tem cor e classe. E, por outro lado, os que possuem nem sempre têm o privilégio de ter um espaço dentro de casa para estudar ou até mesmo um tempo reservado para isso, pois aumentou a quantidade de jovens em empregos informais para complementar a renda das famílias nesses períodos. E, apesar disso tudo, ainda se tem um desafio muito grande que é como manter a saúde mental com tanta opressão noticiada todos os dias? Além do racismo institucional que muitas vezes é velado e não se tem aliados de luta, não há com quem dividir as angústias.

Em meio a todo esse caos, cada um tem se adaptado como consegue, mas as oportunidades disponíveis são muito desiguais para a população preta. Assim sendo, já é possível prever que muitos estudantes negros não conseguirão dar prosseguimento ao curso seja por falta de verba, porque permanência estudantil envolve muitos fatores econômicos, seja por falta de internet ou tempo, pois agora muitos precisarão trabalhar 2 vezes mais. E se não poderão depois, quem dirá agora em que muitas instituições não pararam suas atividades e continuam dando milhões de conteúdo, inclusive avaliações, de forma virtual.

Por fim, quando as aulas retornarem, presencialmente, muitas instituições falam em manter o distanciamento de 2 metros entre alunos.  Mas essa não vai ser a realidade das escolas públicas que padecem há anos com a falta de verbas e investimento. Infelizmente voltamos ao mesmo problema: as pessoas mais prejudicadas com toda essa situação têm cor e classe.

*Aluna do Curso de Medicina da Faculdade de Medicina Santa Marcelina.

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