Que não haja doença, nem morte, nem sangue!

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Celso Ricardo Monteiro*

          E o coronavirus chegou, chegando. Já há algum tempo estudo o quanto a sociedade é excludente. Ocorre que tem sido assim cada vez mais, o que muito me assusta. As questões mais íntimas do “ser social” estão expostas no cotidiano da vida, do parto ao nascimento, porque a vida em sociedade é assim compartilhada, embora seja desigual.

          É também muito assustador e contraditório o como as pessoas não acordam para essa ideia de vida coletiva, com projetos comuns e gestão partilhada das cenas e conflitos humanos e sociais. Aliás, tudo o que é humano, me parece, ficou para depois, seja porque em primeira análise o que vale é o lucro e o número de casos, de morte, de venda e etc., ou porque um caso apenas “não é relevante” dirão os experts.

          As religiões afro-brasileiras são pautadas por valores centrais, como a ancestralidade e a relação das pessoas com a natureza. Não existe o homem sem a natureza do mundo, diria José Marmo da Silva, Ogan carioca, de Oxóssi, que criou em 2003 a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde contando com o apoio de importantes instituições como a Ford Fundathion, o Governo Britânico por meio do DFID e mais recentemente o Fundo de População das Nações Unidas, organismo componente do Sistema ONU.

          Nessa experiência, da qual sou partícipe, foi possível constatar que a mudança de comportamento social demanda revisão de si e do outro, processo esse, que é coletivo e inicia-se no acesso à informação e no direito aos recursos necessários para tal. Ora, é fundamental compreender que, se determinado alimento me faz mal, eu não posso consumi-lo em nenhum momento da vida, não apenas no dia da sexta-feira, por exemplo. As regras para uma boa convivência em sociedade ampliada implicam enfim, em alteração do sistema, com participação, envolvimento e mobilização constante, em resposta à desigualdade por exemplo. Desta forma, longe da visão ocidental, a doença nos leva a compreender tudo que há na humanidade e fazer as mudanças necessárias, para garantir o bem coletivo. E assim, nosso comportamento muda diante de uma realidade muito concreta, do qual somos parte central e só por isso nos faz atuar. Tenham em mente que diferentes visões de mundo compõem a sociedade ampliada que tratamos aqui. Assim, é preciso refletir sobre a doença social e os remédios a serem aplicados em sua resposta, muitas vezes coletivamente. A atuação de Marmo, por fim, nos leva a uma mobilização que vai de nossa corporeidade à relação entre o Estado e a sociedade civil, a partir do complexo universo dos Terreiros tão diversos, oriundos de diferentes pontos geográficos da velha África, o continente-mãe da civilização.

          Diante da epidemia de AIDS fizemos “a prova de conceito” na gestão do Projeto Xirê em São Paulo e obtivemos a mesma lição: é preciso atuação conjunta, entre iguais, em rede, com solidariedade e apoio mútuo. Nesse caso, eram os Terreiros criando redes de proteção social para dialogar não apenas com seus pares, mas com a sociedade de uma forma geral (afinal, são muitos os pretos e brancos que não pertencem aos Terreiros), caracterizando uma resposta mais que adequada que foi construída na relação com o poder público. Ocorre que em casos como o que assola o Brasil de todos nós, no momento em que escrevemos tais linhas, não basta “o eu” porque agora, no estágio em que chegamos, precisamos urgentemente “de nós” mais do que antes.

          Não quero, contudo estabelecer comparativos, mas em uma sociedade onde o espírito coletivo é quem organiza a sociedade, não se vê os velhos carregando peso ou abandonados no canto da sala. Aliás, essas tais “bibliotecas de duas pernas” como denominava Iyá Soleiye Erin Epega, eram as grandes fontes de informação e concentravam em si, todas as orientações necessárias para o reequilíbrio das forças, que em muitos casos representavam a ordem social, a partir da causa e não do efeito das enfermidades que acometiam nossas famílias. Elas estavam muito mais próximas das divindades, do que nós, rapazes “latino-americanos sem dinheiro no banco”.

          Encanta-me saber que na terra de meu Pai Oxaguian, na África tão distante de nós, onde eu sou sujeito coletivo, tem um cantinho pra relaxar meu corpo depois de uma viagem tão extensa, mesmo que eu nunca tenha colocado meus pés lá. E acho que esse foi o ponto que, quando mais jovem, fez meus olhos brilhar diante da história de Mestre Didi e sua chegada em solo africano: ele foi reconhecido por seus familiares a partir de seu nome iorubá, no momento em que apresentou-se. Nessa “modernidade líquida” há um fantasma que me assola e faz tempo: é a ausência do espírito coletivo, não tenho dúvida. Mas é também ele, quem está fora de moda.

          No cerne da questão que trago aqui, está o ganho individual porque tenho tudo o que preciso sem sentir falta de nada (do básico ao dispensável, como o tabaco de meu cachimbo, comprado com o suor do meu trabalho), ou o benefício coletivo, porque ninguém está doente, passando fome, tendo que comprar medicamentos sem ter dinheiro porque somos todos iguais, irmãos e colaboradores do outro? Quem serão as pessoas que irão levantar do sofá e nos socorrer no caso de uma pandemia que toma a cidade na velocidade da luz, envolvendo pessoas com seus velhos hábitos e comportamentos? E esse monte de gente sozinha na multidão? A inércia é um problema para nós, a partir desse lugar, importante que se diga.

          O candomblé nos diz que tomar banho é uma estratégia importante para promoção da saúde espiritual e, sem as folhas, ninguém faz nada. A mim parece que não nos faltam recursos de toda ordem, para a partir da cosmogonia nagô, enfrentar os desafios da vida, sobretudo, aqueles da vida em sociedade. É novamente a natureza, veja você, quem vem nos dar a mão, seja pra evitar uma doença ou para recuperar a saúde de outrem. E também no candomblé que aprendemos que a atenção deve ser dirigida, sobretudo aos mais frágeis.

          Mas, como bem sabemos, a sociedade está precisando parar e rever seu modo de ser. Segundo o culto de Obaluaiye, é a doença quem enfim, deve restaurar o equilíbrio das forças. É também Obaluaiye, quem por meio da doença atua com a organização da saúde, que nesse caso, não é só física, do corpo. E aqui, vale lembrar, que há dois grupos importantes na nossa modernidade líquida: quem está próximo de fato, da divindade e da ancestralidade, individual e coletiva, explodindo contra o modelo e o sistema (porque está dialogando com as contrariedades e oposições) e, o povo do mercado da fé, que vende o álcool gel ungido por R$ 500 no cotidiano da vida, em diferentes contextos.

          E que bom poder pensar que o poder de Omolu implica no restabelecimento da saúde da sociedade e não apenas dos indivíduos premiados (leia-se vip), apesar do mercado intenso. Conforta-me e muito, o conjunto de valores civilizatórios das tradições de matriz africanas, diante não apenas do processo saúde-doença e cuidado, no caso do novo coronavírus, mas todos os demais fenômenos sociais que tem atuado entre nós, por gerações. No entanto, me causa estranheza o como a sociedade se mantem mesquinha, perversa ao ponto de comprar todo o “papel higiênico” disponível na gondola, independente do próximo da fila.

          É como se a criatura, enquanto ‘ser inacabado’ que é, estivesse cada vez mais distante dos princípios de um Ser Criador. E a julgar pelos casos que chegam lá em home, é verdade: estamos sim, muito longe dos propósitos da ancestralidade nagô-africana. Na prática, não é o coronavírus. Mas, será o mercado o culpado, ou sempre fomos assim e se não for um,  será outro vírus a nos corrigir?

*Cientista Social; Babalorixá Fundador da Sociedade Ketu Ile Asé Igbin de Ouro.

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