Saúde Mental e racismo.

* by Conceição Silva

Em julho de 2019 foi realizado o VI Fórum de Saúde Pró Saúde da População Negra e pela primeira em um espaço que inspira muito significado para nosso povo. O encontro aconteceu na RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde). O contexto em si já nos convida a refletir sobre a saúde da população negra e a importante conexão desde corpo físico que sente de diversas maneiras e sua conexão com história, sociedade e ancestralidade.

Tendo como pano de fundo as questões de saúde mental, é possível perceber que cada movimento, cada voz, cada gesto, cada contentamento e descontentamento vem carregados de desejos e expectativa de uma escuta, de um olhar, de um cuidado. Um acolhimento que muitas vezes é tão procurado e tantas vezes não encontrado, em consequência das marcas do racismo estrutural, pessoal, interpessoal e institucional que nos atravessa diariamente.

As nossas origens valorizam a possibilidade de constituição da pessoa humana a partir do sentir e é por ser assim que a partir do nosso sentir podemos construir, criticar, articular e nos fortalecer. O nosso sentir permite deixar que nossa corporeidade se expresse para fazer exposição de alegrias, tristezas, indignações, insatisfações e esperança, que transita entre argumentos militantes, teóricos-acadêmicos ou até mesmo como forma de rememoração de cenas da dor de uma mulher preta que chora pela mãe que hospitalizada vivenciou o racismo sem nenhuma sutiliza. Misturada a falas que evocam dor e suplica (não podemos confundir com desabafos), existe em cada discurso um pedido de escuta. Neste apelo por ouvidos, não podemos desconsiderar que de algum modo, sendo nós psicólogas(os) ou não, estávamos ali aquilombados tentando nomear estes nossos sentimentos e procurando cada um com os recursos que possui, dar forma para prejuízos históricos que muitos de nós presentes carregamos.

As vozes, a palestra, o ambiente, os olhares, contam histórias e promovem reflexões cheias de significados e aprendizados que chama a branquitude, homens e mulheres negras para a discussão a partir do movimento que cada expressão ou palavra vai ocupando aquele salão da RENAFRO.

Há mais de 300 anos a saúde mental da população negra sofre impactos sociais muito concretos. Ainda colhemos nos dias atuais os prejuízos que vão muito além de um trauma infantil, mesmo este tendo muita importância para a compreensão da saúde psíquica do indivíduo. As afetações de ordem emocional que desorganiza as condições internas da população negra é intergeracional. Pensar em saúde mental, sem discutir as vulnerabilidades e questões de interseccionalidade que atravessa negras e negros, tendo em vista a relativização ou um pseudo-discurso de igualdade é retrocesso e adoecimento em suas multifaces.

 

*Roda Terapêutica das Pretas.

 

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