Reflexões sobre o Março de 2020 pela perspectiva transfeminista: Dia internacional da Mulher, Saúde da Mulher Negra e o impacto da pandemia do coronavírus nas periferias.

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Ester Maria Horta*

Este escrito se iniciou com a proposta, na Aliança, de debatermos o dia 8 de Março, dia Internacional da Mulher, por uma perspectiva transfeminista além de problematizarmos a visão cisheteronormativa* e cissexista* que geralmente é constante nos debates que pairam neste mês que costumeiramente abordam a saúde da mulher associados a uma visão biologizante destas. Enquanto psicóloga e mulher preta cisgênera, compreendo a importância desta discussão, mas acredito que precisa ser construída com as pessoas trans*, que possuem local de fala e vivência. Para tanto esta reflexão foi construída com Eloá Rodrigues, Presidenta do Conselho LGBT de Niterói, modelo, mulher negra e trans e Joseph Rodriguez, DJ, produtor musical, homem trans, negro e ativista em São Paulo.

Porém no decorrer da construção deste escrito fomos todos surpreendidos com a pandemia do Coronavírus (Covid-19), que acabou ocasionando uma alteração na programação. Agora, com mais de um mês de seu curso em nosso país, vemos ainda mais urgente o debate sobre a vida, sobre quais vidas são contempladas neste sistema burguês capitalista que tem, infelizmente, seus braços no estado.

A população LGBTQI, em especial a população Trans, já desde sempre lida com sua humanidade negada. Enquanto muitos pela primeira vez estão notando agora os impactos nefastos do que é a necropolítica, a política da negação da vida para determinados grupos e o descaso com a proteção de seu povo, a população negra e trans, desde sempre lida com este cenário. Tanto que foi a população que mais alertou sobre as reais intenções deste governo. Esta frase, publicada nos stories da página do instagram da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transgêneros), ilustra bem esta realidade: “Vocês estão assustados porque é a primeira vez que Bolsonaro não se importa com a sua morte. Quando a gente disse que ele não se importava com a nossa, vocês o elegeram”.

Portanto, neste atual cenário de pandemia, além do agravamento da desigualdade social oriunda de um sistema capitalista e racista, veremos ainda a cisnorma no olhar da saúde. Ao se falar na mídia e em estudos sobre os impactos do coronavírus este será debatido a partir da perspectiva de corpos cisgêneros (e brancos). Acreditamos que a visão multideterminada do ser humano deve ser permamente em toda e qualquer temática.

O que é Transfeminismo? Segundo a Psicóloga Jacqueline de Jesus (2014) o transfeminismo pode ser definido como uma forma de pensamento e prática que rediscute a subordinação morfológica do gênero (como construção psicossocial) ao sexo (como biologia), relacionada com processos históricos, contra as opressões baseadas na norma binária. Seus fundamentos são identificados na consciência política e de resistência de pessoas trans e no feminismo negro abrangendo a interseccionalidade das opressões. Critica-se, no entanto, que a compreensão das diferenças entre sexos e gênero se restringe à academia e ainda não foi incorporada pela sociedade como um todo, especialmente em seus instrumentos legais e burocráticos na prática, não há uma corrente teórica única do pensamento feminista. Desta forma, pode-se falar de “feminismos” porque existem linhas de pensamento heterogêneas que, apropriadas a partir de teorias gerais, procuram, cada qual a seu modo, compreender porque e como as mulheres ocupam uma posição/condição subordinada na sociedade. A inclusão do feminismo como debate e pauta política da população transgênero é recente, porém cada vez mais ativa. É assim “tanto como uma filosofia quanto como uma práxis acerca das identidades transgênero que visa a transformação dos feminismos” (JESUS & HAILEY, 2010, p. 14).

Convidamos você a ler abaixo, na íntegra, o bate papo com os ativistas Eloá Rodrigues e Joseph Rodriguez. O resultado deste riquíssimo diálogo foi dividido em 4 Blocos temáticos: (1) Militância na Periferia, (2) A Biologização dos gêneros e o apagamento das identidades Trans*, (3) Propostas de Ações Interseccionais Pela Perspectiva Trans*, (4) A Pandemia do Coronavírus (Covid 19) – Impacto nas Periferias.

Eloá gostaria que você comentasse um pouco sobre sua trajetória como Presidenta do Conselho LGBT de Niterói e sua atuação na área das Artes, Dança e agora como modelo. Como você vê a arte como possibilidades de transformação e diálogo com a juventude e a sociedade em geral bem como é sua experiência (muito potente por sinal) na militância de forma interseccional?

Eloá Rodrigues: A minha história na militância começa através do ‘PreparaNem’ Niterói (que é um pré vestibular, voltado para população LGBTI e em situação de vulnerabilidade social), foi partir daí que eu conheci o movimento social organizado. As aulas do ‘PreparaNem’ acontecem na sede do Grupo Diversidade Niterói e foi assim que eu fui apresentada à militância. No decorrer do pré-vestibular em alguns momentos a turma participou de passeatas; da votação do plano municipal de Educação da cidade Niterói; rodas de conversas e debates, e nestes espaços fui aprendendo como se construía articulações e como funcionava o movimento social organizado. No ano seguinte ingressei na Universidade Federal Fluminense e daí eu fui sendo convidada para participar de palestras, de debates, de conferências e assim construindo enquanto militante/ativista o que me possibilitou palestrar e realizar projetos em outros Estados por meio das articulações com o movimento LGBTI e o movimento de mulheres negras, dado o trabalho e potencial que mostrei. E com todo esse trabalho, com maturidade, preparo e representatividade dentro da cidade, meu nome foi citado para ser a Presidenta do Conselho Municipal LGBTI da cidade de Niterói (2019), aonde venho aprendendo ainda mais e agregando mais essa experiência. Fui eleita juntamente com uma mesa diretora composta somente por mulheres (Negra, Lésbica, Bisexual e Trans e de Terreiro). Mesa está muito representativa e acredito que é muito importante para atuação, pois, os lugares que ocupamos, além das vivências e experiências fazem com que tenhamos um olhar mais sensível com os casos que chegam.

Joseph pelas suas redes sociais nota-se que você está presente em diversos eventos do cenário musical, porém aliado com pautas ativistas como a questão indígena na demarcação de terras, apoio às ocupações e na discussão sobre masculinidades. Fale um pouco sobre como você interconecta essas atuações e se de alguma forma o ser músico lhe proporciona uma perspectiva diferente sobre a militância.

Joseph Rodriguez: A minha relação com a música é algo que durante muito tempo demorei em entender e pertencer, porque você cresce na periferia onde você não aprende a executar e colocar isso como um trabalho, mas eu já sabia e entendia o meu lugar no mundo e que de fato, toda essa questão social existia porque houve um genocídio do povo negro e indígena. Ás vezes eu me pergunto quantas discussões ainda serão necessárias sabe. São muitas as pessoas colocadas como minoria que a meu ver são a grande maioria, mas há o lance que na periferia a informação não chega porque o ‘dialeto’ é outro, a forma de se relacionar é outra e as masculinidades e as ‘feminilidades’ são outras. Os corpos Trans e pessoas LGBT’s neste caso são outras. É um universo paralelo de pessoas que deram seu máximo às vezes para não faltar arroz e feijão em casa e é importante ressaltar, que não se tem um cuidado com a saúde mental dessas pessoas. É por isso que falo sobre essas questões a partir de uma realidade que vi bem de perto. Hoje o espaço das artes e da música também está sendo representado por pessoas Trans, mulheres negras, indígenas e periféricas e assim vão se criando novas referências. O que me deixa mais feliz hoje é saber que essas sementes estão sendo plantada e cultivada.

Eloá, você também tem uma relação com a Arte, a Dança e agora como modelo. Como você vê a arte como possibilidades de transformação e diálogo com a juventude e a sociedade em geral?

Eloá: A arte é poderosa e ela tem um agente de transformação muito forte. Dada à realidade de pessoas periféricas, que já são marginalizadas e postas à margem da sociedade, a arte é um componente de desvio de rota. Porque a sociedade no geral já diz qual é o seu destino, ela te olha pela cor da pele, pela sua orientação sexual, pela sua identidade gênero e já delimita até onde você pode ir. Porém a arte tem o poder revolucionário de conectar as diferentes classes sociais, as diferentes etnias e diferentes possibilidades de ser e existir no mundo, e dá a possibilidade de pessoas chegarem onde a sociedade não espera que a gente chegue. Desta forma, acredito que a arte tem um poder essencial de transformação nas estruturas de nossa sociedade. A arte tem esse poder!

E nesse sentido acredito que tudo está conectado de alguma forma. Eu sempre tive uma ligação muito forte com a arte. A dança e a atuação em especial sempre me fascinaram, mas por diversas razões a vida foi me levando para um caminho diferente, mas nunca distante. Foi em 2018 que de fato voltei a modelar e desfilar, e aos poucos fui voltando pra dança e a atuação. Os trabalhos foram acontecendo e no ano passado participei de um curta-metragem e também resolvi participar do concurso “Miss Beleza Trans Brasil” (sendo a Miss Rio de Janeiro). Não venci, mas acredito que depois dessa experiência as pessoas passaram a me enxergar de outra forma, com uma certa proximidade e de que é possível chegar onde se almeja. A representatividade ela é importante e por meio dela comecei a ‘furar as bolhas’ dos meus ciclos de vivências (LGBTI e negritude), dialogando de forma horizontal com pessoas da periferia ou que achavam essa realidade muito distante. Crianças que nunca tiveram contato com uma pessoa Trans me respeitando, me acolhendo e me vendo como uma referência! Isso diz muito sobre o que de fato é a representatividade e entendo que é de extrema importância. E para além de ser importante, eu acredito que é um divisor de águas.

Eloá qual é o significado do dia “8 de Março” pra você? Acredita que os eventos e ações relacionados à data dialoguem com todas as mulheres trans*?

Eloá – RJ: O 8 de Março pra mim é muito significativo. Há alguns anos (não lembro exatamente a data), que eu dei início a minha transição de gênero. Consciente ou inconscientemente o mês do meu renascimento coincide com o mês das mulheres.

Um mês sempre com agenda intensa, muitas mesas, debates, eventos, repleto de atividades até o fim do mês o que pra mim é muito significativo. Mas sei que essa não é a realidade de muitas mulheres transexuais e travestis. Principalmente aquelas que não performam ou não tem a “feminilidade” que a sociedade espera. E na contramão, é preciso estar nos espaços levando informação, e de mostrar que existem diversas formas de ser mulher nesta sociedade, para que cheguemos a um momento onde isso não será mais uma questão, mas por ora continuamos na luta.

Em janeiro tivemos o mês da visibilidade trans, mês no qual, muitos coletivos negros (liderados por pessoas cisgêneras) também lembraram a data, seja com atividades presenciais, seja com postagens nas redes. Vocês notam que essa abordagem continua durante todo o ano entre os coletivos negros? 

Eloá: É inegável uma crescente de pessoas e instituições que passaram a entender de que é necessário se posicionar e falar sobre os que ainda não tem voz ou não tem a oportunidade de falar. Os coletivos e instituições que pautam a questão racial (principalmente as de mulheres negras) são um espaço seguro, onde se há muita abertura para construção de novas narrativas. Ainda sim, há momentos de reprodução de transfobia nesses espaços, porém, ainda sim são espaços que estão dispostos a mudança e a uma transformação social de fato. E também é muito importante frisar que muitas instituições, (inclusive não LGBTIs) fazem ações, encontros, palestras e inclusão dessas pessoas nos espaços durante todo o ano, não somente nas datas destinadas. Isso é um processo longo, mas necessário. Seguimos na luta.

Joseph: Primeiramente, temos que ter consciência de que o Brasil é o país que mais mata pessoas Trans* e que mais encarcera pessoas negras no mundo. Á partir daí tem um mês da visibilidade trans, onde sinceramente não vejo uma preocupação real com nossos corpos. Não adianta contratar uma pessoa trans para fazer uma média se o seu relacionamento com pessoas Trans não é natural na sua vida. A pessoa cis deve se questionar o porquê em sua sala de jantar não entra pessoas Trans, sabe? Temos movimentos negros que ainda assim, mesmo com o recorte de raça, reproduz transfobia, logo, isso machuca o dobro porque de cara notamos que as pessoas cis negras não convivem com pessoas Trans, ou seja, não naturaliza a existência e o afeto de pessoas Trans/travestis no seu convívio social. Vejo como se a gente estivesse na mesma margem e brigando, ao invés de unimos forças para construir redes de afetos, seguras, fazer a economia de pessoas Trans negras rodarem também é ser para além de um mês da visibilidade trans. Porque mesmo com quase um ano para se programarem, os coletivos estão cometendo os mesmos erros e não naturalizado nossa existência enquanto um corpo trans negro e periférico.

Eloá, de que forma associar o ‘ser mulher’ unicamente a aspectos biológicos como: menstruação, gravidez e maternagem (discursos ainda muito vigentes no dia 8 de Março e em campanhas relacionadas à ‘saúde da mulher’) gera o apagamento da vivência da mulher trans?

 Eloá: Essa é uma questão muito séria e que precisa ser falada. Quando se legitima um discurso que mulher é só aquela que tem vagina, que é só aquela que tem seios grandes, que é só aquela que menstrua, que é só aquela que pode gerar um filho, exclui não só mulheres transexuais e travestis, mas também uma gama de mulheres cisgêneras que por ventura não preencham esses “pré requisitos”. E pra ser mulher precisa preenchê-los?

Para uma boa parcela da população, entretanto, sabemos que não somente o fator biológico faz da mulher, uma mulher, mas sim um conjunto de fatores e atribuições que chegam como demarcadores do gênero, pois o mesmo é constituído socialmente, logo, a tese biológica puramente se desfaz por si só. O argumento da biologia, quase sempre é utilizado na tentativa de deslegitimar as identidades Trans e Travestis, na tentativa de negar a nossa existência e retirar a nossa dignidade e por conseqüência nos colocar num ‘não lugar’ social e esse ‘não lugar’ nos empurra para a margem e a desumanidade. Quando uma sociedade não enxerga um determinado grupo como humano (a história nos prova isso), nos dá passe livre para seguir um processo de aniquilação deste grupo. Então a deslegitimação de nossas identidades nada mais é do que um processo (em curso) de exterminar a população T. Porém seguimos no fronte, existindo e (re)existindo.

Joseph neste sentido de que forma associar o ‘ser mulher’ com aspectos biológicos como: menstruação, gravidez e maternagem, além de gerar apagamento da vivência da mulher trans, também geram apagamento da vivência trans masculina?

Joseph: Ao associar, por exemplo, a gravidez como algo exclusivamente ‘de mulher’, você apaga e limita um corpo de um homem Trans. E é importante a gente ressaltar que existem homens que podem gerar e isso não afeta em nada sua paternidade. Esse conceito da binariedade onde você precisa se colocar em caixinhas para existir é tão violento quanto imaginam. Quem disse que o homem não vai ao ginecologista? Às vezes o próprio ginecologista parece não saber. A saúde de pessoas Trans negras e periféricas é um assunto urgente.

E de que maneira vocês acreditam que poderia ser feita a abordagem no dia “8 de Março”, bem como em outras datas e campanhas públicas relacionadas à saúde reprodutiva (e sobre a violência obstétrica, muito pontuada quando se fala sobre a saúde da mulher cis negra) de forma não cisnormativa e que não apague as vivências do homem trans, da mulher trans de pessoas não binaries e intersexo?

Joseph: Hoje a saúde reprodutiva e a violência obstétrica são coisas que devem ser pensada também para os homens trans, ou seja, ter útero não é exclusivo de uma mulher cis, pois há outros corpos que também carregam útero, como o corpo dos homens trans. E saber que quando falamos dos homens trans precisamos pensar sobre o recorte de classe e o sistema ‘etnocída’ que apaga a história de pessoas negras, indígenas e periféricas, onde o acesso a saúde é negado e impossibilita que um homem Trans viva, por exemplo, uma gestação sem ouvir algum tipo de violência dos profissionais de saúde.

Eloá: Acredito que para qualquer campanha que é pensada para a sociedade em geral tem que se pensar na diversidade dos indivíduos e nas particularidades que determinados grupos têm. No geral, as campanhas acreditam que as pessoas têm as mesmas vivências, que todos partem da mesma linha de largada. Nesta sociedade patriarcal e machista, os corpos femininos e fora da ordem cisgênera sempre estarão à margem. E neste sentido estamos sempre vigilantes para mudar esse quadro, e é nítido que quando se há algumas conquistas, logo chega o retrocesso. E essa é a ótica. E neste sistema de opressões sempre alguém estará na base dessa pirâmide, para que essa engrenagem não pare, e nós mulheres negras, travestis e transexuais estamos fora dessa ótica. Para uma mudança significativa nesse quadro é preciso que a sociedade brasileira nos reconheça enquanto seres humanos e abordando cada vez mais a pluralidade de viver essa ‘mulheridade’ ou ‘feminilidade’. Não existe uma forma certa ou errada. Precisamos desconstruir isso em nossos espaços de convivência o quanto antes, e dar voz e espaço para essas pessoas que estão à margem

Eloá e quais seriam então as especificidades ao se falar da saúde mental da mulher trans que não são contempladas quando se fala da saúde mental da mulher cisgênera?

Eloá: E aí é importante falar sobre o adoecimento desta mulher Trans/travesti negra. Sabemos que a média de exclusão destas mulheres do núcleo familiar é em média aos 13 anos de idade. Sem família, escolaridade, afetos e humanidade o que resta é a rua, por isso hoje a realidade é que 90% da população “T” viva de prostituição, por falta de oportunidade. É preciso refletir sobre o conjunto de fatores que nos excluem e nos impedem de acessar espaços, e mesmo que consigamos acessar, a transfobia se encarrega de dizer que aquele lugar não nos pertence. Neste sentido cada vez mais são criadas redes de apoio das pessoas em vulnerabilidade, para que entendamos que a solução só se dá na coletividade.

Tanto você Joseph quanto a Eloá pontuaram, até agora, a necessidade do olhar não cissexista e transinclusivo em todas as esferas. De que forma vocês notam a comunicação e a atuação cisnormativa dos coletivos negros e como estes poderiam ser de fato transinclusivos na prática?

 Joseph: Mesmo com quase um ano para se programarem os coletivos estão cometendo os mesmos erros e não naturalizando nossa existência enquanto um corpo trans negro e periférico.

Eloá: Ao longo do tempo percebo que as perspectivas sobre os nossos corpos e as nossas identidades têm mudado.  Acredito que tem sim um avanço significativo, e que é impossível negar. Pois hoje conseguimos escrever a nossa própria história, narrar nossas vivências partindo de um ponto de vista muito particular e singular. Entretanto, também observo que infelizmente alguns espaços (que deveriam ser seguros e de fato representativos/diversos) ainda só nos enxergam como cota. Que só preciso ter uma mulher negra ou pessoa transexual ou travesti para ocupar essa cota ou para parecer mais ”inclusivo“ e não entendem que só estão reproduzindo uma lógica que continua segregando e por vezes aniquilando e não entendem que o nosso corpo a nossa fala nossa experiência de vida é de fato vai transformar e causar algum impacto e transformação para um determinado espaço. Então eu enxergo uma dualidade, percebo em alguns momentos um avanço muito positivo (e isso é fruto de muito trabalho e de muito entrave), mas muitos espaços ainda reproduzem a lógica se, só por em último caso (quando põe). Nesse sentido continuamos na luta e no fronte, na tentativa de mudar significativamente esse cenário .

Quando esta entrevista foi realizada ainda não havia se instalado o coronavirus (Covid-19) como Pandemia nem havia contaminação territorial no Brasil. O que vocês teriam a acrescentar agora sobre como esta pandemia está impactando a população periférica?

Eloá: Aqui em Niterói está tudo parado, escolas, faculdades, etc. tudo parado e não sabemos pra onde isso vai e como vai ficar. Muita gente a gente sabe que não tem de onde tirar sustento, e o medo é o caos se instaurar, mas vamos acreditar que tudo vá melhorar neste sentido. Desde que isso começou recebemos muitas denúncias aqui no Conselho LGBT de Niterói. Recebemos denúncias de que as cafetinas estão cobrando pista das meninas, a recomendação é que elas não desçam, mas as cafetinas estavam fazendo elas descerem pra rua mesmo assim…E eu estava em reuniões tentando resolver isso o que me demandou um tempo. Pra você ver, elas que já são marginalizadas enquanto mulheres trans e travestis e ainda tem que agora enfrentar corona. A rua está pesada!

Agora é esperar pra ver qual será a solução disto tudo. Sinto que a mídia precisa divulgar mais. Apesar de estar tudo parado em Niterói, São Gonçalo e Rio (nem ao Rio estamos conseguindo ir, não há ônibus, só as barcas, mas estão limitadas pra quem é trabalhador essencial), ainda acho que as pessoas estão levando isso a sério. E isso me deixa com receio de termos casos mais próximo. E o que desespera é que o governo que a gente tem não nos dá diretrizes, não temos perspectiva de como será daqui pra frente. Mas é acreditar que em breve tudo isto vai passar e seguir lutando.

Joseph: É complicado, pois muitos de nós vivemos da arte, fazemos o que com os cancelamentos de eventos? Eu gostaria de poder levar para meus amigos trans, álcool em gel, máscaras, cesta básica e uma caixa de durateston. As pessoas trans da quebrada estão no sufoco. Aproveito para divulgar a vaquinha do Fundo emergencial da Casa Chama (vide link abaixo) que está se organizando para dar conta das demandas básicas e necessidades das pessoas trans assistidas pela casa, porque com a quarentena, sair de casa não é opção e ‘todes’ precisam de apoio. Essa será nossa salvação neste momento.

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Saiba como doar para organizações e coletivos LGBTQI pelo Brasil durante a Pandemia do Corona Vírus (e no inteiro). Acessem:

Fundo de Emergência para pessoas Trans – Casa Chama – cerca de 50 pessoas trans são assistidas de forma presencial pela organização. Em paralelo, cerca de 210 pessoas trans são acompanhadas remotamente: 90% delas residem na cidade de São Paulo, estando 85% em situação de profunda vulnerabilidade social Ajude: http://vaka.me/953272

Para lista de organizações e coletivos LGBTQIA+ acesse o instagram da ANTRA: https://www.instagram.com/stories/highlights/18022198744265381/?hl=pt-br

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 GLOSSÁRIO (extraído do site Transfeminismo.com):

*Pessoas Transgêneros (Trans*) – “Indivíduos cuja identificação de gênero difere de seu sexo atribuído ao nascimento.

* Pessoas Intersexo – Indivíduos que têm corpos intersexuais (indivíduos com padrões biologicamente atípicos de características masculinas e femininas). O termo trans* pode ser a abreviação de várias palavras que expressam diferentes identidades, como transexual ou transgênero, ou até mesmo travesti.  Por isso, para evitar classificações que correm o risco de ser excludente, o asterisco é adicionado ao final da palavra transformando o termo trans em um termo guarda-chuva/um termo englobador que estaria incluindo qualquer identidade trans “embaixo do guarda-chuva”. Além disso, o termo também pode incluir pessoas trans* que se identificam dentro e/ou fora do sistema normativo binário de gênero, ou seja, da idéia normativa que temos de “masculino” e “feminino” que forma um binário. (…) É importante ressaltar que a identidade é soberana e as pessoas trans* tem a palavra final quanto a sua própria identificação.

* Pessoas cis (cisgênero) – “Uma pessoa cis é uma pessoa na qual o sexo designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de sexo + gênero designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de gênero, estão “alinhados” ou “deste mesmo lado” – o prefixo cis em latim significa “deste lado” (e não do outro) (…) Isso significa que sexo é entendido como pré-dado e associado dimorficamente (homem-pênis/mulher-vagina) e a ele são atribuídos valores generificados que inscrevem o corpo em um sistema binário; “corpo masculino” e “corpo feminino (…) Cabe ressaltar aqui que nem todas as pessoas cis “sentem-se” alinhadas e coerentes dentro das categorias homem ou mulher, mas também não significa que se “sintam” trans* (cabem aqui várias aspas, pois o termo “sentir” é muito subjetivo). Não há como medir cisgeneridade, como não há como medir transgeneridade. As categorias de gênero são fluidas e instáveis. Porém, isso não quer dizer que essas pessoas deixem de ser percebidas socialmente como cis, mantendo privilégios como tal.

*Por que nomear quem são as pessoas cis: “Ser cis é uma condição principalmente política (mas não só). A pessoa que é percebida como cis e mantém status cis em documentos oficiais não é passível de análise patologizante e nem precisa ter seu gênero legitimado. Historicamente a ciência criou as identidades trans* (e por isso já nasceram marginalizadas), mas não criou nenhum termo para as identidades consideradas “naturais”. É por isso que a adoção do termo cis denuncia esse ‘pseudo status natural’. Nomear cis é o mesmo processo político de nomear trans*: aponta e especifica uma experiência e possibilita sua análise crítica.”

*O que é cissexismo: “É a desconsideração da existência das pessoas trans* na sociedade. O apagamento de pessoas trans* politicamente por meio da negação das necessidades específicas dessas pessoas. É a proibição de acesso aos banheiros públicos, a exigência de um laudo médico para as pessoas trans* existirem, ou seja, o gênero das pessoas trans* necessita legitimação médica para existir. É a negação de status jurídico impossibilitando a existência civil-social em documentos oficiais.”

Fontes:

JESUS, Jacqueline Gomes. “Interlocuções teóricas do pensamento transfeminista”. In: Jesus, Jacqueline (org) FEMINISMO E IDENTIDADE DE GÊNERO: ELEMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO DA TEORIA TRANSFEMINISTA. Rio de Janeiro: Editora Metanoia, 2014.

JESUS, Jaqueline Gomes de; ALVES, Hailey. Feminismo transgênero e movimentos de mulheres transexuais. Cronos – Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, Natal, v. 11, n. 2, jul./dez. 2010.  p. 8-19.  Disponível em: <http://periodicos.ufrn.br/index.php/cronos/article/view/2150/pdf>.

JESUS, Jaqueline Gomes de. FEMINISMO E IDENTIDADE DE GÊNERO: ELEMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO DA TEORIA TRANSFEMINISTA. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. Disponível em: <https://www.academia.edu/5490292/Feminismo_e_Identidade_de_G%C3%AAnero_Elementos_para_a_constru%C3%A7%C3%A3o_da_teoria_transfeminista.&gt;

O que é cissexismo? In: https://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/

https://transfeminismo.com/pessoas-transgeneras-intersexuais-e-em-nao-conformidade-de-genero-naoseraoapagadas-pela-pseudociencia/

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Sugestões de Leitura/Sites:

Associação Nacional de Travestis e Transexuais:  https://antrabrasil.org

Site Transfeminismo: Feminismo interseccional relacionado às questões trans: https://transfeminismo.com

Conselho Municipal LGBT de Niterói-RJ https://www.facebook.com/conselholgbtniteroi/

Casa LGBT ‘Neon Cunha’ https://www.facebook.com/casalgbtineoncunha/

NLucon, https://www.facebook.com/nlucon

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*Psicóloga/Neuropsicóloga – Membro da Coordenação da Aliança Pró Saúde da População Negra; @ester_psi

 

***Entrevistados: Eloá Rodrigues, Presidenta do Conselho LGBT de Niteroi-RJ , modelo e ativista (@eueloarodrigues) e  Joseph Rodriguez é Produtor Musical, DJ, músico, modelo e ativista – São Paulo-SP, @jh_rodriguezbr

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