Das Pretas




Ser e Fazer: A resiliência permanece?

Ana Paula de Oliveira***

Ao refletir nestes primeiros meses de 2021 me peguei tentando ajustar minha resiliência para equilibrar o meu “Ser e o meu Fazer”. O que é Resiliência  –  É a propriedade dos corpos que voltam à sua forma original, depois de terem sofrido deformação ou choque.

Capacidade de quem se adapta às intempéries, às alterações ou aos infortúnios.

Tendência natural para se recuperar ou superar com facilidade os problemas que aparecem. Característica mecânica que define a resistência dos choques de materiais. (Confira em https://www.dicio.com.br/resiliencia/ acessado em 30.04.2021)

Utilizando o termo choque mencionado acima, avalio que após um ano inteiro de pandemia os nossos seres têm sido convidados diariamente a permanecer assim, “parado”, mas, o nosso “fazer” precisa continuar. E será que precisa mesmo?

Muitas vezes é através de nossa atividade diária, uma rotina de trabalho ou mesmo o fazer criativo que tem nos mantidos vivos, sim vivos. Percebo em minha rotina de trabalho como psicóloga que sofro deformação ou choque em meu Ser em cada intervenção, sendo preciso exercitar nossa tendência natural de recuperar e ressignificar.

Avalio que flexibilizar o meu Ser para sentir todas as sensações da minha rotina, me ajuda a não me endurecer diante das dificuldades que a vida nos apresenta. Penso que nossa saúde mental é o nosso bem maior a ser preservado, fomentar atitudes de generosidade consigo mesmo, favorecerá o exercício de equilibrar nossa existência e fazer valer o Ser resiliente que somos. Somos seres adaptáveis e flexíveis, alguns apresentam maior habilidade, outros menos, mas com gentileza e generosidade consigo mesmo é possível suavizar o viver.

Se olharmos com a especificidade merecida as manobras diversas que nós mulheres e homens negres precisamos fazer para preservar nossa saúde mental, o nosso bem-estar, a sobrevivência de nossas famílias, as cargas excessivas de trabalho ou a busca dele, as condições, lidar com as precárias condições de transporte e moradia, veremos que geração pós geração seguimos na necessidade há muito tempo de esticar, esticar e esticar cada vez mais. Assim como a definição acima ficamos subordinadas/os a constante necessidade de estar sempre firmes e fortes, sem nenhuma deformação. No entanto, dificuldades e limitações diversas, que estão acentuadas no momento atual em consequência do gravíssimo desamparo que muitas e muitos estão sentindo na pele, fazem com que física, emocional e socialmente nossos corpos fiquem cada vez mais vulneráveis e sujeitos a quebra (ou seria a quebra?). 

O termo resiliência requer muitas reflexões quando pensamos na população negra, uma vez que corremos o risco de reproduzirmos posturas estigmatizantes presentes num inconsciente coletivo em que nos faz acreditar que somos fortes o tempo todo. Isto nos faz crer que a resiliência pode vir como uma tripla exigência de estarmos bem o tempo todo e nos redimirmos de situações complexas a todo momentos. 

Precisamos ser resistentes para garantir nossa existência, porém, isto não significa que para isso precisamos acreditar que daremos conta de tudo. Muitas vezes não conseguiremos, muitas vezes precisaremos de ajuda, muitas vezes precisaremos chorar e até gritar. 

***Psicóloga e Psicanalista, Especialista em Saúde Publica com ênfase em Saúde da Família

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O MÊS DE MAIO REPRESENTA A TODAS AS MULHERES?

Ana Cibele Dias Pimentel*

O mês de maio é famoso devido a comemoração pelo dia das mães e também é considerado como o mês das noivas. Mas será que além de ser considerado um mês feminino, também podemos dizer que é um mês matriarcal? Ou seja, será que realmente foi pensado em incluir todas as mulheres?

A tradição teve início em países europeus e é possível encontrar várias citações históricas, do que esse mês foi escolhido como o mês das noivas, algumas apontam pelo fato de que em países do hemisfério Norte, há o aumento do clima e como as flores começam a florir, os moradores podiam enfeitar os festas de casamento e também melhorar os odores corporais, há também uma explicação religiosa, onde é celebrado desde o século XIX, o mês da Maria de Nazaré, e por último é comemorado também o dia das mães, que seguem as comemorações no mês de maio em somente alguns países. Acontece que quase todas as explicações encontradas, nos leva somente a tradições que tiveram início na cultura eurocêntrica.

Há relatos de que no antigo Egito, no mês de maio a deusa Ísis é reverenciada devido seu encontro com os restos mortais de Osíris, seu amado. A mitologia da deusa é relacionada há muitas virtudes, entre elas, responder ao apelo das donzelas, protetora da natureza e magia, além do modelo da boa mãe e esposa, por isso muitos casamentos foram celebrados no mês de maio no famoso país das pirâmides. Essa data não é universal nos quatro cantos do mundo, até mesmo no Brasil, com o aumento de promoções por parte das empresas, o mês de maio não é o primeiro da lista como escolha do enlace matrimonial. Mas será que todas nós nos sentimos contempladas nos comerciais, capas de revistas, lojas de vestidos de noivas, entre outros? 

Na antiga África, sempre existiu o equilíbrio entre feminino e masculino, nem havia questionamentos sobre ser de outra forma, não haviam separações de gênero no desenvolvimento da sociedade, matriarcado e patriarcado foram berços civilizatórios distintos, mas nenhum se sobressaía ao outro. Com a colonização europeia, o continente que antes mantinham seus próprios costumes, passou a dividir-se entre os seus costumes e os de tradições colonizadoras. Houve proliferação de idiomas, religiões e entre outras formas de viver, transformando assim o continente africano em um espaço com tamanha heterogeneidade cultural.

Mulheres que antes eram princesas, rainhas e/ou tinham seus cargos de poder, no campo da ciência, física, agricultura, onde eram livres para desenvolverem suas vidas espirituais e manter ligação com o divino e a natureza, passam a assumir frente em batalhas a fim de que com a união com o patriarcado, ambos possam lutar para proteger seu povo contra os ataques do colonizador. O homem branco passou então a ser o centro, historicamente em suas tradições, a mulher que era vista como frágil, sobretudo as de classes abastadas, não podiam ter voz ativa, serviam a seus pais e posteriormente ao marido. Já para a mulher negra, após a colonização, nunca sequer ela foi reintegrada ao centro. Passou a ser vista como objetificação, ultra sexualizada, forçada a trabalhos braçais e vítimas de estupros, assim como as mulheres indígenas, a explicação para a famosa miscigenação (mistura de raças) como é chamada no Brasil, na verdade teve sua raiz no estupro colonial.

E foi através dessa violência que estudos passaram a ser feitos como forma de explicar a solidão da mulher negra, que tem seu início ainda na infância, como no ambiente escolar ou até mesmo dentro de casa, muitas vezes até devido ao comportamento de auto ódio expressado em muitos dos nossos irmãos. A mulher negra não tem o seu lugar como padrão de beleza, no que é ditado pelo eurocentrismo, portanto historicamente a mulher preta além de preterida, de acordo com dados do IBGE, também são as que menos casam ou vivem em uma união estável. A filósofa Djamila Ribeiro, aponta que o problema não pode ser visto como individual, já que quando apresentado em dados, mais da metade das mulheres negras, vivem o celibato definitivo, portanto esse problema é social, assim como o amor é construído e com base na raiz dessa construção, a mulher negra nunca foi apontada como referencial de beleza e matrimônio. “Por acaso eu não sou uma mulher?”, Luedji Luna, adaptou o famoso questionamento para uma de suas músicas, no seu álbum visual, a pergunta é feita por Sojourner Truth, que foi uma abolicionista afro-americana e a repetiu várias vezes em seu discurso, em 1851.

O que chamava a atenção na antiga África é o fato de que o matriarcado se formou não para dividir homem e mulher, as mulheres se reuniam para que juntas pudessem dar continuidade aos saberes ancestrais, mas a luta, era de todos, em prol do seu povo, feminino e masculino somavam suas energias para que cada pessoa dentro da comunidade, fosse responsável por acender o sol uns dos outros. 

*Psicóloga; CRP – 06/142064

Pós graduanda em Mitologia Criativa, Contos de Fadas e Psicologia Analítica. Realiza o acompanhamento escolar de crianças e adolescente, consultorias e integrante da Roda Terapêutica das Pretas. Contato: psicologa.anacibelepimentel@gmail.com Instagram: @psicologa.anacibele

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É possível nos enxergarmos com afeto?

Letícia Silva*

“Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo?” *

Recentemente, vimos ou ouvimos, sobre o racismo sofrido pelo participante do

programa BBB, João Luiz, que teve seu cabelo comparado a peruca de uma fantasia de homem das cavernas.

Crédito: 2021 – Reprodução

O mesmo programa, em 2016, utilizou um utensílio em formato de um homem negro com cabelo black power, como esponja de aço.

2016

Ano passado, (isso mesmo, ano passado), a Bombril relançou a esponja de aço Krespinha. Observem o que a propaganda diz: “limpeza eficiente, limpeza pesada.”

Crédito: Reprodução

Essa esponja foi lançada pela primeira vez em 1952. A propaganda tinha a imagem de uma garota negra, que teve seu corpo anulado: em seu lugar está a letra K, da marca.

Crédito: Reprodução

“No Rio, todos me conhecem. Sou Krespinha – a melhor esponja para a limpeza da cozinha. As paulistas também vão me querer bem”. Sobre a propaganda relançada em 2020: Não demorou muito para que a hashtag #BombrilRacista ocupasse um dos primeiros lugares de assuntos mais comentados nas redes sociais. A Bombril, então, retirou a propaganda do ar.

“Quem te ensinou a odiar o formato de seu nariz e deus lábios?

Quem te ensinou a se odiar da cabeça às solas de seus pés?” *

A revista Galileu, no ano passado, publicou sobre uma pesquisa da Universidade Duke, nos Estados Unidos, apontando que “mulheres pretas com cabelo natural são vistas como menos profissionais no ambiente de trabalho em relação àquelas que alisam os fios.”

Quais estereótipos são projetados em um corpo negro? Como construímos nossa autoestima, identidade e autovalorização quando nossos corpos são inferiorizados e a dor do racismo é invalidada? Desde criança sofremos exclusão; invisibilizam nossos corpos e nossa potência intelectual. Ditam o que é bonito, o que é bom, o que é aceito e o que não é.

“Quem te ensinou a odiar pessoas como você?

Quem te ensinou a odiar a raça a qual pertence, a ponto de vocês não quererem estar próximos uns dos outros? (…)” *

Bell Hucks, em seu texto “Vivendo de amor”, afirma que: “numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor.” O psicólogo Lucas Veiga em seu artigo “Consciência negra para um inconsciente coletivo”, diz: “A população negra no Brasil é provocada, por múltiplos dispositivos, a odiar seus traços, sua pele, seu cabelo, sua história, sua ancestralidade (…) O inconsciente das pessoas negras no Brasil foi embranquecido porque os símbolos e discursos que vão aparecer como belos, desejáveis, humanos e dignos de valor são brancos (…) Os símbolos de prestígio, beleza e poder dentro da discursividade hegemônica são brancos. ”

Os efeitos desse ódio projetados em nós, podem ocasionar danos psíquicos e sociais profundos. Não conseguimos perceber nossas potências e qualidades.

E queria pensar com vocês, como a gente pode se olhar com afeto, vivendo numa sociedade racista.

*Trechos do discurso de Malcom X, 1968.

Se olhar de novo, se reconhecer e cuidar

Em qual espelho ficou perdida minha face?*

Cecília Meireles

A gente também se enxerga e se constitui através do olhar do outro. E o racismo nos faz enxergar de forma quebrada e distorcida…

Acredito, como possibilidade para esse novo olhar, podemos pensar na união de pessoas negras: em coletivos, na música, na arte. Ocupando espaços onde possamos trocar olhares e energias, nos nutrindo de afeto. Precisamos nos olhar muitas vezes, cotidianamente, como um exercício diário para nos enxergarmos de verdade. Retirando uns dos outros, as camadas negativas e destrutivas depositadas em nossas subjetividades.

Olhar para nossa história e refazer esse percurso, nos conectando com nossa ancestralidade também é um caminho necessário! Que possamos mutuamente nos reconhecer, nos admirar e falar sobre nossas potencialidades, para assim, coletivamente, nos cuidarmos e reconstruirmos.

Segue um poema pra gente pensar sobre nossos momentos de respiro nessa pandemia.

O que nesse tempo 

tem despertado seu sorriso?

Qual seu momento de pausa,

De respiro profundo 

De alívio?

Dominados pelo medo

Cansados 

Perdidos 

Tentando resgatar a esperança nas pequenas alegrias:

Quando vejo minha vó costurar

Minha mãe cozinhar

Minha sobrinha brincar

Meu irmão cantar

Sinto muito

O tempo todo 

E mesmo sem saber quanto tempo

Ainda temos

E também por isso

Vim aqui

Com meu turbante 

pedir pra você: 

Se olhe! 

Se sinta 

Se acolha 

E mando também um abraço 

Que fica aqui guardado pra quando a gente

Puder se encontrar 

(Se cuidem

E vamos nos cuidando juntos também!)

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*Letícia Silva é Psicóloga Clínica, poetiza e atua da Coletiva Roda Terapêutica das Pretas CRP: 06/97260. Contatos: (11) 97978-5680 / Instagram: @florescendo.nocaos

Estamos falhando ou será falta de empatia?

Elisangela Lopes**

Será que a nossa juventude preta e periférica é culpada por todo caos que estamos vivendo? A Juventude  que está o tempo inteiro conectada e que muitas vezes mantém um comportamento tão desconectado em relação ao nosso cenário. Dificuldades de cumprir a quarentena ou isolamento social, seria uma falta de empatia? A grande questão é, estamos falhando quando aglomeramos ou por falta de empatia!?

Estamos vivendo um cenário pandêmico, já se passaram meses e a situação está pior que no início. Estamos falhando, vamos continuar assim até quando?

Não é a juventude que está falhando com a falta de responsabilidade, na real, todo um sistema está “falhando com a nossa juventude preta com a nossa população preta. Já parou para observar, como está a saúde da nossa juventude preta periférica?

A probabilidade de um adolescente ou jovem cometer suicídio é 45% maior entre negros. Entre os do sexo masculino, aumentam em 50% se comparados aos brancos também na faixa etária entre 10 e 29 anos. Se ampliar um pouco o nosso olhar, vamos perceber que a nossa população preta periférica vivência todos os dias uma exposição às formas de contágio, devido ao acesso precário a saneamento básico; trabalhadores(as) informais, moradias precárias, dificultadores de distanciamento social, entre outros. Toda essa situação afeta diretamente a saúde mental, causando medo, ansiedade, desânimo…

A população preta não teme somente a morte por covid19! A realidade da nossa juventude e população preta é que vivenciamos diversas formas de morte vividas pela população preta. Entendo que muito antes da morte concreta chegar pela bala perdida e muitas vezes sabemos que a bala não é perdida e que o corpo preto é o alvo de doença ou suicídio, as pessoas negras acabam tendo que lidar com mortes simbólicas, ou seja, o assassinato e negação da sua história, cultura, produção de conhecimento e ciência, entre outras formas de apagamento.

Entendo que são diversos os motivos que podem fazer com que a juventude preta e periférica esteja normalizado a pandemia. Segundo o professor Tiaraju Pablo D’Andrea, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz “Por um lado, tem uma desinformação generalizada, que é histórica nas periferias, além de uma desinformação levada a cabo pelo governo desse país que acabou confundindo ainda mais as periferias”, analisa D’Andrea, que desenvolve estudos voltados para a análise das periferias. Além disso, ele avalia que a crise enfrentada pelo país nos últimos anos, agravada com a pandemia, tem tornado as periferias territórios deprimidos, nos quais há dificuldade de se acreditar nas instituições e também projetar o futuro.

Jovens e adolescentes estão no centro das pressões entre deixarem a realidade anterior para se tornarem adultos ao mesmo passo em que se veem confrontados com duras realidades como falta de acesso, moradia, emprego etc. São profundamente afetados pelas crises políticas e econômicas, e geralmente se veem no cerne da mudança de seu país.

A tentativa previa de suicídio vem novamente como um fator de risco, jovens do sexo masculino também apresentam índices mais elevados de tentativa de suicídio do que as mulheres. Outros fatores de risco para os jovens são: pertencimento a grupos hostilizados, como imigrantes, indígenas, negros e LGBTQIA+.

Juventudes indígenas, por exemplo, se veem ainda mais vulneráveis devido aos conflitos territoriais, culturais e as políticas aos quais são expostos desde muito cedo, a desvalorização de sua cultura e de seus costumes, bem como dos conhecimentos, também corrobora para degradação da saúde emocional, sendo que a juventude indígena com o maior índice de suicídio é na faixa etária dos 10 aos 19 anos (44,8%).

“A juventude das periferias não tem muito projeto de futuro por conta de um país que não possibilita planejamentos a longo prazo. A juventude quer viver o agora, quer viver o presente e ela não vai deixar de viver por conta da ameaça da Covid-19. É triste, mas é real”.

Também destaca as principais dificuldades que fizeram com que fosse mais difícil para os moradores das periferias manterem o isolamento social. Questões de infraestrutura dos bairros, como casas muito próximas umas das outras, ruas estreitas e muitas pessoas vivendo juntas na mesma casa são algumas delas.

Outra questão foi, e ainda é, a necessidade de continuar trabalhando fora como única forma de sobrevivência (entrevista completa no http://www.portalmuralpsicologia.com.br). Será que falta empatia da nossa juventude ou população preta?

Psicóloga Especialista em terapia cognitiva comportamental – Roda Terapêutica das Pretas; CRP 06/135952.

Obs: Foto de acervo pessoal da autora.

Ser mulher preta na pandemia.

Maria Conceição dos Santos**

Muito ouvimos falar sobre o quanto a saúde mental das pessoas se agravou desde o início da pandemia. O que infelizmente não ouvimos falar, com ênfase ou atenção necessária, é sobre como anda a saúde mental de mulheres negras. Saúde mental esta que, de maneira geral, nunca foi tratada com a preocupação que se deveria ter.

Sugiro que façamos um exercício breve, trazendo para a consciência, algumas respostas para as seguintes perguntas: quem são a maioria das mulheres que garantem a limpeza das casas, de muitas pessoas que estão fazendo isolamento social? Quem são as técnicas e auxiliares de enfermagem que acessam e cuidam dos pacientes com Covid-19? Quem são as mulheres que atravessam a cidade em ônibus, trens e metrôs lotados com o mínimo de distanciamento? Quem são as caixas de supermercado, faxineiras de prédios, educadoras de escolas públicas, creches e afins, garçonetes, vendedoras ambulantes, feirantes, e outras tantas ocupações que não oferecem grandes opções para que estas mulheres fiquem em suas casas fazendo isolamento social.

Se nesta reflexão, perceber que a maioria delas são mulheres negras, já temos algumas indicações de que o medo de ser contaminada pelo vírus é uma realidade na vida de muitas mulheres negras. Medo este, que se estende na preocupação de contaminar os seus ou até mesmo de precisar parar de trabalhar e não ter renda para o período de tratamento, até mesmo porque o índice de mulheres negras que trabalham na informalidade, sem direitos legais garantidos é de 47%, segundo dados da síntese de Indicadores sociais do IBGE (2018). Certamente este número deve ter aumentado com a incidência da crise epidemiológica atual e elevação nas taxas de desemprego, que hoje é de 60% entre mulheres negras em comparação a mulheres brancas, segundo pesquisa do IBGE de 2020.

Além destes determinantes sociais, o índice de feminícidio aumentou de maneira significativa em 2020. As emoções acentuaram e consequentemente a violência também. Mulheres negras sentem isso na pele. Os homens se tornam cada vez mais intolerantes, agressivos, recorrendo ao uso frequente de álcool e outras drogas com mais frequência e dispensam suas frustrações em suas companheiras, chegando a situações fatais em muitos casos.

É essencial, considerarmos também que existe uma construção social inconsciente de paradigmas históricos que faz com que mulheres negras carreguem transgeracionalmente, estigmas de força e de um suportar de dor que se fazem presentes em condições como a que estamos vivendo. Diante de situações limites como o presente no cenário atual, mulheres negras ainda se mantem em uma posição de não querer (ou não poder) demonstrar fraqueza. Sendo assim, torna-se um desafio extraordinário ter espaço para atentar-se para os sinais que o seu corpo tente lhe dar, para demonstrar que existem agravos de ordem emocional importantes.

Existem alternativas de cuidado que para mulheres negras, podem parecer distantes de sua realidade, uma vez buscar por ajuda especializada que possa apoiá-la em sua saúde mental, deixa de ser uma opção quando existem tantas outras necessidades imediatas de sobrevivência. O serviço de apoio psicológico oferecido pela rede pública não dá conta da demanda destas mulheres. Ainda temos um longo caminho a percorrer em busca de uma ampliação destes serviços de uma maneira mais efetiva. Porém, ainda que com limitações podemos e devemos buscar por apoio nos equipamentos que temos a disposição oferecidos pelo SUS em unidades básicas de saúde, CAPS e outros locais que cuidam de especificidades relacionadas a saúde mental.

O momento atual é de extrema complexidade e o lugar de onde cada uma que lê este texto é singular, no entanto a intenção aqui é poder propor que possamos escutar nossas dores e, dentro do que for possível, encontrar um espaço para cuidar-se, pois firmar nossa cabeça neste contexto é primordial para lidarmos com os dramas diversos que estão acontecendo nos últimos tempos. Firmar a cabeça não significa ser forte o tempo todo, firmar a cabeça também é escutar-se nas fragilidades e olhar para isso como uma humanidade possível.

Também vale a pena resgatarmos em nossa história ancestral africana, a capacidade de busca por cuidados a partir da coletividade. Esta é uma herança que nos dá condições de compartilhar alegrias, tensões, medos, ansiedades, preocupações e encontrar acolhimento entre as nossas. Podemos muita coisa, mas não podemos tudo sozinhas.

**Psicóloga da Coletiva Roda Terapêutica das Pretas, CRP:06/109138

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