Convite do Harambee

Gostaríamos de informar que o Harambee, Grupo de Estudos Saúde da População Negra da UFRGS e o Projeto Equidade Étnico-Racial no SUS da Escola de Enfermagem da UFRGS estão ofertando os seguintes cursos:
CURSO GESTÃO PARTICIPATIVA: O CONTROLE SOCIAL DE OLHO NA EQUIDADE.O curso Gestão Participativa: o controle social de olho na equidade tem o objetivo de fortalecer a gestão participativa e o controle social na perspectiva da governança no SUS e no âmbito da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), através da capacitação dos/as usuários/as
Público-alvo: Lideranças Comunitárias, Movimentos Sociais, Trabalhadoras/es da Área da Saúde e Usuários/as do SUS em geral
Carga horária: 16 horas.

CURSO PROMOTORAS/ES EM SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA JOVEM IO curso Curso Promotoras/es em Saúde da População Negra Jovem I tem o objetivo de promover o debate e a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), por meio de ações em torno da Saúde da população negra, com foco na juventude negra no Município de Porto Alegre – RS, mediante formação de jovens como agentes multiplicadores/as na luta por direito a saúde e contra o racismo institucional, sendo estes protagonistas na construção de cuidado em saúde da juventude negra.
Público prioritário: O curso está aberto para toda a comunidade, mas com prioridade a Juventude negra.
Carga horária: 46 horas.

CURSO PROMOTORAS/ES EM SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA JOVEM IIO curso Curso Promotoras/es em Saúde da População Negra Jovem II tem o objetivo de promover o debate e a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), por meio de ações em torno da Saúde da população negra, com foco na juventude negra no Município de Porto Alegre – RS, mediante formação de jovens como agentes multiplicadores/as na luta por direito a saúde e contra o racismo institucional, sendo estes protagonistas na construção de cuidado em saúde da juventude negra.
Público prioritário: O curso está aberto para toda a comunidade, mas com prioridade a Juventude negra.
Carga horária: 46 horas.

Os cursos são gratuitos, autogeridos por meio da Plataforma Moodle Colaborador da UFRGS, dividido em módulos com as seguintes atividades de ensino e aprendizagem: leituras individuais dirigidas, vídeos e podcasts explicativos referentes aos assuntos abordados nos módulos e exercícios avaliativos individuais.
Os cursos têm financiamento do Ministério da Saúde e contam com certificados emitidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
As inscrições são realizadas pelo site: https://www.ufrgs.br/harambee/cursos/
Solicitamos ampla divulgação em suas redes para alcançarmos um grande número de beneficiados!

Atenciosamente,

Grupo Harambee

A construção do homem branco racista.

Foto por Mathias P.R. Reding em Pexels.com

Jean Carlos de Oliveira Dantas

“Vale a pena acentuar especialmente o fato de que cada parte que retorna do passado afirma-se com força peculiar, exerce influência incomparavelmente poderosa sobre a massa, e ergue uma reivindicação irresistível à verdade, contra a qual as objeções lógicas permanecem importantes: uma espécie de ‘credo quia absurdum’ (creio porque é absurdo)”  

Sigmund Freud, in Moisés e o Monoteísmo.

          A humanidade entrou na década dos anos 2020, mergulhada em duas grandes epidemias – a Covid-19 e o Racismo, que foram geradas por seu projeto de desenvolvimento centrado no acúmulo individual de riquezas. A segunda epidemia destacada, existe desde o nascimento das civilizações, onde um povo se colocava em posição de superioridade em relação a outro, por meio da discriminação, estratificando gente em várias categorias, tendo como justificativa: as verdades estabelecidas por uma minoria dominantemente bélica-financeira-política, que muitas vezes, colocava que esta realidade social atendia a vontade das suas divindades. Apesar desta verdade histórica, muitas destas sociedades são consideradas por muitos historiadores, como territórios humanos altamente evoluídos em sua época (1). Assim sendo, o racismo evoluiu na humanidade junto com as sociedades, governos e o Estado.               

          A evolução tecnológica, política e social vivenciada pelas nossas sociedades, ainda que de forma desigual, apresenta avanços em vários campos do conhecimento, como a medicina, a psicologia e as ciências da comunicação, mas nada disso conseguiu refrear o racismo em nosso meio. Penso, que ainda se faz necessário amadurecermos num campo estratégico da humanidade – a ética, uma regra de ouro que pode ser traduzida numa simples perspectiva de: “não fazer ao outro, aquilo que não desejas que façam a você” (2). Neste caso específico, o aquilo que me refiro é a discriminação racial. 

          A discriminação racial pode ser entendida como a promoção e a defesa de uma premissa ilógica da existência de uma raça superior numa determinada sociedade (3). Esta tese é legitimada por uma minoria com alto poder político/financeiro, que para manter o status de superioridade, implementa uma corrente ideológica de negação do Estado Democrático de Direito aos outros grupos sociais, considerados como pertencentes as raças inferiores.  Esse pensamento negacionista, que passa a ser verdade inconteste, se utiliza do Estado, e dos seus poderes constituídos, muitas vezes legitimado pela religião dominante, mesmo que este credo diga que todas as pessoas são irmãs, e devem amar o próximo como a si mesmas. Apesar desta mensagem cristã e positiva, e do amor ao próximo, o enfrentamento ao racismo secular, não conseguiu ecoar nas relações humanas que formaram o povo brasileiro – a maior sociedade católica do mundo (4).      

          As relações humanas são permeadas por crenças, verdade e valores e, a prerrogativa da ideia de raça superior, acaba balizando as atitudes e comportamentos inconscientes e conscientes manifestados no encontro entre brancos(as) e negros(as) (5). E é aqui que gostaria de propor uma reflexão a partir do meu olhar de um homem branco, porque é deste lugar que penso, e logo existo. 

          Pensando na formação social do preconceito racial em terras brasileiras, volto as minhas interrogações para o indivíduo e a sociedade, porque um não existe sem o outro e, desta forma, posso conjecturar possíveis caminhos para entender a formação de um homem branco racista.   

          A formação de um homem branco para a vida é viabilizada pela sua família, escola/universidade, local de trabalho e, demais grupos sociais por onde transitará por toda sua existência. Esse processo educativo é sustentado por valores e crenças vigentes na sociedade onde o homem branco nasce, vive e morre, sendo o preconceito racial um dos elementos constituintes dessa formação. Penso, que essa é uma das possíveis teses para entender como se constrói um homem branco racista (6)

          O processo de educação/formação do indivíduo é um dos caminhos para a perpetuação do preconceito racial, e de todas as suas consequências que afetam diretamente a vida da pessoa negra, porém fico imaginando se temos outros fatores formadores do homem branco racista, tais como a genética. 

          A genética é o campo da biologia, que versa sobre o estudo da hereditariedade: a transmissão de características de pais para filhos, ao longo das gerações, onde alguns pensadores e cientistas levantaram hipóteses, ou se aproximaram de conceitos acerca dos processos hereditários na formação dos indivíduos, como o filosofo inglês John Locke (1632/1704), e o pai da Psicanálise – Sigmund Freud (1856/1939). As conjecturas apresentadas por estes autores, tinham como um dos elementos constituintes de suas teses, a Filogenética, que é uma disciplina da biologia, que estuda a origem dos organismos vivos e as relações existentes entre eles (7,8). Assim sendo, a partir desta breve premissa, me peguei pensando em algumas questões, sem medo de ofender a ciência, a saber:  

  • Será que, a ancestralidade do homem branco influência na formação do seu racismo?
  • Será que, o preconceito racial está presente no DNA do homem branco?
  • Será que, o comportamento racista é formado, também por uma espécie de “DNA social” herdado dos seus antepassados?
  • Será que, os ancestrais racistas do homem branco perpetuam o ‘modos operandi’ na genética dos seus descendentes?
  • Será que, as características adquiridas por gerações sucessivas de homens brancos, somados à aos processos de educação/formação geracionais são as bases para toda manifestação inconsciente ou consciente, do preconceito racial?

          Vou parando por aqui com os meus “serás”, porque senão, não concluo este artigo.

          Locke e Freud, apresentaram teses acerca das possíveis bases hereditárias na formação do jeito de ser e existir da pessoa humana, apesar das controvérsias e debates provocados por seus antagonistas, que defendiam a não cientificidade desses postulados (7,8). Freud, utilizou o princípio hereditariedade para subsidiar suas investigações científicas na busca pelos fatores constituintes dos processos de adoecimento ao qual seus clientes eram acometidos, que por extensão, também serviu para ele inferir sobre o surgimento de algumas mazelas sociais, como o preconceito racial, que no seu caso, veio vestido de antissemitismo (preconceito contra, ou ódio aos judeus) (9). Assim sendo, Freud tratou a hereditariedade como um dos meios para tentar explicar, para além dos processos de educação/ensino, o ódio produzido pelo antissemitismo, que atingiu seu ápice na esteira dos anos que antecederam a segunda guerra mundial (1939/1945).

          As perguntas de Freud sobre os processos de manutenção do antissemitismo europeu, ao qual foi vítima desde o seu nascimento, até a sua morte e, que se perpetuava há várias gerações, me faz pensar na manutenção tupiniquim do racismo brasileiro. Uma das respostas vigente é que o Estado brasileiro foi construído sob as bases da discriminação, exploração e mortes de negros(as) e índias(os).                 

          Acredito que, estas reflexões sobre os processos políticos, educacionais ou, quiçá filogenéticos formadores do homem branco racista merecem mais deferência das famílias brancas na atenção à criação dos seus(suas) filhos(as). O lar é o lugar das primeiras lições que um homem branco recebe das pessoas que geraram a sua vida, ou daqueles(as) que lhe acolheram, sendo que este é a base para a construção dos pilares que lhe sustentaram durante toda a sua vida. As famílias brancas devem atentar, refletir e pensar urgentemente, numa formação antirracista, antissexista e, baseada nos direitos à liberdade humana para seus homens brancos.

          As famílias brancas brasileiras, que nasceram aqui ou foram transferidas para cá, possuem uma ferida ancestral provocada pelo julgo da escravização de milhares de africanos(as), e seus descendentes, mesmo que não tenham vivido nesta época, mas mantiveram o preconceito racial na formação contínua da sua prole.  

          Cabe a nós, homens brancos que nascemos no seio de famílias concebidas por nossos antepassados brancos, que sustentaram o preconceito racial, por meios da promoção da ideia de um grupo de pessoas superiores a outras ou, que silenciaram diante das sequelas produzidas pela violência de um Estado e sociedade racistas, criar e promover estratégias técnicas, políticas e sociais para enfrentarmos esta herança ancestral.

           O primeiro caminho para nós, é reconhecer a existência de toda a violência produzida pelo povo branco ao povo negro e índio, na constituição desta nação e Estado. Reconhecer os traços existentes em nossos atos, falas e comportamentos, que trazem sutilmente ou não, resquícios da discriminação racial, como por exemplo: muitas vezes nos admiramos com a beleza negra num determinado local social, não pela beleza em si, mas porque no fundo da nossa alma, estranhamos a presença de uma beleza negra onde deveria somente ter belezas brancas, que pelo privilégio de sua branquidade não precisa de artifícios para justificar a sua presença na sociedade (10). O homem branco tem que ter a coragem de ler, assistir, participar, ouvir a sabedoria ancestral negra sobre a constituição do povo negro nas terras brasilis, pois são narrativas negras falando de histórias negras, sem o viés pasteurizado racial da academia branca. Enfim, cabe ao homem branco ser antirracista, pois ele é fruto da parte que produziu o racismo.        

          O homem branco e o homem negro trazem em suas almas e corpos, as marcas ancestrais do racismo, sendo que o primeiro, apresenta a chaga do opressor e, o segundo, as feridas do oprimido. Esta marca e ferida, estarão presentes em cada um destes homens por toda sua existência. Estes estigmas são geradores de angústia, dores e demais sensações e sentimentos que brotam quando homens brancos e negros se encontram.

          A tensão que é gerada num debate público sobre racismo, onde estão presentes homens brancos e homens negros é oriunda da marca ancestral do opressor e oprimido, que cada um carrega em si mesmo. Neste momento, ocorre um encontro entre os descendentes dos povos que escravizaram e foram escravizados, com a vazão de sentimentos e sensações. Penso, mesmo que romanticamente, que neste momento de debate, temos a presença neste território dos ancestrais da negritude e branquitude:  o pai negro, a ama de leite da sinhazinha, a menina negra que foi abusada, o senhor do engenho, o capitão do mato, a sinhazinha. Aqui percebo a presença de todos ancestrais nas almas e corpos da sua descendência tencionando-os(as), o debate com vistas a criação de um mundo melhor e justo para os negros(as), que deve ter a participação, contribuição e solidariedade do branco. Assim sendo, penso que a tensão produzida no encontro entre o homem branco e negro, não ocorre somente numa arena de debate, mas em todos os lugares, mesmo em momentos prazerosos de comunhão e amizade.                                                  

          A presença do homem branco no enfrentamento da discriminação racial é fundamental e urgente, pois as mudanças sociais mais substanciais, estruturantes e sustentáveis acontecem de dentro para fora e, ninguém melhor do que um descendente de racistas para melhor combater o racismo junto aos seus.

Referências bibliográficas:

1 – Mendes, BMF. “O problema da reificação em História e Consciência de Classe de Georg Lukács.” Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar. São Carlos (2011)”. [acesso 08 jan 2021]. Disponível em: http://www.ufscar.br/~semppgfil/wp-content/uploads/2012/05/brunomendes1.pdf 

2 – Ricoeur, P. “Ética y moral.”Doce textos fundamentales de la Ética del siglo XX (2002): 241-255. [acesso 30 dez 2020]. Disponível em: http://www.brunovivas.com/wp-content/uploads/sites/10/2018/07/Livro-%C3%89tica-e-Moral.pdf

3 – Seyferth, G. “A invenção da raça e o poder discricionário dos estereótipos.” Anuário antropológico 18.1 (1994): 175-203. [acesso 29 dez 2020]. Disponível em:  https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7410192

4 – Moura, C. “Escravismo, colonialismo, imperialismo e racismo.” Afro-Ásia 14 (1983). [acesso 02 jan 2021]. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/viewFile/20824/13425

5 – Pinto, MCC, Ferreira RF. “Relações raciais no Brasil e a construção da identidade da pessoa negra.” Revista Pesquisas e Práticas Psicossociais 9.2 (2014): 256-266. – [acesso 02 jan 2021]. Disponível em:  http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/revista_ppp/article/view/933/713

6 – Barbosa, MIS. Racismo e saúde. Diss. Universidade de São Paulo, 1998. [acesso 30 dez 2020]. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6136/tde-08042020-101524/publico/DR_351_Barbosa_1998.pdf

7 – Jorge Filho, Edgard José. Moral e história em John Locke. Vol. 20. São Paulo. Edições Loyola, 1992.

8 – Freud, S. “Resposta às críticas a meu artigo sobre a neurose de angústia (1895). Primeiras Publicações Psicanalíticas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol III: 143-160; 165-179. Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.  

9 – Freud, S. “Moisés e o Monoteísmo, Esboço de Psicanálise e Outros Trabalhos Psicanalíticos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol XXIII: 67, 311, 319. Rio de Janeiro. Editora Imago, 1996.  

10 – Moreira, A. Racismo Recreativo. 39. São Paulo. Pólen Livros, 2019. 

*Psicólogo; Mestre em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

A honra da mulher viva

Foto por Alex Green em Pexels.com

Claudia Patrícia Luna Silva ; Gabriela Sequeira Kermessi; Viviane Ornellas Pereira Cantarelli; Simone Henrique.

Originalmente publicado em Folha de S.Paulo | 03/11/2020 | Por Claudia Patrícia Luna Silva, Viviane Ornellas Pereira Cantarelli, Gabriela Sequeira Kermessi e Simone Henrique.

A decisão veiculada pela imprensa em 30 de setembro deste ano, sobre a absolvição de um homem que tentou matar a ex-mulher por “legítima defesa da honra”, surpreendeu-nos com revolta e indignação, colocando-nos em reflexão por parte da advocacia que prima pelo não retrocesso ao direito de defesa e à sordidez da fundamentação que a enseja. A questão em discussão não se baseia na punição e sim no pensamento retrógrado que busca abonar a violência contra a mulher em suas diversas vertentes.

O sistema penal é seletivo e o recrudescimento das penas não resguarda a vida e a integridade física e psicológica das mulheres.  Logo, o texto não se trata à relativização das garantias penais, tampouco se furta à extrema gravidade ao observar-se que nossa sociedade tolera a morte de mulheres em detrimento ao ego frágil de um homem, da ausência de política pública para o diálogo e o acolhimento de homens e suas masculinidades.

Todos os dias mulheres morrem vítimas do machismo e a resposta que se dá a essa situação é através do júri popular, nos casos de indícios de dolo na conduta praticada. O júri, formado por cidadãos, reflete a opinião pública e expressa a essência da nossa escolha democrática.

Na Constituição de 1988, nossa sociedade reconheceu a vida como bem jurídico de maior relevância e o detentor do poder, o povo, como julgador nos processos de quem atentar contra esse bem. Há muitas críticas sobre a ausência da formação técnico-jurídica dos jurados populares, porém não são foco desse debate.

Na década de 1970 houve grande repercussão e rechaço por parte de feministas e juristas, a pseudo tese sobre legítima defesa da honra, cuja construção pífia remonta a culpabilização da mulher e tolerância ao homem ofendido em sua masculinidade. À época, Carlos Drummond de Andrade escrevera sobre um dos casos: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”. Em pleno 2020 temos como pauta no judiciário a “honra da mulher”, parece um dejavu mas não é! Diante de tantos retrocessos vivenciados no país, não podemos nos abster de que esse pensamento é estrutural, alavancando o machismo enraizado na cultura patriarcal e julgando comportamentos, escolhas e liberdades das mulheres do Brasil e do mundo.

Espera-se que o/a jurista não se valha do machismo estrutural, logo, no júri, que não é técnico – e ainda que fosse, isso não o exime, pois, as violências estruturais prescindem de diploma para combatê-las -, contudo, a ausência de expertise inviabiliza elementos concretos para análise de uma construção oportunista, de valer-se de uma falácia a sustentar um suposto argumento à absolvição. O ordenamento jurídico já traz os institutos próprios de defesa, que não utilizam uma narrativa perniciosa para resguardar a subjetividade masculina, com o fim de afastar a responsabilização por suas ações, para fazer valer um instituto que nem existe e que não se sustenta como teoria, tampouco na doutrina.

Mais uma vez, observa-se o rompimento do pacto civilizatório, numa retomada da barbárie, consistente na culpabilização da vítima para justificar o ato ilícito de quem exterminou sua vida.

O machismo, assim como as demais violências estruturais, deve ser pauta central a compreender todas as violências e o modo de preveni-las e combatê-las, observando-se também as sofridas pelo viés interseccional de raça, classe, gênero e sexualidade.

Já passou da hora dos homens renunciarem ao tabu de se compreenderem por machistas, pois que essas violências são estruturantes, não é uma questão intrinsecamente de caráter. O primeiro passo para evitar sua ocorrência é admitir que potencialmente as possui, pois, novamente, são elas estruturais e estruturantes.

Sejamos agentes que provoquem a reflexão, quanto ao conceito de mulher pessoa humana livre, para que os princípios culturais e patriarcais sejam colocados em xeque a cada mulher que for atacada e subjugada nesta sociedade criada e mantida para proteger e manter os homens no alto de seus privilégios.

Claudia Patrícia Luna Silva é Conselheira Seccional e Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB SP;

Viviane Ornellas Pereira Cantarelli é Presidente da Comissão de Justiça Restaurativa da OAB SP;

Gabriela Sequeira Kermessi é Secretária-Geral Adjunta da Comissão Mulher Advogada da OAB SP, membro efetiva na comissão de Igualdade Racial;

Simone Henrique é Vice-Presidente da Comissão Especial da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB SP.

Subsídios ao diálogo sobre saúde nos Terreiros de São Paulo

Celso R. Monteiro*

Em sua produção científica na USP, Reginaldo Prandi descreve “Os Candomblés de São Paulo” nos anos 90, o que gerou um livro importante na época. A tese possibilitou a criação do Diretório dos Terreiros no site daquela instituição de ensino por ela mantido até os dias atuais.

Em 2017 com a retomada do Projeto Xire, redesenhado para as articulações sobre saúde na visão de mundo das religiões afro-brasileiras, adotamos o diretório com os dados de 2015, como referencial teórico do projeto, para pensar o quanto aqueles dados dialogavam com a rede de estabelecimentos de saúde do município na época, considerando a diferença entre os territórios. Pretendia-se ampliar o debate sobre saúde nos Terreiros, na perspectiva da gestão participativa, visto que os dados do diretório, estão registrados a partir da auto declaração das lideranças. Observamos lacunas importantes quando a Secretaria Municipal da Saúde fez o georeferenciamento dos Terreiros cruzando tais informações com a rede de estabelecimentos de saúde. Era a primeira vez que um estudo como esse acontecia naquela casa. Tal investimento contou com as contribuições de Valdete Ferreira – Coordenadora da Área Técnica de Saúde da População Negra daquela Secretaria, que buscava responder as lideranças de religiões afro-brasileiras como a Estratégia Saúde da Família poderia contribuir com o reconhecimento dos Terreiros como núcleos de promoção da saúde, tal e qual está previsto na Política Nacional de Atenção à Saúde da População Negra.

Agora, com dados atualizados pelo mesmo Diretório, o geógrafo Hugo Nicolau – a quem eu agradeço publicamente – nos brinda com uma segunda versão do mapa dos Terreiros, a partir da mesma fonte, atualizada em Setembro de 2020.

Compreendemos tal como antes, que a cidade tem muitos Terreiros ausentes do mapeamento (muitos deles não querem ser catalogados por nenhuma instituição) e, o sistema de saúde ainda tem lacunas no que se refere à abrangência e articulação com tais comunidades. Essa nova versão do mapa indica-nos ainda que a quantidade e a localização dos Terreiros não representam presença de população negra na cidade. O uso de tais evidências requer, portanto, total atenção por parte de cada um de nós, pesquisadores e ativistas dedicados às relações étnico-raciais e a relação dessas com as políticas de enfrentamento do racismo, com vistas à condução de políticas municipais que alcancem essa população no futuro bem próximo. Temos, portanto, razão de sobra, para avançarmos conjuntamente, deixando a vaidade de lado e agradecer pelas contribuições possíveis, dando-lhes os devidos créditos.

*Professor Licenciado em Ciências Sociais; Consultor da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo. Contato: celsormont@gmail.com

Convite da Aliança

Querides Aliades,

O ano de 2020 tem sido desafiador. A COVID tirou o nosso sossego, mas, enfim o ano está acabando.

Para celebrar as nossas vitórias e entre elas, a nossa saúde e as coisas boas que fizemos nesse período, realizaremos a confraternização da Aliança, por via remota, afinal, ainda estamos em quarentena. Faça seu pratinho, seu chá, seu cafezinho, acenda o cachimbo e conecte-se com a gente na próxima quinta, dia 17 de Dezembro de 2020.

Todes são muito importantes para nós, por isso queremos muito esses abraços virtuais.

Para participar acesse o link: https://meet.google.com/ctf-sthk-qfe

Flip Couto

Diretoria Executiva

Sugestão de leitura

“E quem não tem internet? Reflexões sobre audiências de custódia e acesso à justiça durante a pandemia” na plataforma Covid Nas Prisões.

O artigo apresenta uma análise sobre os impactos da virtualização das audiências de custódia a partir do cruzamento das perspectivas e experiências das autoras.

Autoras: Miriam Duarte e Raissa Belintani e Viviane Balbuglio.

O site traz artigos de convidados e vídeos sobre temas relacionados ao avanço do covid-19 e a luta pelo desencarceramento.

Leia aqui