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Boa leitura!

Precisamos racializar o debate do encarceramento em massa.

Nathália Prince*

Em primeiro lugar, acredito que seja importante situar de onde vem a minha escrita. Sou assistente social, militante ativa da Associação de Familiares e Amigos/as de Presos/as (AMPARAR), que tem sua sede situada na região da zona leste de São Paulo e foi fundada em 2004 por Miriam Duarte e Railda Alves.  Componho, também, o Coletivo Escuta Liberta, iniciativa criada durante a pandemia pela AMPARAR e a Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio. As reflexões e argumentos trazidos neste texto são da experiência de atuação nessas construções coletivas.

O momento que vivenciamos ressalta que estamos sob uma política da morte, infelizmente, continuamos perdendo pessoas queridas e sabemos que tais perdas são evitáveis. Contudo, acredito na importância de realizar essas reflexões, por mais pesadas que sejam, assim como, vivenciar articulações coletivas e discutir sobre a temática, para que possamos avançar em estratégias de enfretamento ao racismo, encarceramento em massa e genocídio do povo preto.

O último levantamento do INFOPEN (2019) aponta que de 748 mil pessoas presas, das quais consta informação de raça/cor, 438 mil são negras, ou seja, são 66,7% da população carcerária. Outra questão que chama atenção nesse levantamento, é o crescimento de 14% da proporção de negros no sistema carcerário brasileiro nos últimos 15 anos, enquanto a de brancos caiu cerca de 19%.

O presente texto pretende romper, também, com a naturalização do termo “racismo velado”, pois como pode se considerar velada uma violência escancarada em nossa sociedade durante anos? Se pessoas pretas, indígenas e periféricas tendo suas vidas ceifadas pelo Estado não gera comoção e reflexão de grande parte da sociedade, assim como, o encarceramento em massa e os dados que mostram quem representa grande parte dessa população, é porque a desumanização é naturalizada. Tais violências não estão postas de maneira velada, estão escancaradas. Não é à toa que o Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo. Estima-se que de três pessoas presas, duas são negras e que as punições são mais severas quando se trata de uma pessoa preta que será julgada no sistema prisional.

Davis (1944) analisa que as prisões são encaradas como algo tão natural que para muitos é extremamente difícil imaginar a vida sem elas, ou seja, ser preso é considerado um fato inevitável da vida, como o nascimento e a morte. A abolição das prisões é simplesmente impensável, nesse contexto, já que foi fácil produzir um sistema de encarceramento em grande escala com o consentimento implícito da população. Segue um trecho do livro “Estarão as prisões obsoletas?”:

Pensamos nas prisões como um destino reservado a outros, um destino reservado aos “malfeitores”, para usar um termo popularizado pelo George W. Bush. Devido ao poder persistente do racismo, “criminosos” e “malfeitores” são, no imaginário coletivo, idealizados como pessoas de cor. A prisão, dessa forma, funciona ideologicamente como um local abstrato no qual os indesejáveis são depositados, livrando-nos da responsabilidade de pensar sobre as verdadeiras questões que afligem essas comunidades das quais os prisioneiros são oriundos em números tão desproporcionais. Esse é o trabalho ideológico que a prisão realiza – ela nos livra da responsabilidade de nos envolver seriamente com os problemas de nossa sociedade, especialmente com aqueles produzidos pelo racismo e, cada vez mais, pelo capitalismo global. (DAVIS, 1944, pág. 16-17)

Os dados também revelam que pelo menos 40,1% da população presa hoje são presos/as provisórios.  Desse total, 37% não haviam cometido ato infracional, ou seja, foram presos injustamente.  Ao pensar em como chegamos nessas duras estatísticas, não consigo não lembrar  dos relatos que a Carolina Maria de Jesus escreveu em Diário de Bitita. Ela traz situações em que conhecidos sofriam revista policial e eram presos quando não apresentavam calos nas mãos, pois era considerado “vadiagem”. Jesus (1982) afirma que quem ia preso sempre era o negro, mesmo quando estavam apenas olhando, então ter uma pele branca era um escudo, um salvo-conduto. Esse é um dos diversos exemplos de como se constituiu o projeto de criminalização da população negra e, consequentemente, o encarceramento em massa, que atravessou e atravessa até hoje os aspectos da cultura preta, como o culto às religiões de matriz africana, toque dos tambores, capoeira e outros elementos.

De encontro aos relatos de Carolina, Telles (2003) afirma que os fenômenos sociais como a vagabundagem, alcoolismo ou criminalidade foram considerados “tendências psíquicas” de indivíduos degenerados, portanto, a criminalidade era orgânica. No fim do séc. XIX, intelectuais da ciência biológica e criminal, desenvolveram, a partir de livros e congressos, uma análise sobre o “criminoso”, estabelecendo que a raça deveria ser entendida como elemento conclusivo da responsabilidade penal. Moura (1994) reforça que foi realizado um grande trabalho ideológico durante a ascensão do nazismo e fascismo, no qual a psiquiatria passou a defender a esterilização e segregação perpétua de todos os indivíduos que eram considerados loucos ou desequilibrados.  Os mesmos critérios utilizados na avaliação, passaram a valer para pessoas consideradas de “raça inferior”, ou seja, todos aqueles que sofreram os impactos da escravidão e, em tempos recentes, supostamente foram libertados.

Todo esse histórico, da falsa abolição e da fundamentação do racismo para a máquina do encarceramento em massa, foi apoiado pelo mito da democracia racial. Não se escraviza mais pessoas negras, mas continua em curso o projeto de genocídio, já que o imaginário social investe explicitamente na eliminação de determinado contingente humano. Tal estratégia tende a se materializar por práticas efetivas de extermínio, sejam estas simbólicas, como a representatividade negra demonstrada em novelas, ao representar famílias sem pais, sem antecedentes, ou seja, sem raízes; sejam mortes materiais, das torturas produzidas no cárcere e dos assassinatos nas favelas; sejam da morte espiritual com a criminalização aos terreiros e o racismo religioso; sejam da morte psíquica, da desconstituição da humanidade de uma pessoa presa, das humilhações que as famílias sofrem ao acompanhar essa trajetória, da mãe que perde um filho e diversos outros exemplos dolorosos que acompanhamos diariamente.

A pandemia escancarou mais ainda a falência do sistema prisional. Quando iniciou a pandemia muitas famílias não tinham acesso a nenhuma notícia, as violações de direitos nas unidades prisionais tiveram um grande aumento com a proibição das visitas e a alta taxa de desemprego no país, que também afetou diretamente a renda dessas famílias, ainda mais sem a concessão do auxílio emergencial. Essas questões produzem efeitos incalculáveis na vida dessas pessoas. A resistência e o enfrentamento das famílias é o que, minimamente, garante algumas questões de sobrevivência nesses espaços, visto que, são as famílias que arcam com os gastos de higiene, alimentação, vestimenta e de todos os itens básicos necessários. Miriam Duarte fala em seu artigo “AMPARAR: Ser familiar de pessoas presas é crime? Em busca de novas políticas de abordagem para os familiares de presos e presas”, a seguinte questão:

No estado de São Paulo, são as famílias que sustentam um “sistema privado” de acesso a cuidados básicos às pessoas presas, uma vez que se responsabilizam por todos os cuidados dos presos e presas a partir da compra do “jumbo”. (…) Para levar o jumbo, as famílias acabam por arcar com viagens até os presídios e precisam atender toda a burocracia exigida pelas prisões do estado. (…) Outra situação é que quando acontecem as famosas “blitz” do Grupo de Intervenção Rápida (GIR) nas prisões paulistas, grande parte dos alimentos e outros itens de subsistência que foram ofertados pelas famílias das pessoas presas acabam sendo destruídos – desconsiderando os sacrifícios realizados para que aqueles itens chegassem ao familiar. (…) Quando este parente sai da prisão, novos desafios, inclusive financeiros, se impõem sobre suas vidas e de suas famílias. Um deles decorre da dívida da “multa penal”, uma pena estabelecida pelo poder judiciário em conjunto com a pena de prisão e que as famílias entendem que se trata de uma multa que recebem pela “estadia nos presídios”.

CNJ (2021) evidencia que no ano de 2021 as mortes por COVID-19 nas unidades prisionais tiveram um aumento de 190%. O levantamento revela que unidades do sistema prisional e do sistema socioeducativo (que estão crianças e adolescentes) já contabilizam um total de 71.342 mil ocorrências de COVID-19 desde o início da pandemia, mas com indícios de subnotificação e baixa testagem. Há unidades prisionais com mais de 75% da população carcerária contaminada pelo coronavírus. As pessoas presas, que compõem o grupo de risco do coronavírus, teriam direito ao recurso de Habeas Corpus ou prisão domiciliar, mas de acordo com levantamento da Defensoria Pública no Estado de São Paulo, de março a junho de 2020, apenas 3% dos pedidos de soltura foram atendidos.

A AMPARAR acolhe famílias que trazem relatos de falta de água nos presídios, cacos de vidro nas marmitas, comida estragada, agressões físicas, falta de isolamento social, situações em que agentes carcerário mantém pessoas contaminadas nas celas com superlotação, não fornecimento de atendimento médico, máscaras, álcool em gel e diversas outras violações de direitos. Segundo estudo realizado pela Pastoral Carcerária Nacional, denúncias de violações de direitos humanos no sistema prisional do Brasil aumentaram 82% durante a pandemia.

Temos o entendimento que se o sistema prisional permite que essa população coma comida podre, não tenha acesso a água, não tenha direito a prisão domiciliar, não tenha recursos de proteção contra o coronavírus, é porque compreendem que vidas presas não importam, não são seres humanos. As famílias que lutam pela vida de seus parentes, que após saírem do sistema prisional terão que travar mais uma batalha, a de reconstituir a sua humanidade.

A AMPARAR realiza, desde sua criação, uma série de articulações com a rede de saúde, assistência social e assistência jurídica, com o objetivo de fazer pressão para que as políticas contemplem as famílias impactadas pelas violências do sistema carcerário. Destaco as rodas de conversa quinzenais, que agora ocorrem virtualmente, desenvolvidas para o acolhimento e a formação política conjunta. Na roda participam familiares, sobreviventes do sistema prisional, movimentos sociais de outros estados do Brasil e coletivos anti-cárcere. A construção de denúncias coletivas, audiências públicas, acolhimento individual e a atuação do Coletivo Escuta Liberta. Este coletivo realiza atendimento gratuito e online a familiares de pessoas presas e conta com profissionais e estudantes da área de Psicologia, Serviço Social, Direito e militantes, é uma iniciativa a fim de fortalecer as mulheres criminalizadas e culpabilizadas na luta cotidiana contra diversas injustiças.

Em nome da defesa da vida (de alguns), o Estado produz o imaginário do “inimigo”, em que se exerce o poder de deixar viver, fazer morrer, encarcerar ou expor à morte; separando quais corpos e vidas são humanos. Portanto, se a relação entre o negro e o crime, é uma construção absolutamente determinante, a discussão deve partir disso para que essa estrutura seja destruída e combatida.  Acredito que será a partir do avanço desses entendimentos, que as estratégias coletivas de luta e resistência vão construir uma nova perspectiva de vida, humanidade e dignidade.

Referências Bibliográficas:

ALVES, Dina. O cárcere é a maior expressão de racismo no mundo. Entrevista para a Pastoral Carcerária, São Paulo, 2019.

CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia na Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? 1° ed. Rio de Janeiro: Difel, 2018.

DUARTE, Miriam. AMPARAR: Ser familiar de pessoas presas é crime? Em busca de novas políticas de abordagem para os familiares de presos e presas. São Paulo, 2021.

INFOPEN. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – Infopen. Departamento Penitenciário Nacional, dezembro de 2019. Disponível em: http://antigo.depen.gov.br/DEPEN/depen/sisdepen/infopen.

JESUS, Carolina Maria de. Diário de Bitita. Editora Bertolucci – Rio de Janeiro, 2007.

MOURA, Clóvis. O racismo como arma ideológica de dominação. Edição 34, 1994.

TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de. Janeiro: Relume-Dumará: Fundação Ford, 2003.

Disponível em: <https://noticiapreta.com.br/numero-de-negros-na-prisao-cresce-14-nos-ultimos-15-anos-no-mesmo-periodo-a-taxa-de-bancos-caiu-19/> Acesso em 09 abri. 2021.

Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/20/covid-19-infectou-75-das-prisoes-de-sp-mortes-ocorreram-em-24-cadeias.htm> Acesso em 09 abr. 2021.

Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2021-03/obitos-por-covid-19-crescem-190-no-sistema-prisional> Acesso em 11 abr. 2021.

Disponível em: <https://racismoambiental.net.br/2021/03/26/exclusivo-denuncias-de-violacao-de-direitos-no-sistema-prisional-aumentaram-82-durante-a-pandemia-segundo-pastoral/>  Acesso em 09 abr. 2021.

Disponível em: <https://apublica.org/2021/03/exclusivo-denuncias-de-violacao-de-direitos-no-sistema-prisional-aumentaram-82-durante-a-pandemia-segundo-pastoral/> Acesso em 12 abr. 2021.

Disponível em: <https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2020/07/manter-pessoas-de-grupos-de-risco-da-covid-19-presas-e-impor-sentenca-de-morte/> Acesso em 12 abr. 2021.

*Nathália Prince é da AMPARAR

Sobre o cenário atual e o teatro político do qual somos partes.

*Celso Ricardo Monteiro

Primeiramente gostaria de agradecer a oportunidade de escrever mais uma vez nesse espaço tão importante pra todos nós. A Aliança Pró-Saúde da População Negra tem se demonstrado um importante espaço de articulação política, formação de indivíduos e organização comunitária em resposta ao racismo e seu impacto na saúde pública, razão pela qual quero expressar todo o meu respeito à cada um de seus componentes.

Março é o mês dedicado a discussões importantes no mundo, que se concentram no dia 21, dia da eliminação da discriminação racial. Esse é um campo importante de produção do conhecimento e formulação de políticas públicas no Brasil e no mundo, que ganhou evidência no último ano, em função da pandemia de coronavírus que assola o mundo nesse momento cruel que vivemos. Em contrapartida, é o mês em que celebramos o aniversário de meu irmão José Marmo da Silva, Ogã, saudoso fundador da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde – a quem presto minhas homenagens -, que me possibilitou chegar até aqui, acompanhado de inúmeras pessoas estratégicas e lideranças importantes que pautaram o Estado brasileiro diante da necessária promoção da equidade em saúde, em atenção à saúde da população negra. É a partir desse lugar que eu falo, sem conflito nenhum de interesse, portanto, com a instituição a qual faço parte.

A pandemia de COVID-19 tem tensionado o debate sobre o acesso universal ao sistema de saúde brasileiro, ora por conta do diagnóstico de coronavírus, ora sobre a vacina que tanto pedimos aos orixás da velha África ao longo de 2020. Se em determinados pontos do país a vacinação foi interrompida, em outros não faltaram fura-filas e inúmeras outras intempéries noticiadas pela imprensa em todo país. Soma-se a isso a falta de planejamento e logística para a campanha de imunização mais esperada dos últimos anos, uma vez que esse país é referência no assunto. Os mais afoitos, ávidos pelo debate sem análise previa deram-se ao trabalho de atacar pessoas, de partidarizar a discussão e deixaram para depois as questões mais relevantes do processo que certamente marcarão os próximos anos da vida de todos nós, sobretudo no complexo universo político da nação brasileira.

Minhas linhas dedicam-se a uma reflexão despretensiosa, focada na importância das pessoas e longe de ser a verdade absoluta sobre tal tema, se destina à organização da sociedade, a partir da forma como as instituições têm se comportado diante de um fenômeno como a COVID e, o como se dão as relações e comportamentos sociais em meio a catástrofe que completou um ano entre nós. Meu ponto de partida é o Terreiro e o como se dá a sua dinâmica diante da vida em sociedade, sobretudo diante de cenas como a que vivemos atualmente.    

Apesar da grande diversidade existente entre os Terreiros, o conjunto de religiões afro-brasileiras concentra valores étnicos importantes para o desenvolvimento de suas comunidades. Quero destacar a importância do cuidado, do autocuidado e do cuidado coletivo por entender que neles existem importantes sinais e códigos sociais que possibilitam uma mensagem clara e objetiva em reposta ao momento atual. É na casa de Axé que as nossas forças são restauradas, nosso corpo é alimentado de energias positivas e nossas cabeças despertadas para o amanhã, para um novo horizonte, logo, a redefinição de passos e decisões que não poderíamos tomar sozinhos, pois, uma vez no aiye – a terra dos homens – nós, não somos sozinhos. E o exemplo, está na forma como a cerimônia do candomblé toma forma, com a orientação dos Orixás, a ida ao mercado, a seleção dos produtos a serem usadas no processo, a escolha das aves que irão alimentar deuses e homens, as roupas brancas no varal até determinado horário, os galos cantando no quintal, o som ritualístico dos tambores que Ogans mais velhos ensinam aos moleques já escolhidos como grandes autoridades da família independentemente da idade biológica que possuem, a organização da roda que dá vida ao xirê e o diálogo estabelecido entre pais, filhos e irmãos com as divindades da natureza, que moram dentro de nós, a partir do sopro divino.

Aqui, nos diz a filosofia nagô, vamos executar o planejado quando escolhemos voltar para a sagrada terra dos homens criada por Olodumare. Refiro-me ao fato de que esquecemos, mas há um acordo entre nós e as divindades, que nos possibilitou pisar nesse chão novamente, uma vez que ele é o complemento ‘do mundo de lá’, o Orun – mundo dos ancestrais. Sandra Epega diria que é possível ver com os homens aqui na terra, aquilo que já é conhecido das divindades, fato esse que vai aparecer nas narrativas de muitas autoridades africanas por meio do ensinamento sobre Orumilá-Ifá.

O cuidado nesse universo é parte da sagrada atuação das divindades e na relação dessas com os seres humanos. Nesse mundo, nos ensina a tradição, a natureza é viva, as árvores falam, as ervas curam, as águas têm funções específicas e todos os demais aspectos da presença de Olodumare estão contidos em cada uma das coisas e seres por ele criados. Sim, paredes tem ouvidos, conforme as lições aprendidas em Juquitiba, na organização do Àse Igbin de Ouro!

Para meu saudoso irmão Talabyan, por quem aqui quero registrar o meu eterno amor, “os terreiros são um grito de liberdade, onde se faz a comunhão, onde se gera uma nova família espiritual que, muitas vezes, é mais bem estruturada que a família biológica. Nessa família espiritual, existe solidariedade, não existe preconceito de cor, de sexo, de poder, de idade. Pelo contrário: quanto mais idade tem a pessoa, mais bem cuidada ela é. Até o presente momento, ainda não se teve notícias que uma pessoa com bastante idade ou doente, pertencente a uma comunidade terreiro, fosse desprezada ou colocada em um asilo” (FERREIRA. 2003, p.32).

O cuidado, a partir das diferentes tradições afro-brasileiras não só com os idosos, mas em todo o ciclo de vida, é uma prática central na organização comunitária dos Terreiros, pois, vai estabelecer vínculos assertivos entre ‘deuses e homens’ e por vezes esse é o caminho em que se dão as buscas pela benção dos ancestrais do povo negro em diáspora. O discurso de meu irmão, embora seja um ato político, mora na história dos tumbeiros, na travessia dos africanos sequestrados e na manutenção das religiões oriundas de África séculos depois. É um dos valores que dão estrutura ao que conhecemos como organização social do chamado povo de santo, uma vez que todo o processo civilizatório das comunidades africanas a que pertenciam os nossos ancestrais – fundadores dos Terreiros mais antigos desse país, alguns deles no século XVIII – ocorria de forma coletiva, e aqui me refiro aos ritos de passagem mais variados, o que inclui, por exemplo, a emancipação das pessoas.

Também as decisões no campo do cuidado coletivo se davam com a consulta, as indicações e a benção das divindades, no que devemos observar não apenas a manutenção da medicina tradicional, mas o trato com os vegetais e tudo que provém da terra, porque Osaiyn – Orixá considerado médico entre as divindades africanas, por quem tanto chamei nos últimos meses – vai transpor barreiras importantes do tratamento de pessoas servindo-se justamente dos elementos por ele criados na relação com a terra. Isso vale para as demais divindades, cujas características são muito diversificadas, mas não competem entre si, pois são complementares.

Há algo que me agrada muito nas religiões afro-brasileiras: a clareza de que “o código corporal no processo religioso de origem africana busca mais que noções de bem-estar e clama pelo restabelecimento da ligação entre o sagrado e o profano, proporcionando alianças entre terreiros e comunidade, com o intuito de disseminar práticas que revitalizem o ser humano no plano individual e coletivo” (GATO. 2003; p.90).

Nesse contexto, “por suas características de espaço de acolhimento e sustentação, as comunidades de terreiro, ao longo da história do Brasil, tornaram-se núcleos de referência para os afro-descendentes. Ver, sentir e viver práticas rituais, mitos, formas de convivência, baseados em uma matriz de origem africana, permitiram ao indivíduo afro-brasileiro, a partir do espelho fidedigno da tradição do terreiro, ver-se projetado e identificado positivamente em seus valores, sua corporalidade, sua espiritualidade e sua auto-estima” (SILVA, et al. 2003; p.137).

A partir dessa perspectiva, entendo ser importante o diálogo sobre os rumos que tomamos coletivamente nos últimos anos, a forma como estamos organizados, a visão de mundo que emprestamos para a condução dos dilemas existentes no mundo dos homens, a relação estabelecida entre o homem e a natureza, a forma como nos posicionamos diante das cenas apresentadas e o quanto colaboramos para que a humanidade alcançasse a forma como ela está, ou é, como querem alguns cientistas importantes.

É o espírito coletivo quem guarda hoje as possibilidades de avanço em diferentes realidades. Ao me reportar aos valores civilizatórios africanos, quero chamar atenção para a forma como os Terreiros se consolidaram no Brasil, para além da ideia de religião de fundo de quintal, praticada por pretos analfabetos. Aqui, é preciso exaltar a atuação de Mãe Stela de Oxóssi, Mãe Aninha, Tia Massi, minha Mãe Meninazinha de Oxum, minha Tia Beata de Iemanjá; além da importância de Tia Ciata e tantas outras mulheres que lutaram ao longo da vida por igualdade de direitos fazendo defesa da liberdade de fé e de crença nesse país.

O espírito que orienta a defesa do Terreiro – não importa de qual das religiões afro-brasileiras – possibilitou por exemplo, que vários de nós fossemos criados e educados com dignidade a partir desse universo, que diga-se de passagem, era o único em diferentes realidades, dada a ausência do Estado. Vale lembrar a importância da Escola que leva o nome de Mãe Aninha, eternizando-a junto de nós, a criação de organizações importantes como a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e a recente vitória do povo de santo no Supremo, frente às acusações que lhe são imputadas historicamente.

Desde a Barroquinha e a instalação da Casa-mãe, a fundação do Sítio do Pai Adão, da Casa das Minas e os Terreiros heroicamente erguidos pelo povo bantu, além de toda a história do candomblé no recôncavo baiano e as demais manifestações culturais do povo negro brasileiro, como o samba, a capoeira, o jongo, o maculelê, o que está posto é a resistência de todo um povo, o que demandou organização social exemplar, em primeira análise, para sobreviverem aos ditames que estão colocados pela sociedade ampliada. Basta ver o que relatam os estudiosos dedicados ao tema, disponíveis na internet para que todo mundo possa se apropriar. Não há outro jeito de reagir aos atuais mais males da vida, sem voltarmos à origem do problema, sem pôr o dedo na ferida, sem preparar e usar os curativos necessários, sem dialogar com quem nasceu primeiro, sem a orientação de nossos ancestrais, sem a importância do conhecimento adquirido outrora, sem mudança de prática. Não há como avançar sem parar tudo antes, razão pela qual convido-os a reflexão sobre os nossos atos, nossas posturas e condutas nesse mundo líquido.

Agora me respondam: qual tem sido a contribuição de vocês para a contenção da covid-19 em suas realidades? E não me cancelem viu!

Referência Bibliográfica

SILVA, J. M. (org.) Religiões Afro-Brasileiras e Saúde. Maranhão, 2003; 149 p.

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*Professor Licenciado em Ciências Sociais; Babalorixá do Àse Igbin de Ouro. Contatos: celsormont@gmail.com

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