Resenha

Enfim, Abril de 2022!

Nesse 07 de abril, Dia Mundial da Saúde, a Aliança Pró-Saúde da População Negra celebra o seu 4º. Aniversário de sua fundação. Vale aqui, algumas reflexões diante da importância da data.

Essa rede surgiu da necessidade de resposta institucional às questões relacionadas ao impacto do racismo na saúde. A Aliança é filha do Xirê, uma iniciativa das religiões afro-brasileiras que tem buscado ampliar as articulações entre o sistema de saúde, pública e universal com os Terreiros, uma vez que as demandas apresentadas pelo povo de santo relacionam-se com o direito e o acesso à saúde.

Essa iniciativa, que não por acaso tem o Terreiro como nascedouro, é focada na resposta à epidemia de aids, que demanda prevenção, diagnóstico e tratamento das pessoas vivendo com HIV, considerando a visão de mundo de tais tradições religiosas e a forma como tais tradições interagem com esse mundo racista e intolerante, que define a partir da cor da pele do outro, se ele tem direito a nascer, viver e morrer com dignidade, e isso inclui a morte de sua cultura, sua crença, seus valores, e todos os códigos e simbologias referentes ao mundo negro e suas famílias escravizadas ao longo dos tempos. Não é à toa que esse objetivo político se tornou um componente importante da Política Nacional de Saúde da População Negra em sua primeira versão.

Saúde da população negra implica a mudança de comportamento institucional frente ao racismo, restando-nos mobilização, participação popular e controle social das políticas públicas em todo o território nacional, tal como nas lições aprendidas com os movimentos negros mais antigos, no que se destaca a atuação do movimento de mulheres negras.

São muitas as referências e os movimentos políticos que antecedem e alimentam a existência da Aliança, que nasce nos espaços da Câmara dos Vereadores, reunindo lideranças-chave do processo, sob a batuta de grandes atores políticos, com atuação diversificada. Naquele momento, buscava-se conhecer as experiências, aprofundar o debate e enfrentar conjuntamente os desafios que compõem o teatro político que caracteriza a atuação do estado brasileiro.

Com algumas pedras no caminho, mas deu certo o trajeto percorrido, avaliamos. Os relatórios de desempenho, com críticas, avaliações, balanços, prestações de conta, indicação de caminhos e demais subsídios para os passos seguintes, evidenciam os esforços dessa comunidade, que tem buscado qualificar seu trabalho em atenção aos seus pares, a sua família negra afro-brasileira, que é formada também por atores que vivem na diáspora e escolheram São Paulo como o seu espaço-mundo para esse momento da vida.

O advogado Renato Azevedo, da Produção Preta ME, Educação Antirracista e Desenvolvimento Étnico-racial, sediada em Santos, compreende o aniversário de 4 anos da Aliança como “um rito de passagem. Pois uma associação amadurece e cresce a partir do sedimentar e fortalecer de suas posições políticas, culturais e sociais. Acredito que estamos na fase do autoconhecimento e do reconhecimento de nosso espaço e pretensões enquanto coletivo, tão necessário para este momento”.

A Aliança olhou para dentro ao longo de toda sua existência, revisitando suas práticas, a partir de sua “Carta de Princípios” e o conjunto de valores por ela elencados, no que se destaca a sua capacidade técnica e política para alimentar o diálogo com seus pares e os demais atores da sociedade ampliada. Provou isso já no primeiro momento, quando se apresentou publicamente enquanto uma rede, condutora de um fórum inédito na cidade, que se mantem, agora em âmbito virtual, porque assim quis o período pandêmico que ainda não acabou.

O Fórum de Saúde da População Negra do Município de São Paulo, instalado na APEOESP em setembro de 2018 sob o comando de Jéssica Moura e Ana Luiza, tal como seu filho dileto, o Fórum de Cidade Tiradentes conduzido por Geralda Marfisa, são partes desse processo de mobilização intensa que mora na alma dessa “aliança”. Assim é a sua atuação política ao selecionar e divulgar informações consideradas importantes, por meio de suas redes sociais, contando única e exclusivamente com os esforços voluntários de seus membros.

E, como uma rede de fato, tem buscado dialogar com os demais atores, de diferentes municípios e estados, estando eles na gestão, na academia, no parlamento, ou no trabalho braçal da vida cotidiana, como é o caso dos profissionais de saúde e da educação.

Ao discutir o modelo ideal para sua atuação política, essa rede novamente observou não apenas os seus achados, mas também os desafios da mobilização popular em tempos de COVID-19, exclusão digital, negação de direitos sociais, revisão da lei de cotas, politicas pró-cloroquina e anti-vacinas, criminalização dos movimentos sociais, e os demais retrocessos políticos desse mundo chamado Brasil. Quatro anos depois, essa menina que nos reúne em nome do direito à saúde, com respeito às diferenças, atua em resposta ao racismo, com passos vagarosos porque como toda criança, busca aprender com seus mais velhos tudo o que é possível para que assim se alimente e possa ir para o mundo.

É aprendizagem a palavra que define esse espaço tão caro para todos nós”, segundo a maioria dos componentes dessa rede, uma vez que o formato mais marcante desse grupo de expertos é a troca e o intercâmbio entre as pessoas que vão buscar referências na Aliança, quando não as encontram inclusive em sala de aula, embora estejam na universidade.

Se a bagagem ancestral é uma característica dessa rede, a sua capacidade de articulação também merece destaque, pois, os mais velhos estão lá, tendo que aprender a lidar com a tecnologia e as novidades do momento, o que é sempre visto de forma colaborativa pelos seus mais novos.

Em sua análise coletiva sobre o ano de 2021, que alimenta o relatório de desempenho institucional daquele período, a nossa rede nagô nos diz que “a Aliança tem se empenhado cada dia mais, em trazer as pessoas para o centro do debate, oferecendo apoio, qualificando o fazer, o agir, o pensar, visto que essa rede, para nós, é também o nosso espaço de formação coletiva, na prática”. Somos protagonistas desse processo que reúne diferentes esforços.

Nesse mesmo documento, é possível ler que “para a Aliança, nos cenários demarcados pelo racismo estrutural e o impacto deste sobre a sociedade é preciso atuar de forma comunitária, mobilizadora, com participação popular, articulação, monitoramento e controle social das políticas públicas para a promoção contínua dos Direitos Humanos. Esse processo demanda criar ferramentas, estratégias e espaços de amplo debate com diferentes setores da sociedade civil articulada, com parcerias e colaboração com as instituições do Estado Brasileiro”.

Vida longa à Aliança!          

Autor: Aliança Pró-Saúde da População Negra

A Aliança Pró-Saúde da População Negra desde 2018 vem se organizando para o enfrentamento do racismo, mobilizando lideranças de diferentes coletivos negros e organizações, estudantes, pesquisadores, profissionais de saúde e afins, atenta à necessidade de políticas efetivas em atenção à saúde da população negra, no país, no Estado e no município de São Paulo.

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