Resenha da Aliança

E lá se foi o abril de 2021. No Brasil de Bolsonaro os fatos são surpreendentes: temos uma cena simplesmente contraditória que sofre alterações diárias, sempre desfavorecendo os mais pobres, sobretudo aqueles que não têm acesso ao básico para poderem viver com o mínimo de dignidade. Vejamos os exemplos: 

O racismo, considerado fenômeno sócio-histórico, tem consumido a todos nós, de forma avassaladora, em todos os campos e ciclos de vida. Essa é a população mais afetada pela pandemia, mas, os indivíduos declarados brancos são os que mais foram vacinados até dado momento, tal como no caso da aids, em que os homens brancos são os que mais têm HIV comparado com os demais e, as mulheres negras são as que mais vão à óbitos, segundo os dados oficiais do país, do Estado e do município de São Paulo. A população vivendo em situação de rua, com números visivelmente crescentes inclusive na periferia da cidade de São Paulo, não é diferente: são muitos os homens brancos vivendo nessas condições, no entanto, a quantidade mulheres e homens negros nas calçadas implorando por prato de comida e alguns “meréis” é estupidamente gritante.  

A implementação da Política de Saúde Integral da População Negra que já tinha lá os seus problemas, agora, ninguém sabe, ninguém viu; virou apenas manutenção de cargos na estrutura, sem nenhuma relação com as demais instituições e as organizações da sociedade civil. Quando antes questionamos as possibilidades de acesso à educação, agora, o Estado quer nos obrigar a estudar – enviando nossos filhos para o matadouro – em tempos de pandemia, quando a orientação mais citada em todos os campos do globo, é o isolamento social e as medidas de proteção a ele associadas. 

As Escolas são as mesmas: sem investimento nenhum em educação, segue com intensa dificuldade colocada pela  vida em comunidade, sem reformulação das ações, com os mesmos métodos, evasão crescente, desvalorização do professorado e, com o intenso impacto da pandemia não pode contar sequer, com a possibilidade de uso da tecnologia adequada para que docentes e discentes possam realizar a tão esperada troca de conhecimento pensada no processo de ensino e aprendizagem que compõe a produção científica que as pessoas dizem terem adotado, mas não levam para o campo das mudanças de práticas. Fala-se em ensino a distância como disciplina obrigatória e a salvadora da lavoura, mas as pessoas não têm acesso à equipamento, tampouco à internet, hoje considerada recurso vital. Essa narrativa tem sido uma constante, altamente replicada por “A” e por “B”, mas ninguém faz nada com isso; as pessoas não se dão nem ao luxo de auxiliar os seus idosos na busca pela vacina, mesmo quando elas possuem o equipamento e a informação necessária para tal.

Não bastassem todos os desafios colocados no funcionamento do Sistema Único de Saúde ao longo de seus pouco mais de trinta anos, a exemplo do subfinanciamento, a maior política de Estado que segue respirando à força na UTI, vai contar em 2021 com um ‘puxadinho’ no orçamento, porque, só agora em Abril, o quarto mês do ano, o Congresso Federal o orçamento anual, e ao fazer um acordo com o governo genocida, sobressaíram-se as emendas e demais vantagens que beneficiam uns em detrimento de outros, mais uma vez: não tem dinheiro pra vacina, por exemplo, e o problema não é dinheiro. Trocando em miúdos, o governo vai ter dinheiro para gastar a rodo, mas não para a compra dos insumos necessários para a resposta à pandemia e consequentemente, as políticas de Estado que deveriam ocorrer em resposta aos males que assolam essa s0ciedade, que foram escancarados com o advento da COVID-19, também continuarão do jeito que estão: velejando no país à deriva. 

A “obra” de Messias que conduz o atual Estado negacionista, organizada por suas instituições mais diversas, reúne a blindagem do ‘Presidente’ que flerta com o centrão, tem ideologia de base escravagista e vai negando não apenas direitos constitucionais importantes como os recursos necessários para a vida digna das pessoas – que eles querem que sobrevivam sem emprego com uma auxílio emergencial que terá que ser devolvido aos cofres, como se fosse um empréstimo bancário – mas, também as possibilidades de avanço apontados pela participação popular da gestão pública, algo que eles simplesmente odeiam. 

Que esse país  “não é para amadores” nós já sabemos, mas as constantes ameaças à paz e a democracia são violentas e constantes, basta ver que o fato de que o assassino de Floyd foi condenado, mas as pessoas insistem em dar audiência ao Big Brother Brasil. E a conferência do clima, vocês viram que teatro?

E nesse cenário horrendo, a lista de presidenciáveis aumenta todo dia um pouquinho, com a aparição dos representantes do grupo dominante, a manutenção de modelos e narrativas históricas, a intensa acusação de uns e de outros, a ausência de planos de ação construídos com a sociedade e a discussão sobre a moralidade dos “poderes” em segundo plano, enquanto a lista dos milionários da FORBES aumenta em plena pandemia, com brasileiros que ficaram ainda mais ricos enquanto os pobres vão ficando cada vez mais pobres, tal como naquela música de anos atrás… 

Esse “Estado” precisa de fato sair da situação de doente, deixar a lista de rejeitado pelos países que agora não querem nem deixar suas aeronaves pousarem aqui ou receber visitas brasileiras – por motivo nenhum – e avançar no que se refere à sua cura, o seu tratamento, pois, estamos todos adoecendo e morrendo a espera de um leito nas filas do hospital. 

Essa produção ideológica que a União representa bem, embora tenha sofrido uns arranhões, está de fato, mantendo o status quo e as relações de poder na sociedade, evidenciando que o escritório da burguesia vai muito bem, obrigado. Ele segue, com seus componentes e parceiros desfilando pelas praias, jantando com os amigos em Brasília, fazendo festinha na zona sul de São Paulo e enriquecendo, enquanto os velhos grilhões nos prendem aos trens e ônibus de quantidade diminuída em São Paulo, que levam ao trabalho os poucos que ainda conseguiram manter os seus empregos, para alimentar suas famílias com o suado arroz com feijão, sem poder ir ao funk, com nada de samba na laje, sem acesso aos poucos parques da cidade, shopping, etc.

E ainda assim, o silêncio dos bons é ensurdecedor, fato esse que é incompreensível diante dos fatos narrados aqui. Nessa sociedade atual, todo mundo prega o famoso “ninguém solta a mão de ninguém” no entanto, não dão um telefonema para saber do outro, não oportunizam a salvação das lavouras do outro, lamentam mas não se dão o luxo de dividir seus parcos recursos e, mais que isso, criticam abertamente toda e qualquer manifestação contrária ao processo vigente, como se fossem cidadãos de fato atuantes, implicados na mobilização da sociedade e a participação popular para o controle social das políticas existentes que são destinadas ao genocídio crescente.  É preciso mais, minha gente, muito mais!

Autor: Aliança Pró-Saúde da População Negra

A Aliança Pró-Saúde da População Negra desde 2018 vem se organizando para o enfrentamento do racismo, mobilizando lideranças de diferentes coletivos negros e organizações, estudantes, pesquisadores, profissionais de saúde e afins, atenta à necessidade de políticas efetivas em atenção à saúde da população negra, no país, no Estado e no município de São Paulo.

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