18ª. Feira de Saúde do Terreiro da Casa Branca

Denize Ribeiro (Ekedy de Ayra da Casa Branca)

Foto: Ekedy Sinha e a Abiã Paula Castro, participando da XVIII Feira de Saúde da Casa Branca, 2020.

Quantas interpretações uma imagem pode ter? Quantos significados estão implícitos na realização de uma Feira de Saúde num Terreiro de Candomblé? Quais são as tradições do povo negro que são acionadas pelos Terreiros de Candomblé num evento como esse? E, quando tradições e modernidades se encontram, que leituras de passado, presente  e de futuro podemos fazer? Seria o presente uma encruzilhada que nos obriga a olhar o caminho percorrido e mirar as novas avenidas que apontam outros caminhos?

Essas foram algumas das perguntas que permearam meu imaginário no processo de organização da 18ª. Feira de Saúde do Terreiro da Casa Branca, isto sem falar das memórias afetivas ativadas de todas as Feiras passadas e de como esse modelo foi sendo construído ao longo de 18 anos. E, nesse momento de pandemia, onde a saúde da população negra vem sendo profundamente ameaçada, nos desafiamos a fazer mais uma edição desse evento no formato virtual.

Sem dúvidas o desafio posto, nos obrigou a olhar o passado de cada edição  da Feira, as experiências exitosas, as que não deram muito certo, as pessoas que passaram e ajudaram a construí-la, as que já se foram e deixaram sua contribuição, como Ogan Marmo, Serge Pechine, Mãe Nitinha, Mãe Tata e tantas outras pessoas. E o desafio era reconstruir essas imagens e realizar a Feira no meio virtual, espaço que não é de uso comum e tranquilo para algumas pessoas, que muitas vezes não tiveram acesso a essas tecnologias, ou que não se sentem a vontade nesse meio.

Recorremos mais uma vez aos deuses, pedimos a Exu que nos conectasse com o mundo e nos enviasse alguém que soubesse traduzir nossas imagens, desejos e emoções através dessa tecnologia. Pedimos a Ogum que intercedesse e fizesse dessa tecnologia nossa aliada, que ela trabalhasse por nós e nos aproximasse mais uma vez entre nós, com os nossos e para o mundo.

A resposta veio logo e Josy Azeviche, com toda sua competência e calma tomou a causa para ela e foi concebendo todo material de divulgação, transformando os vídeos recebidos, organizando os cards e as páginas para retransmissão e alocação do evento. ela tranquilizou a todos e todas, estabeleceu o tempo de cada fala e Tempo, se fez presente sendo nosso parceiro nessa tarefa.

Uma tarefa na qual não faltou a juventude da casa, colaborando na organização, na articulação e convite aos participantes, como também dando seus depoimentos e nos fazendo perceber que 18 anos depois, aquelas crianças das gincanas, agora estavam ali fazendo e organizando a Feira conosco, suas mais velhas, e o ciclo da vida se conectou, nos fazendo perceber que a tarefa estava feita e a manutenção dessa tradição garantida, Axé!

Este ano, Ekedy Sinha fez as honras da casa como sempre faz, em todos os anos de realização desse evento, ela contou a história da Feira, de como tudo começou na casa de Roverson, um antigo Ogan da Casa Branca, nas comemorações de seu aniversário. Quando nos vestimos de peixe e fomos lá para comer uma moqueca feita pelo Ogan. Nos divertimos muito com nossas fantasias e pensamos ali em como seria bacana uma feira, no estilo africano, na Praça de Oxum da Casa, uma feira diferente com alegria, movimentos culturais negros, alimentos, jovens, crianças e mais velhos, um dia de saúde no terreiro, dai resolvemos convidar os profissionais do sistema oficial de saúde para participarem.

 Então, a Feira de Saúde do Terreiro da Casa Branca aconteceu pela primeira vez em 2003, também como parte do “I Seminário de Saúde da População Negra de Salvador”, onde compareceram muitos pesquisadores e ativistas dos movimentos negros, pois era aniversário de 25 anos do MNU e a feira se encaixou perfeitamente neste calendário, e, de lá pra cá tornou-se uma das iniciativas mais exitosas em termos de aproximação entre os Terreiros de Candomblé e os serviços de saúde do município.  

O nome “feira” sugere movimentação, diálogo e comércio; “saúde”, no entendimento da comunidade, por força implica alegre expansão. Uma feira de saúde em que não se coma bem, em que falte bebida e animação, sem risos, danças e brincadeiras, seria fraca, desanimada. Para ser feira, também precisa incluir algum movimento de compras e vendas, mesmo em pequena escala. Em suma, dá-se que, para os devotos dos orixás, a vida saudável se manifesta como alegria, exige dança e canto. Só assim pode a saúde ser promovida.

Desse jeito a Feira de Saúde entrou no calendário da Casa Branca e vem acontecendo a cada ano sempre após as festas dos orixás da palha, encerrando o ciclo de comemorações com os orixás que estão mais diretamente ligados as questões da saúde, nessa concepção religiosa, desse jeito re-inventamos uma tradição.

O antropólogo Eric Hobsbawm nos diz que o termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as “tradições” realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinado de tempo – às vezes coisa de poucos anos apenas – e se estabeleceram com enorme rapidez, como no caso da nossa Feira de Saúde.

A tradicional Feira segue uma programação pré-estabelecida, onde os orixás são homenageados, pois nesses contextos: segundo o povo-de-santo, são eles que garantem o bem estar de todos. O orixá Ossaim é o patrono divino a cada ano desta Feira, e nas cores votivas desse orixá todo material de divulgação e de decoração do espaço é produzido. 

A Feira tem uma programação sistematicamente discutida entre seus organizadores, que considera: um momento de abertura quando Ekedy Sinha e Ogan Arielson (pai Léo) saúdam a todos os presentes e os Ogans da casa tocam e tiram alguns cânticos. Temos então uma mesa de abertura e a medida que os convidados (as), amigos (as) da casa vão chegando outras mesas vão se formando ao longo do dia. Todos e todas participam de alguma forma, paralelo a isso, na Praça de Oxum do terreiro, muitas barracas são montadas onde se comercializam artesanatos, objetos litúrgicos, alimentos e bebidas. E onde estão presentes também os profissionais do sistema oficial de saúde, do Distrito Sanitário Barra-Rio Vermelho, que nesses 18 anos comparecem a Feira e atendem aos presentes ‘religiosamente”. 

A programação consta ainda de várias atrações culturais, quando artistas locais se apresentam, invariavelmente temos: o grupo de capoeira, a gincana com as crianças,  contação de histórias, massoterapia, reflexoterapia e o samba de roda no final do dia, estes são ingredientes indispensáveis a cada Feira. 

Também o caruru das crianças é oferecido a cada ano, a todos os presentes. Ainda que não aconteçam atos litúrgicos como os que os terreiros celebram no curso de sua atividade religiosa comum, sempre alguma cantiga-de-santo deve ser entoada, alguma oração feita, pois se tem consciência de estar em território sagrado. Esquecer os orixás não seria saudável. Por outro lado, há interesse também pelas mesas redondas e debates, que mostram uma crescente politização do povo-de-santo, cada vez mais empenhado em discutir sua situação e os problemas da cidade. Isso, sem dúvida, é um bom sinal para a saúde dos baianos. 

Este ano, por conta da pandemia e da necessidade de isolamento social a Feira, na sua  décima oitava edição foi feita online, através de uma “ocupação virtual” que durou 5 horas e foi transmitida pelo Facebook e pelo Youtube, dessa forma foi possível contar com a participação de pessoas de diferentes lugares do Brasil e que estiveram em outras edições da Feira, estas puderam dessa forma interagir com as demais, dar seus depoimentos que foram acompanhados por pessoas, as mais diversas, dos quatro cantos do país e do mundo, e teve a seguinte chamada:

“Em sua 18ª. Edição, em 2020 a tradicional Feira de Saúde realizada anualmente pelo Terreiro Casa Branca ocorrerá no espaço virtual. Com o tema 𝗕𝗨𝗦𝗖𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗘𝗦𝗧𝗥𝗔𝗧𝗘𝗚𝗜𝗔𝗦 𝗗𝗘 𝗦𝗢𝗕𝗥𝗘𝗩𝗜𝗩𝗘𝗡𝗖𝗜𝗔 𝗘 𝗙𝗢𝗥𝗧𝗔𝗟𝗘𝗖𝗘𝗡𝗗𝗢 𝗔 𝗦𝗔𝗨𝗗𝗘 𝗠𝗘𝗡𝗧𝗔𝗟. Realizaremos uma super LIVE com transmissão AO VIVO e com 5 horas de duração previstas. Em ritmo de 𝗢𝗰𝘂𝗽𝗮𝗰𝗮𝗼 𝗩𝗶𝗿𝘁𝘂𝗮𝗹 e dando continuidade as recomendações propostas pela OMS que continuam orientando o distanciamento social. Com transmissão ao vivo nas redes sociais”.

Assim o Ilê Axé Iya Nassô Oká, a Casa Branca do Engenho Velho da Federação, uma casa tradicional das mais antigas do Brasil, inovou ao fazer pela primeira vez uma Feira virtual, ao mesmo tempo em que manteve-se a tradição da Feira de Saúde, seguindo sua programação com debates, cantos e reflexões sobre a atual situação sanitária da cidade, do país e do mundo, como também apresentando o cenário político de disputa no qual se encontram as mulheres de terreiro, atuais pré-candidatas ao pleito eleitoral deste ano em Salvador. 

Dessa forma, aprendemos a transgredir com Ekedy Sinha, compreendendo como se faz e se mantém uma tradição, que é também um princípio africano: estar com os pés no chão, não esquecer o passado, viver o presente, construindo outras tradições para o futuro, SANKOFA! Pois então, desse modo, tivemos uma Feira de Saúde Virtual, pra comemorar 18 anos de muito Axé e para podermos continuar reinventando e celebrando nossas tradições!

Notas:  

1. Ordep Serra, Maria Cristina Santos Pechine e Serge Pechine. Candomblé e políticas públicas de saúde em Salvador, Bahia. Mediações, Londrina, v. 15, n.1, p. 163-178, Jan/Jun. 2010

2. Eric Hobsbawm & Terence Ranger (orgs.). A invenção das tradições. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. Págs. 9-23.

 3. Josy Azeviche – disponível em: https://www.facebook.com/ya.oka.712020. Consultado em 30.09.2020.

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