Resenha – julho de 2020.

Coordenação Executiva

          A Aliança é uma rede criada em 2018, em atenção à saúde da população negra. É filha do Xirê, o conjunto de estratégias que integra os Terreiros e as unidades de saúde da Rede Municipal Especializada em IST/AIDS em resposta à epidemia desigual no município de São Paulo. Nessa aliança entre nós, há uma grande potência que claro, vem de nossos ancestrais. Basta ver que o Xirê possibilitou a ampliação do debate técnico sobre aids e religiões afro-brasileiras com importantes lideranças, questionando quais seriam os caminhos a serem percorridos no futuro. Questionava-se o projeto sobre as melhores estratégias a serem conduzidas, no âmbito da gestão pública, mas também no complexo universo dos Terreiros, que há controvérsias, mas diferem-se entre São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, no campo da política. Não esperavam os presentes por dados epidemiológicos e socioeconômicos tão avassaladores para a nossa população especificamente, muito embora o diagnóstico real construído pelo movimento negro há cinco séculos seja de conhecimento público. Desse investimento participou Iyá Luciana de Oyá, o Babalorixá Sidnei Nogueira de Xangô, Iyá Janaina Teodoro, Ogan Roger Cipó e muita gente bacana que acrescentou muito ao processo. 

          Quando o painel chegou à conclusão de que aids era um problema importante em meio a tantos outros relacionados à população negra, rapidamente apontou para a necessidade de ampliação do debate que fosse para além do Terreiro, para além da aids, para além do SUS, porque como todos sabemos, as pessoas não são apenas isso ou aquilo.

          Falava-se na ideia de que aids era uma questão central para inúmeras pessoas, mas como demonstrou o estudo de Celso Ricardo Monteiro, a carga viral social que acometia a população negra, particularmente as mulheres, levando-as à óbito por vezes mais que as demais, em todos os cenários, há um denso caminho a ser percorrido, uma vez que “o racismo persiste”. Por mais de uma vez, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, criada por José Marmo da Silva com apoio da The Ford Foundathion, o Grupo de Valorização do Trabalho em Rede, oriundo da Comissão de Assuntos Afrodescendentes do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo (na gestão de Antônio Carlos de Arruda) e a Rede Nacional de Controle Social e Saúde da População Negra, fruto da intervenção de diferentes ativistas e pesquisadores com atuação entorno da Política Nacional de Saúde da População Negra, antecedentes importantes da Aliança foram listados como referências para esse debate.  Sim, o processo é histórico e não começa na gente!

          Para dar vida ao seu desejo de intervenção conjunta, a rede que ali desenhava-se, optou por chamar os demais e durante as atividades que denominou como Reunião de Lideranças-chave, ouviu experiências, listou desafios, elencou possibilidades e deixou a Câmara dos Vereadores muitas vezes depois do horário agendado, formulando as estratégias a serem seguidas pelo conjunto de coletivos e pessoas físicas advindas de diferentes áreas de atuação e contextos políticos como a produção científica. Fomos lidar com pesquisa científica, por exemplo, adotando referencias importantes que estavam ausentes do curriculum de muitos dos estudantes que transitavam por essa rede naquele momento. Optamos por escrever a nossa própria história, a partir do nosso lugar de fato e de direito, envolvendo os outros e buscando as pessoas para que elas fossem participes desse processo de uma forma geral. O destaque ficou para o Coletivo Mege, que infelizmente, ficou recentemente sem a presença física de Luan, seu vice-presidente, porque, como vem acontecendo com os nossos mais novos, veio a óbito por suicídio. O guerreiro Luan, motivo de orgulho pra todos nós, não suportou essa vida em sociedade!

          Mas, a Aliança ao conectar pessoas e instituições, apoiou-se na vida como ela é, nas teorias antirracistas, na avaliação da política, na produção do conhecimento a partir dos indivíduos e suas narrativas para escrever á várias mãos, a sua carta de princípios. Um grande exercício! Aqui, há os esforços das lideranças vindas da Baixada Santista e de ao menos cinco municípios do interior de São Paulo.

          E a primeira atitude que essa rede tomou foi a criação de um fórum permanente que buscava nos moldes de um sonhado observatório político, ampliar o debate sobre saúde da população negra no município de São Paulo, fazendo controle social da política e ampliando as articulações entre a sociedade civil e o poder público. Com o apoio da APEOESP e colaboração do Prof. Walmir Siqueira o fórum, a coordenação da rede e as oficinas iniciais reuniram lideranças históricas, pesquisadores, novos líderes, profissionais de saúde, gestores, estudantes e docentes que ampliaram a mobilização pró-saúde da população negra necessária para esse município. O fórum que também contou com o apoio do Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo, hoje ocorre virtualmente, por meio de canal criado no YouTube, novamente em busca da ampliação do debate sobre promoção da equidade em saúde.

          As lições aprendidas até aqui, nos fizeram priorizar a comunicação como estratégia-chave para o enfrentamento ao racismo, daí, não apenas o Youtube, a mais nova de nossas ferramentas, mas também o blog que virou site, com recursos próprios dos membros da rede, o Facebook, primeira casa em que fomos morar e agora está sendo reformulada e, a página no Instagram.

          Hoje, a Aliança compreende-se como uma rede multi e intersetorial, calcada em valores africanos e afro-brasileiros, destinada a enfrentar o impacto do racismo na saúde da população negra. Nós “não queremos um SUS para os pretos” mas sim, um sistema de saúde para toda a população brasileira, considerando a integralidade, a universalidade e a equidade não apenas como princípios do sistema, mas também como o caminho necessário para atender a todos os indivíduos na forma como eles são, sem racismo, sem preconceito e sem discriminação. Engatinhando humildemente, caminhamos para nosso terceiro ano e queremos você conosco nessa nova fase, rumo às eleições da Aliança. Vem!

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