Nós, as mulheres negras das periferias da cidade desigual.

ana carolineAna Caroline da Silva*

No dia 01/07 aconteceu o XII Fórum de Saúde da População Negra, trazendo à tona o tema “Lideranças comunitárias e ações em rede para o combate ao racismo!” em diálogo com Elaine Lima, Maria Edjane e mediação de Ana Caroline da Silva. Fazer tal encontro colocando em evidencia duas mulheres negras do Capão Redondo, que fazem parte da periferia e tem sua atuação tanto como pessoas da sociedade civil como prestadoras de serviços, da assistência social de São Paulo em seus territórios, nos mostra exatamente como as histórias são singulares, mas também tratam de uma comunidade inteira, que pode ser encontrada em todas as periferias da cidade.

E quão importante é visibilizar essas mulheres negras que se reconhecem a partir de outras mulheres negras, e desde então iniciam suas atuações fortalecendo sua própria comunidade. E é exatamente isso que nós, comunidade negra em nossa coletividade acabamos fazendo, fortalecendo a nós mesmas e mesmos, pois isso significa minimamente nossa continuidade, trabalhar nossa existência e nossa sanidade.  É exatamente o que esse encontro nos mostra.

Vivemos em um momento em que a pandemia se trata de mais uma das formas que somos aniquilados enquanto população negra, e suas outras formas se dão em figura do próprio Estado, assim como da branquitude que nos abarca em suas facetas. Por isso viver em momento de COVID-19 circulando entre nós, nos atravessa, mas potencializa também várias das ausências que deveriam ser direitos básicos de qualquer cidadão, que nos faz questionar como acessamos aos serviços de saúde por outras causas que não a COVID-19, se consultas e exames estão cancelados?  Como jovens e homens negros usam máscaras se são sempre suspeitos? Como as filas quilométricas nos bancos em busca dos auxílios que demoram, ajudam a suprir a fome?  E quem consegue parar na periferia se somos nós quem prestamos serviços “essenciais”?

Diversas questões como essas nos assolam, e nos faz refletir por quem realmente está pela quebrada se não, quem realmente faz parte dela ou sente empatia por todas as ausências que temos nela.

Algo importante então de ressaltar é a importância de coletividades e pessoas físicas que tem se articulado para diminuir tais buracos, como mulheres costureiras que tem contribuído nas distribuições de máscaras, mulheres como Elaine e Edjane que conseguem identificar famílias para apoiá-las em condições básicas como a alimentação. Entre nós, existem várias experiências nesse amplo universo, por exemplo, os coletivos como o Bloco do Beco, Terça Afro, Uneafro entre outros que são apoiados por pessoas que partilham para direcionarmos todos os mantimentos.

É importante reconhecermos como mulheres potencias como elas, nos permitem partilhar através da palavra como alimento, a complexidade que é ser mulher preta, por isso admiro e reverencio a caminhada de tais mulheres e partilho do entendimento de, como é importante não andar só, onde não criamos a roda, mas damos continuidade nela e com isso conseguimos nos fortalecer e nos apoiar de diversas formas. É muito importante reconhecer também as ações que nem sempre são visibilizadas, mas são imensas em seus afetos. Seguimos em luta e existência!

*Coordenadora do Quilombo Teça-Afro e Co-fundadora da Aliança Pró-Saúde da População Negra

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