Sobre Maio: nossa resenha.

foto resenhaDa Coordenação*

Aqui estamos nós, mais uma vez implicados na mobilização pró-saúde da população negra, que, como sabemos, é uma constante resposta ao racismo e seu impacto na saúde.

Nossa busca tem sido de fato por uma saúde pública, universal, com equidade e de qualidade, tal como preconizado pela legislação brasileira. Todos já vimos que a população negra na periferia tem sofrido com a pandemia de COVID-19 de forma diferente do restante da população: é nesse grupo onde mais ocorrem as maiores taxas de óbitos, segundo os dados do Ministério da Saúde. E isso soma-se aos demais problemas de saúde pública; educação; desenvolvimento social; etc.

O cenário em que estamos merece, portanto, algumas observações por parte de todos nós: em meio à pandemia e inúmeras discussões tão acaloradas, a vida cotidiana tem seguido o seu fluxo chamado de “natural”. É nesse mesmo momento em que João Pedro, de 14 anos é assassinado, em sua casa, pela mão do Estado carioca, com fuzil, granadas e “pelo menos 72 balas na parede”, contadas pelas lideranças locais, uma a uma, o que a gente pode ver aqui, na matéria do Exta Globo.

O noticiário realmente não tem poupado a nenhum de nós. Há notícias de toda ordem, de todos os cantos e naturezas possíveis. Em 21 de Maio, a manchete de um dos grandes jornais chamava nossa atenção para o fato de que “SP é o 2º pior estado na transparência em contratações emergenciais”. A matéria do uol, ilustrada pela foto de Dória e Covas usando máscaras que você pode conferir aqui, tratava do fato de que o levantamento foi feito pela ONG Transparência Internacional no Brasil, analisando os dados disponibilizados por todos os 26 estados e o Distrito Federal e por todas as 27 capitais em sites, redes sociais e portais de transparência sobre os serviços e profissionais contratados entre os dias 12 e 19 de maio. O texto informava com propriedade, que faltava transparência dos governos no que se refere às contratações emergenciais em tempos de pandemia. A pergunta do levantamento nos parece bem nítida: seu estado ou capital fornecem informação clara e fácil sobre as contratações emergenciais? As conclusões do estudo podem ser acessadas em https://transparenciainternacional.org.br/ranking/

O coronavírus no dia 20 de maio, vale lembrar, em meio a publicação do vídeo da fatídica reunião ministerial, reunia uma média de 5.000 mortes e quase 70 mil casos confirmados em todo o Estado de São Paulo.

Com dados atualizados em 23/05, às 11h, a Secretaria de Estado da Saúde nos informava que São Paulo ultrapassava naquele dia, 6 mil mortes por coronavírus. “Mais de 80 mil pessoas já foram diagnosticadas com COVID-19 no estado; 505 cidades têm pelo menos um caso da doença. O estado de São Paulo registra, neste sábado (23), 6.045 mortes pelo novo coronavírus, com 272 óbitos confirmados nas últimas 24 horas”. Havia segundo o site, um total de “11,9 mil pacientes internados em SP, sendo 4.674 em UTI e 7.242 em enfermaria. Até o momento já ocorreram 15.981 altas de pacientes que tiveram confirmação de COVID-19 e foram assistidos em hospitais de SP. A taxa de ocupação dos leitos de UTI reservados para atendimento a COVID-19 é de 73,7% no Estado de São Paulo e 89,2% na Grande São Paulo”.

Para aquela instituição “os principais fatores de risco associados à mortalidade são cardiopatia (58,7% dos óbitos), diabetes mellitus (43,3%), doença neurológica (11,3%), doença renal (10,4%) e pneumopatia (9,6%). Outros fatores identificados são imunodepressão, obesidade, asma e doenças hematológica e hepática. Esses fatores de risco foram identificados em 4.883 pessoas que faleceram por COVID-19 (80,3%)”. Todas essas comorbidades, é bom que se diga, atinge de forma diferenciada a população negra quando comparada à branca, ao longo dos anos, o que muitas vezes é associado a falta de acesso à serviços públicos, universais e de qualidade. E em muitos casos, o racismo institucional inviabiliza a continuidade do tratamento de cada um desses usuários do sistema, dada a forma como são tratadas pelas unidades de saúde. A relação de casos e óbitos confirmados por cidade, com os dados atualizados diariamente, infelizmente sem o uso do quesito raça/cor, pode ser consultada em: https://www.saopaulo.sp.gov.br/coronavirus/

Mas enquanto Brasília trata o coronavírus como gripezinha, o Estado de São Paulo agora resolve flexibilizar sabe-se lá o que, em meio ao crescimento de casos e óbitos, sem oferta de teste para todo mundo e a maior parte dos leitos do município de São Paulo já ocupada. Shoppings center voltando à rotina, e o comércio ativo parecem ser a troca de votos no processo eleitoral vindouro e vejam vocês, que diante de tudo isso, as decisões do governador ignoram em primeira instância, os dados de sua própria Secretaria de Estado da Saúde, além do fato de que há entre nós, os que trabalham na capital mas residem em mais de vinte cidades dormitórios da Grande SP, todas elas com realidades muito diferentes. Ao voltar para o trabalho, nossos filhos ficarão então, desassistidos já que não irão para as escolas que se encontram funcionando no “modo à distância” para quem tem computador e internet, mas as creches nem isso. O transporte público e tantas outras possibilidades de aglomeração também sumiram dessa conta que privilegia o capital, tal e qual o pensamento palaciano de Brasília, apesar do teatro político dos últimos dias. Ignora-se os dados e as evidências, mesmo quando produzidos em casa, o que demonstra bem os rumos que o Estado-nação seguirá, já que uma realidade sempre incide sobre a outra.  E revela-nos a atuação do governo, que esse jeito de fazer política é realmente para privilegiar uns em detrimento de outros, tal como na origem de tais instituições.

Para avançarmos nessa discussão, é preciso lembrar que inúmeros estudos já demonstraram que a população declaradamente branca beneficia-se da ampla rede de serviços na saúde privada, enquanto pretos e pardos são juntos, a maior da parte população sus-dependente e como sabemos, muitas pessoas não conhecem a capacidade instalada do SUS, nunca relatam vivências positivas e todos os indicadores de saúde, apontam a saúde da população negra como uma política que é parte de um Estado genocida. Há uma gama de hospitais privados na cidade de São Paulo, atendendo a classe média burguesa, mas, hospitais importantes, a exemplo do Albert Einstein não estão, porém, situados nas regiões periféricas, como nos lembraram os participantes do IX Fórum de Saúde da População Negra, realizado recentemente, via YouTube.

Além de tudo isso, é muito duro, mas estamos convencidos de que tal como está posto por inúmeras evidências científicas, como aquelas que se debruçaram sobre a “análise” de quem é gente e quem não é, todo processo busca matar preto, como propósito único e histórico de um projeto muito bem estruturado na alma da sociedade. Nesse sentido, todas as investidas giram entorno da não discussão mais aprofundada na relação entre o estado e a sociedade civil, para além das inúmeras lives que brotaram nas redes sociais nos últimos três meses.

Nessa perspectiva, o coronavírus é apenas a peça da vez, mas, não é uma gripezinha; basta ver o movimento gerado pela pandemia nas organizações governamentais e o quanto a sociedade civil organizada – do seu jeito bem peculiar – tem se movimentado em resposta ao COVID-19, que, tem prometido ficar entre nós e se enraizar nesse lindo país tropical reinado pela política defensiva da cloroquina, que deverá alimentar o bolso da indústria a partir do povo da direita, diferente do povo de esquerda, que deverá tomar tubaína, seguindo enfim, as diretrizes palacianas de nossa Brasília e sua gente surreal, embora o país não tenha nesse momento um ministro da saúde.

A crise política que assombra esse país, que assisti abismado as cenas pré-anunciadas da reunião palaciana, reúne entre outras, uma densa troca de farpas e acusações entre as principais autoridades, o desligamento de dois ministros da saúde em menos de dois meses – o que pra nós tanto faz, já que a Política de Saúde da População Negra existe apenas em documentos ministeriais ignorados também pelo governo federal, responsável pela gestão da política e suas diretrizes – além, do processo eleitoral em trânsito, sem que haja muita clareza entorno do como ele vai ocorrer em tempos de COVID.

Nesse momento vai-se também George Floyd, morto pelas mãos do Estado americano. Qualquer semelhança não é pura coincidência, acreditem!

Todas essas questões, evidentemente, partem de uma ordem clássica e muito presente na organização da sociedade e a condução das instituições, sempre guiadas pela visão etnocêntrica que evidencia a presença e ascensão do racismo em todas as esferas da vida moderna. Mas, com essa passividade sem precedentes diante dos fatos, diferente do que ocorreu em Minneapollis, parece que nos limitaremos apenas á nossa repulsa e indignação, reatando-nos apenas dois caminhos para percorremos nos próximos dias: vamos à luta, com tochas de fogo nas mãos para coagirmos o inimigo, ou morreremos todos em “berço esplendido” e desiguais?

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