Mobilização em atenção à saúde da população negra.

By Matheus Igor*

Ao longo do Mês de outubro, do ano de 2019, a comissão de comunicação da Aliança Pró-Saúde da População Negra se reuniu todas as quintas feiras para desenhar o projeto de comunicação do grupo. Trata-se de um conjunto de atividades desenvolvidas com suporte do Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo, representado por Arnaldo Marcolino. Foi um momento bastante importante para a organização, na medida em que proporcionou diálogos fundamentais acerca do que se entende do projeto político da rede, bem como diversas histórias foram contadas por quem viveu o passado ativamente, como Arnaldo Marcolino e José Adão.

Ao sentarmos para criar o projeto de comunicação da Aliança notamos que ele já existia em nossa própria logomarca, o Sankofa. Devemos contar as histórias dos que vieram antes de nós, estarmos constantemente atentos aos ensinamentos que nos são trazidos pelos mais antigos, tendo essas histórias como ponto de partida para planejarmos nosso presente.

Ouvir os mais velhos para construir as ações do presente e para o futuro não se trata simplesmente de respeitar as trajetórias, lutas e vivências das pessoas, se trata de um projeto político de comunicação antirracista. Embora esse respeito seja fundamentalmente importante para a construção de uma militância ética, ouvir o que os mais velhos têm a nos contar é seguir na trajetória que foi historicamente construída pelos ancestrais, e é de fato, a presentificação da ancestralidade.

Produzir um projeto de comunicação digital antirracista urge compreender que o espaço digital não é imaterial e nem desvinculado do “mundo real” e encontra-se abarcado pelas discussões a respeito do direito à comunicação, do racismo, da xenofobia e das intolerâncias correlatas. Sobre a relação da comunicação digital com o mundo material nos aponta Correa (2008) que, “se retomarmos os autores precursores do tema [comunicação digital], a exemplo de Alvin Toffler, Nicholas Negroponte e até mesmo Bill Gates já em meados dos anos 1990, podemos constatar que o espaço das novas mídias esteve separado do mundo físico, real. Diríamos que a apologia da quebra de distâncias e barreiras ocorria no ciberespaço e não leva em consideração a permanência e os limites do corpo, das cidades do espaço real que sempre abrigou todo o aparato tecnológico físico e humano para sua própria ocorrência”.

Portanto, o desafio é: como produzir comunicação digital firmado nos processos históricos de comunicação antirracista, tendo como princípio o direito à comunicação e a ancestralidade partindo do entendimento de que os territórios digitais são, em si, espaços controlados pela burguesia e pela branquitude, na medida em que estão completamente vinculados às estruturas de poder do mundo material.

Ainda fundamentado em Correa (2008), produzir conhecimento em comunicação digital necessita-se de um alicerce bem fundado na tríade de análise tecnologia-comunicação-sociedade, tratadas de forma horizontal. Isto é, não se trata simplesmente de uma discussão sobre a substituição do tipo de tecnologia utilizada para a atividade (comunicação) e sim sobre como essas categorias se encontram integradas no processo de se comunicar digitalmente.

Não há condição de se produzir comunicação digital antirracista sem termos como ponto de partida o direito à comunicação enquanto elemento de garantia dos direitos humanos, visto que antes de tudo o território digital é um campo de disputas de narrativas, onde quem possui mais recursos possui maior êxito no compartilhamento e na produção de suas narrativas, de forma extremamente similar a como acontecem nas mídias tradicionais, porém, com uma diferença: a possibilidade de fenômenos comunicacionais movidos pelo caráter participativo, as redes sociais, os blogs, os sites de multimídia como o Youtube, por exemplo. Diversos são os exemplos de empresas que recebem enxurradas de críticas em suas redes sociais após um ato de racismo por parte da companhia ser divulgado, como ocorreu recentemente com o Advogado Flávio Roberto Moura de Campos, que ao passar por uma situação de racismo em uma rede de pastelarias de São Paulo compartilhou a história em suas redes sociais, o que gerou alto engajamento e inclusive uma manifestação em frente à lanchonete, bem como a proposta de um boicote. Esse exemplo é potente não só para demonstrar a possibilidade que as novas mídias trazem para a luta antirracista, mas para compreendermos a ligação intrínseca entre o ambiente online e o ambiente do corpo e do concreto.

Mas, há que se dizer que é fundamental transpor a barreira de utilizar o espaço da internet somente enquanto ferramenta de denúncia do racismo é fundamental para o projeto de comunicação digital da Aliança Pró-Saúde da População Negra que apostemos em estratégias de promoção de saúde e de vida para a população negra, principalmente pelo fato de que as denúncias já são feitas por diferentes mídias e influenciadoras digitais.

Um projeto de comunicação digital antirracista necessita de constante avaliação dos processos digitais-tecnológicos e sociais que envolvem as questões da internet em si, para que se atinja o resultado esperado, tendo sempre como norte o fato de que a internet é, em si, cabos submarinos que estão diretamente conectados aos Estados Unidos da América e também o fato de que programação é uma linguagem, e sendo linguagem uma forma de controle político, é urgente que os movimentos sociais de todos os campos de atuação invistam em aprender estas técnicas como mais uma possibilidade de disputa de narrativas.

 

 

Referências Bibliográficas

 

Mapa dos cabos Submarinos do mundo (2014) <https://submarine-cable-map-2014.telegeography.com/> Acessado em 26/11/2019.

 

A comunicação Digital nas organizações: Tendências e transformações. SAAD, Elizabeth. 2009. Acessado em 26/11/2019. <https://www.revistas.usp.br/organicom/article/view/139020/134368>

 

* Fundador e Membro da Coordenação da Aliança Pró-Saúde da População Negra.

 

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