Resenha

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Da Coordenação

A participação popular, cerne dessa rede tão diversa, é a melhor resposta que podemos aplicar contra o racismo institucional. Em resposta aos desafios da implementação da política de saúde da população negra no município de São Paulo, o V Fórum de Saúde da População Negra conduzido por essa Aliança aconteceu nesse mês de Maio, novamente na APEOESP, que tem nos acolhido como em nossa casa.

Esse foi mais um momento de grande alegria e muitas emoções entre nós, que criamos essa rede, em busca de um trabalho continuo entre diferentes organizações da sociedade civil. Essa é uma rede multisetorial, em que todos os indivíduos, suas organizações e seus respectivos saberes são muito importantes para a atenção à saúde da população negra no município de São Paulo, razão pela qual, esse espaço político é fundamental, mas deve contar com os esforços de cada um de nós. Para observar as políticas públicas conforme o objetivo desse fórum é preciso olhar para dentro, para nossas bases e com elas dialogar sobre a estrutura, a política, as necessidades e demandas do momento. É um exercício intenso, que demanda diálogo, mas, sobretudo, escuta, atenção e cuidado.

Ali, a vida tem tomado proporções diferentes do esperado no projeto original. A atuação daquelas pessoas e organizações tem gerado cooperações importantes no universo da sociedade civil contra o racismo. Aquele é de fato um espaço em que as pessoas apresentam-se a partir da necessidade de falar com seus pares e com elas desenhar novas estratégias, sempre atentas ao mundo dos sonhos: sem racismo. Quando a Aliança se propõe a essa árdua tarefa: costurar uma atuação conjunta entre atores tão diversos é porque de fato esse é um ponto importante, que precisa de atenção, para construir ambiência, mas também de várias mãos, para que os atores possam atuar juntos, sem perder sua autonomia.

Quando abrimos as inscrições ao V Fórum, deixamos no link o espaço para comentários das pessoas, esperando por perguntas sobre como seria a atividade. Os depoimentos, porém, são impactantes. Para alguns dos inscritos, o fórum é importante por que:

Desejo participar para poder trazer novas perspectivas para nosso povo.

Atualmente faço licenciatura em nível superior e tenho um bom trabalho arquivado de resultado de pesquisas com mulheres e com recorte étnico.

Sou uma mulher preta em formação na área de pedagogia, que atua como acompanhante escolar e observa muito sofrimento nas crianças pretas das instituições escolares (principalmente particulares, além de serem bolsistas). Por isso, estou procurando mais informações e tentando me engajar cada vez mais em ações que pensem a saúde mental preta, por que é um assunto extremamente necessário e urgente.

…sou acadêmica de enfermagem estou no último semestre, meu tcc é sobre violência obstétrica na mulher negra, então gostaria muito de participar do Fórum.

Sou mulher negra e periférica e hoje percebo que, ao alcançar esse lugar/espaço/mundo que é o ensino superior, que por tanto tempo nos foi negado, tive a possibilidade de ao longo da graduação poder me re(construir) enquanto sujeito pertencente desta sociedade. Ao longo da graduação pude perceber/visualizar as enormes disparidades existentes no acesso as políticas públicas, sobretudo quando se refere à população negra e, não é diferente no âmbito da saúde, sendo esta uma das áreas que mais emprega o/a profissional Assistente Social.

Ao me aproximar do Fórum tenho o desejo/anseio de poder contribuir, dentro das minhas possibilidades com as lutas protagonizadas a partir deste espaço coletivo, por crer que somente alcançaremos a equidade com a efetiva participação da sociedade civil organizada.

Parabéns á todos/as que têm construído esse importante e estratégico espaço de discussão e articulação de ações que vão de encontro a qualidade de vida da população negra.

Sou enfermeiro Naturopata e Acupunturista, trabalho com práticas integrativas e complementares, vejo que as PICS vêm de uma cultura muito européia e não temos conhecimento ou a visibilidade de terapias ou possibilidade de inserção da população negra nestas práticas. Seja como terapia ou oferta de “tratamento”.

Com esse fórum permanente, a Aliança ampliou esse mês o grupo destinado á cuidar de sua coordenação executiva e infraestrutura. E ao discutir sustentabilidade da resposta ao racismo, indicando a criação de núcleo que reflita sobre o assunto dialogando com esse fórum, não nos resta dúvida que capacidade técnica não nos falta, que o dinheiro não privilegia o enfrentamento ao racismo e que nós temos que impactar a política, em atenção às demandas de nossa gente.

Além disso, podemos comemorar a acolhida à necessária discussão sobre saúde mental, resultando na criação de um grupo específico para tratar dessa agenda, pra dentro, conosco, entre nós, para nós; e para fora, representando-nos diante das questões políticas dessa área, que tem nos matado, cada dia mais um pouco. Afinal, não há saúde mental nesses universos onde as pessoas não têm direito à vida e, á todo momento o Estado brasileiro nos aponta um gatilho; vide recente reestrutura do Ministério da Saúde. Logo, essa discussão é tardia.

Nessa perspectiva, nos parece razoável que essa rede possa apoiar os universitários que demandam a ela a necessidade de atenção nessa área, uma vez que também a escola pública a que pertencem, transformam todos eles em sujeitos sem direito, ainda que em sala de aula.

Apoiar o alunado, apenas dialogando sobre tais necessidades, diante dos casos de racismo institucional e o impacto do racismo em suas vidas tal como nos foi solicitado, tem sido uma tarefa importante na agenda da Aliança. A experiência que vivemos na UNIFESP com Arnaldo Marcolino e a necessidade de diálogo com os alunos da USP demonstram que ainda há muito por fazer, mas estamos dispostos.

Dessa mesma forma, alavancar o Projeto Megê, reunindo aspectos do saber popular aliado à capacidade técnica de uma psicóloga negra, disposta e com experiência, é outro fator que se associa enfim, à logomarca dessa rede, gerada pelas mãos assertivas de Mahu Lima.

Entendemos que a arte de fazer política pode se dar por meios dignos, de solidariedade e partilha, mas não precisamos derrubar ou competir com os outros, porque a política precisa tão somente de honestidade “no trato”.

Os primeiros passos para a organização do fórum de saúde da população negra na Cidade Tiradentes, como resultado da mobilização das lideranças é algo a ser comemorado, afinal, temos que cuidar de nosso quintal dialogando com os demais, ao invés de incentivar as inúmeras conversas estratosféricas que não beneficiam ninguém.

Com isso, tem-se a importância de um fórum permanente e a nossa gratidão, pelo empenho das pessoas na sua construção.

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