Você conhece o Coletivo Amem?

coletivo amem de preto

A Aliança Pró-Saúde da População Negra surge da soma de esforços entre coletivos e pessoas com atuação antirracismo e seu impacto na saúde. Uma das organizações que compõe a Aliança é o Coletivo Amem, que reuni diferentes atores dedicados á questões como a homofobia, a sexualidade, o racismo e a aids. Entre os componentes estão profissionais de diversas áreas que atuam com vistas a promoção dos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, dialogando sobre as relações étnico-raciais e a violência a que essas pessoas estão expostas na sociedade atual.

Confira abaixo a entrevista com Flip Couto e Biel Lima.

  1. Gostaríamos que você se apresentasse e contasse um pouco da sua história, da formação de sua identidade de negra…

Flip Couto: Sou Filipe Martiniano Couto, mais conhecido como Flip Couto, homem, negro, gay positivo, artista da dança, performer, mediador cultural e um apaixonado pelas relações interpessoais. Sou o filho do meio de um casamento de um homem e mulher negra que teve 3 filhos homens. Cresci no bairro da zona leste chamado Vila Santa Isabel onde as famílias negras eram minorias, e como em muitas famílias a questão de identidade racial não era verbalizada, mas as subjetividades eram muito presentes nas reuniões de familiares e amigos. Aos 15 anos fui introduzido a Cultura Hip Hop e a partir da dança passei a transitar por outros territórios e ambientes que iam além dos limites da família e bairro e nesses encontros fui me conhecendo negro e gay ao mesmo tempo. O não lugar sempre foi uma sensação constante que carreguei até encontrar lugares de acolhimento que me contemplassem.

 2. Qual sua caminhada na construção de sua carreira e militância, o fortalecimento dos seus saberes, até chegar na Aliança.

Sou um artista com uma formação não acadêmica que teve diversos mestres e mentores que contribuíram imensamente para minha construção de carreira e desenvolvimento intelectual. Como artista eu fiz parte de diversos grupos e companhias de dança como Discípulos do Ritmo e grupo Funk Fanáticos que fundei junto com Andre Bidu, sempre em contribuição de indivíduos vindos de diferentes territórios e experiências. Em 2003 passei a atuar como arte educador em estúdios de dança como Casa da dança e Pulsarte e projetos de formação artística nas periferias de São Paulo, como Dança Vocacional.

De 2010 a 2013 morei na Europa trabalhando como artista e professor independente entre França e Alemanha, retornando para o Brasil passei a buscar um trabalho mais autoral para refletir sobre minhas identidades e sobre questões contemporâneas. Em 2015 inicio o processo de um solo que traria as temáticas de negritude, sexualidade e saúde e em 2016 estreio “Sangue” performance manifesto onde falei pela primeira vez publicamente que vivia com HIV e também iniciei a Festa Amem, uma festa negra LGBT criada como espaço de acolhimento e celebração. A partir desses processos passei a olhar mais e discutir a questão do HIV com intersecção em raça, classe e sexualidade. No mesmo ano participei do Seminário HIV e Raça-cor, organizado pelo Programa de DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde de SP onde tive a oportunidade de escutar Edna Muniz, Luiz Eduardo Batista e Celso Monteiro discutindo sobre a saúde da população negra. Em Dezembro de 2016 a Festa Amem realizou uma programação especial do dia mundial da Aids discutindo HIV, negritude e ativismo através da arte e espaços de festa. A ação foi realizada em colaboração com Micaela Cyrino, Aline Ferreira, Carlos Henrique de Oliveira e Ozzy Cerqueira com apoio de HPTN. Todos esses trajetos e encontros me deram a oportunidade de atravessar e ser atravessado por saberes e experiências que me trouxeram ao encontro da Aliança Pró Saúde da População Negra, uma convergência de indivíduos e coletivos que pensam a saúde da nossa gente.

Biel Lima: Eu me chamo Gabriel Hélcio mais conhecido como Biel Lima, 31 anos. Sou cantor, estou na caminhada a 12 anos. Em 2006 conheci uma produtora de Rap da qual colaborei com alguns grupos de Rap e passei a fazer parte de um desses grupos da produtora em 2007, Projeto X. De 2008 em diante venho investindo no meu projeto solo. Entrei para o Coletivo Amem em 2016 onde eu tive oportunidades de me politizar e me perceber como um corpo político.

Minha vivência com a militância se inicia em 2016 junto com o Amem podendo mostrar minha arte e sendo MC das festas, além de participar de diversas ações promovidas pelo coletivo Amem.

3. Conte como nasce o coletivo e sua proposta de atuação.

O Coletivo nasce dos encontros da Festa Amem que durante 2016/2017 realizou diversas edições que além de uma celebração negra lgbt também era uma plataforma artística, onde artistas do cenário independente apresentavam seus trabalhos, era também uma plataforma política trazendo discussões relacionadas à raça, classe, gênero, sexualidade e saúde.
Em Abril de 2017 a Festa Amem completaria um ano e demos conta que éramos mais que uma festa, éramos um coletivo de artistas, produtores, ativistas e intelectuais com atuação em prol da criação de novas estratégias para discutir sobre machismo, homofobia, racismo, classismo, epidemia da Aids, genocídio negro e outros assuntos pertinentes e urgentes para a comunidade negra.

4. O que inspirou o coletivo a ser parte da Aliança?

A Aliança deu a oportunidade do Coletivo Amem estar em contato com outros coletivos e pessoas com diferentes históricos de ações direcionadas para a luta pela saúde da população negra, nos alimentando e inspirando para seguir com as ações da Amem.

5. Com quem o Coletivo conta para ações de enfretamento ao racismo?

Faz parte ativamente do Coletivo Amem Biel Lima, Dani Rocha, Félix Pimenta, Flip Couto, Isis Vergílio, Jeferson Silva e Micaela Cyrino. Cada integrante compartilha seus conhecimentos e propõe discussões e conhecimentos com o publico que frequente os encontros. Além disso contamos com outros coletivos, festas e espaços como Aparelha Luzia, Batekoo, House of Zion e que nos alimentam e nos inspiram no enfrentamento ao racismo.

6. Como esse coletivo percebe as demandas da Saúde da População Negra no seu território de atuação? Quais as ferramentas estratégicas da missão do Coletivo para a consolidação desse direito?

A Aids como um viés do genocídio negro, a epidemia da aids na comunidade negra e periférica e a saúde da mulher negra são demandas que recebemos em nossas atuações. Utilizamos a arte, a festa e conversas públicas como formas de transmissão e tradução de conhecimentos relacionados a vivencias negras que levamos para diferentes espaços e territórios.

7. Quais os desafios e próximos passos para o fortalecimento e continuidade da Aliança? E como esse coletivo pode cooperar?

Manter todos os coletivos unidos trazendo suas demandas para alimentar Aliança é um desafio para darmos passos para nos fortalecer e levar esses conhecimentos produzidos para trocar com os diferentes territórios do município. A Amem pode contribuir com sua rede e linguagem para conectar outras pessoas a Aliança para pensar juntos sobre as diferentes questões relacionadas à saúde da população negra.

Confira abaixo, alguns vídeos e outros links com matérias sobre o Coletivo Amem:
Vídeos:

Matérias

https://www.institutonetclaroembratel.org.br/coletivo-amem-promove-festas-para-debater-hiv-genero-e-negritude/

9. Mande um recado para quem nos lê!

A Aliança é um movimento vivo que está unindo os diferentes saberes sobre saúde da população negra produzidos na historia do movimento negro. Através da Aliança estamos produzindo, aprendendo e conhecendo os nossos passos, que vieram de longe e que nunca pararam de caminhar pelo nosso povo.

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