Conheça Ana Luiza, uma das articuladoras da Aliança Pró-saúde da População Negra

aninha usp

Foto: Eric Filipi.

Ao longo de 2017, Pais, Mães e filhos de santo, gestores e pesquisadores reuniram-se em 05 edições do Painel de IST/AIDS e Religiões Afro-Brasileiras, para acompanhar o desenvolvimento do Projeto Xirê II – Prevenção de DST/AIDS na Roda dos Orixás, conduzido pelo Programa de DST/AIDS da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.Com essa iniciativa entendeu-se que era preciso um debate mais amplo, envolvendo outros sujeitos políticos, entorno das políticas para atenção à saúde integral da população negra, que nem todos conhecem.

A Aliança Pró-Saúde da População Negra foi construída a partir de 10 coletivos, que, com a organização de um fórum permanente, se fortalecem e conduzem uma articulação com a massa, gerando-lhe legitimidade para observar as políticas públicas, tencionando o debate sobre o enfrentamento ao racismo a partir da perspectiva do morro, com a presença e a voz dessa gente, na roda, sentada em pé de igualdade.

É nesse contexto que a Aliança inclusive se reconstitui, ampliando o seu olhar sobre a periferia e os territórios onde estão os coletivos e os outros atores, que democratizam seu pensamento e suas narrativas a partir da avaliação das políticas públicas. Com Jéssica Moura e outros integrantes, Ana Luiza, estudante de Geografia da USP, é uma das articuladoras dessa rede.

  1. Gostaria que você apresentasse e contasse um pouco da sua história, da formação de sua identidade de mulher negra…

 

Sou Ana Luísa, tenho 23 anos, sou estudante de Geografia e sempre senti a necessidade de atuar na militância, conhecer pessoas e suas trajetórias, ter contato com saberes de referências que mostram como fazer e o porquê de fazer.

Como mulher preta, acho que nunca vivi um dia da minha vida sem ter essa certeza, meus pais sempre me falaram sobre negritude (ambos são pretos), sempre me alertaram do racismo que existia fora de casa, então cresci tendo essa discussão sempre muito viva dentro de casa e com a minha família materna. Mas aos 17 anos eu fui aprendendo mais sobre relações raciais, sobre o racismo de maneira mais profunda, e fui entendendo os impactos dele na minha construção enquanto negra, e o quanto tinha uma grande magnitude. Isso me colocou em um grande estado de choque e mais ainda de introspecção, mas fui me fortalecendo com os anos, conhecendo meus pares, minhas inclinações políticas, me aproximando da militância e sempre buscando pessoas negras em qualquer espaço que estivesse.

 

  1. Qual sua caminhada na construção de sua carreira, o fortalecimento dos seus saberes, até chegar à coordenação executiva da Aliança.

Não consigo dizer que tenho uma carreira! Talvez essa palavra ainda me assuste um pouco…; mas com certeza meu alicerce foi a minha família; eles me ensinaram tudo que era necessário para que eu pudesse caminhar e percorrer os caminhos que eu quis; todo o fortalecimento veio primeiro de lá, desde as minhas avós até meus tios e tias, irmãos e meus pais. Das minhas primeiras referências, para pensar questões do povo negro, Malcolm X, com certeza – pois me trouxe a perspectiva da nossa emancipação, da nossa ancestralidade e me ensinou, mais do que tudo, a identificar os falsos aliados.

Estive em contato com a militância da luta pela terra e reforma agrária, da agroecologia, e mesmo que no Estado de São Paulo a questão do negro às vezes fique em segundo plano nas discussões, percebi que alguns dos principais atores dessa luta são pessoas negras. Daí surgiu dentro de mim a necessidade de conversarmos sobre isso em espaços diversos, sobre a negritude, porque muitas vezes as pessoas crescem sem ter dimensão da sua afrodescendência.

A partir disso, e através do Projeto Xirê que tive contato com Iyalorixás e Babalorixás que fazem o diálogo com a saúde da população negra, entendendo o quão grande é a questão do acesso ao sistema de saúde e do negro, e como muitas vezes os dois não se encontram, com as diversas caras que o racismo nos dá.

 

  1. Com quem você conta para as ações de enfrentamento ao racismo?

Com as minhas referências, pessoas que conheci durante a formação da Aliança; amigos que constroem a luta antirracista, pessoas que constroem e fortalecem a cultura afro-brasileira, os cultos, as danças, as lutas, as músicas.

 

  1. Como você percebe as demandas da saúde da população negra no seu cotidiano? Quais as ferramentas que você acredita que sejam estratégicas para a consolidação desse direito?

De todas as formas, as demandas são infinitas, porque a população ainda está distante da saúde integral, e ainda mais distante está a população negra. Desde sofrimentos psíquicos até a falta de saneamento básico, existe muito trabalho que foi feito para melhorar a situação do povo negro, mas temos ainda muita coisa para fazer, no contexto em que vivemos, com o avanço de políticas genocidas.

 

  1. O que te inspirou a ser parte da Aliança Pró-Saúde da População Negra e a estar na coordenação?

Estar em um coletivo que debate saúde da população negra e que propõe ações, com pessoas de lugares e acúmulos diversos, que visam construir de fato uma Aliança. A Aliança foi e é um espaço de fortalecimento, de busca de referências, de partilha de saberes.

 

  1. Quais os desafios e próximos passos para o fortalecimento e continuidade da Aliança?

Trazer mais pessoas para o compartilhamento de ideias e saberes, movimentar os mais novos e trazer os mais velhos para “abençoar” todo o processo, tocar pautas que estão em discussão desde o começo do coletivo; temos os fóruns que estão previstos para acontecer até o fim do ano, o Observatório. Tem muita coisa ainda pela frente e toda a força será bem vinda!

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