A intensa busca pela promoção da equidade nas ações de saúde

LASPN

E nasce a Liga Acadêmica de Saúde da População Negra

por Jade Bento Moura

A imagem acima é conhecida como “Sankofa”: um desenho de um pássaro visto de costas, metaforizando a busca em construir um futuro que não nega o passado, mas aprende com ele.

O Sanfoka faz parte de um todo maior, uma coleção de desenhos chamados de “adinkras”. Responsáveis pela preservação e transmissão de valores fundamentais, essas imagens retratam também ideias na forma de provérbios. Seus criadores, os povos Akan, localizavam-se na costa oeste Africana, mais especificamente nos países Costa do Marfim e Gana.

Bom, todo o teor conceitual dos adinkras é representativo para a criação da primeira Liga Acadêmica de Saúde da População Negra do Estado de São Paulo. Em um contexto marcado pelo surgimento das primeiras ligas acadêmicas com o intuito de mobilizar indivíduos em prol de um bem comum, a LASPN já expõem seus objetivos no próprio nome.

Para estabelecermos um contexto histórico, as primeiras ligas foram criadas no antigo Mundo Grego. Com o intuito de estabelecer alianças para vencer rivais, a Liga de Delos e a Liga do Peloponeso determinaram inícios e fins de conflitos.

Em âmbito nacional, as Ligas se estabeleceram de forma gradual. Primeiramente, a presença das Ligas camponesas – uma união de brasileiros esquecidos pelo até então Estado que se formava- lutando pelo fim do genocídio no campo, tendo em vista o direito á terra e a reforma agrária. Pode-se notar, então, que as ligas se estruturaram na história como uniões com finalidades pré-estabelecidas, criação de vínculos que tinham como função o estabelecimento de uma resistência em conjunto.

Em relação à saúde, o ideal não é diferente: no início do século XX, a elite brasileira era uma das poucas com acesso a algum tipo de atendimento hospitalar. Para a maioria que não era provida desse privilégio, a carteira de trabalho era a única forma de conseguir um atendimento gratuito em alguma Santa Casa de misericórdia. Nesse cenário de abandono, não é estranho que epidemias como tuberculose e hanseníase fossem as maiores causas de morte no nosso país, tampouco parece improvável que o surgimento das primeiras Ligas Acadêmicas derivem dessa problemática.

Estudantes voluntários, por assim dizer, passaram a procurar maneiras de estabelecer o mínimo de dignidade, no âmbito da saúde, para uma população que havia sido negligenciada pelo Estado.

Não tão diferente disso, porém um século depois, a população carente da zona leste de São Paulo também dependeu de voluntárias para terem o mínimo acesso a assistência primária. Adentrando a periferia em 1961, a rede filantrópica de Irmãs Marcelinas já exercia trabalhos e já havia se estabelecido em locais onde não havia ao menos transporte público. Percebe-se, então, que a mudança dos tempos não é sinônimo de presença do Estado quando os corpos mortos são negros. Ademais, a partir de 1996 a Prefeitura de São Paulo juntamente com o Estado de São Paulo estabelecem um convenio com as Irmãs Marcelinas para expandir todo o Programa de Saúde da Família tratado acima.

Com esse conjunto de ideias e nesse contexto, porém anos mais tarde, nasce a LASPN: Primeiramente idealizada pela primeira estudante negra da Faculdade de Medicina Santa Marcelina. Entretanto, foi preciso uma longa espera para que chegassem outras estudantes negras que compartilhassem das mesmas aspirações.

De início éramos seis: três graduandas e três residentes com muitos planos. Do meio de Fevereiro para Maio, estabelecemos metas, reunimo-nos semanalmente e sensibilizamos estudantes não-negros para a causa. Em conjunto, a Liga estava ganhando uma forma. Agora já com uma diretoria montada, tínhamos pouco mais de 10 pessoas, semanalmente, em prol da mesma luta: estabelecer uma base sólida para realizar pesquisas e projetos de extensões sobre a saúde da população negra e sobre quais moléstias acometem mais essa população e suas causas/consequências. Além disso, compartilhamos o dever de -como liga vinculada à Faculdade Santa Marcelina- posicionarmo-nos e atuarmos na criação de protocolos e ações contrárias a qualquer tipo de racismo institucional. Ademais, visto que a Liga por si é generalista, a saúde que buscamos engloba a participação de acadêmicos de todas as áreas da saúde (enfermagem, nutrição, fisioterapia, etc) de toda e qualquer instituição de ensino superior que tenha interesse na nossa pauta.

No meio do caminho, por fim, encontramos e nos identificamos com o projeto de criação de um observatório de saúde da população negra na cidade de São Paulo. Com o ideal de uma grande aliança entre vários coletivos negros e também não negros, o observatório transcende a definição de “liga” acima proposta. Isso porque, vem conseguindo unir pessoas de diferentes áreas de conhecimento em prol de uma causa única.

Nesse sentido, a recém fundada LASPN será um braço ativo nessa construção e pretende fiscalizar a política, sensibilizar e aproximar os estudantes, professores, etc; da comunidade negra de forma indissociável.

Contatos – Liga Acadêmica de Saúde da População Negra: e-mail jabemoura@gmail.com ou telefone (11) 96363-9176

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